terça-feira, 30 de novembro de 2010

E nós?


"Entender que não precisamos ser onipotentes é uma das maiores libertações. Ninguém, homem ou mulher, pai ou mãe, pode ser totalmente responsabilizado pela sorte de ninguém, por seus erros e acertos, por sua solidão ou felicidade - a não ser na medida justa, em que se é responsável por quem se ama, dentro dos limites da capacidade de cada um.

Na maturidade percebe-se que não importa tanto o que fizeram conosco, mas o que fizemos com o que eventualmente nos aconteceu. É uma indagação dramática, que na juventude parece algo a resolver num futuro muito remoto. E nós, e nós? Precisamos descobrir que amadurecer não significa desistir nem estagnar."


O Rio do Meio, Lya Luft

Rastejando


"Quem é essa, agora, que dentro de mim me assusta e me atrai?Sorrateira, ela sou eu ou é alguma sombra que me segue como um bicho rastejando nos calcanhares de minha alma?Lá está, lá está, e sabe tudo, faz tudo: eu sou apenas ferramenta, garganta pela qual ela chama, chama, chama.

A quem deseja, a quem busca, a quem quer?"


O Rio do Meio, Lya Luft

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O desdém dos finados.



"Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar aos outros, embaça-se a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos, não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados."

Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis.

domingo, 28 de novembro de 2010

Não se preocupe...


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

Clarice Lispector.

sábado, 27 de novembro de 2010

Sob seu olhar

"... Ah, o que os seus olhos já tinham visto! Que terras, que mistérios, que tesouros e perigos contemplara. E, no entanto, guardavam ainda aqueles olhos para mim o seu brilho e a sua luz de sol poente... Sim, pois foi sob seu olhar que me descobri mulher. E eu era então como a concha que descobre em si mesma uma pérola."



trecho de A casa das sete mulheres
de Letícia Wierzchowski

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Poeminho do contra.


"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!"

Mario Quintana

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Pecado?



"24 de novembro.

Ela sente que eu sofro. Hoje, o seu olhar penetrou até o fundo do meu coração. Encontrei-a só. Calei-me, enquanto ela me olhava. Não lhe vi mais a beleza adorável, o esplendor da sua formosa inteligência; tudo isso tinha desaparecido aos meus olhos. 0 que agia sobre mim era um olhar mais belo, cuja expressão estava cheia da mais profunda simpatia, da mais doce compaixão. Por que não pude tombar a seus pés? Por que não consegui lançar-me ao seu pescoço e dar-lhe a resposta com mil beijos? ... Ela refugiou-se no seu cravo, dissimulou com o seu jogo de notas harmoniosas, fazendo-as acompanhar da sua voz suave e murmurejante como o leve perpassar do vento.
Nunca seus lábios me pareceram mais sedutores; dir-se-ia que se abriam para aspirar avidamente os  sons dulcíssimos que brotavam do instrumento e aquela boca tão pura devolvia como um eco celestial... Ali! se eu pudesse dizer a você tudo isso como eu o senti! Não resisti mais; inclinando-me,   fiz este juramento:  'Jamais terei a audácia de imprimir em vós um beijo, ó lábios em que pairam os espíritos do céu! E, no entanto... eu quero... Ali! veja você, uma grande muralha se ergue diante da sua alma!... Uma tal felicidade... e, depois morrer expiando esse pecado... Pecado?"

Os  sofrimentos do jovem Werther. Goethe.  

... uma resignação povoada dos sonhos...

"A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou isso. Pois essa impressão também me acompanha por toda parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso labor visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não tem outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranqüilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua célula ... Tudo isso, Wahlheim, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo."
Os sofrimentos do jovem Werther. Goethe.

Em dezembro a cidade cheira a pêssego


"...O último véu! escreveria Lião, ela fica sublime quando escreve, começou o romance dizendo que em dezembro a cidade cheira a pêssego, Imagine, pêssego. Dezembro é tempo de pêssego, está certo, às vezes a gente encontra as carroças de frutas nas esquinas com o cheiro de pomar em redor mas concluir daí que a cidade inteira fica perfumada, já é sublimar demais. Dedicou a história a Guevara com um pensamento importantíssimo sobre a vida e a morte, tudo em latim. Imagine se entra latim no esquema guevariano. Ou entra? E se ele gostava de latim. Eu não gosto? Nas horas nobres, deitava no chão, cruzava as mãos debaixo da cabeça e ficava olhando as nuvens e latinando, a morte combina muito com latim. Não tem coisa que combine tanto com latim como a morte. Mas aceitar que esta cidade cheira a pêssego, exorbita. Qué ciudad será esa? ele perguntaria na maior perplexidade. Tercer Mundo? Terceiro Mundo. Y huele a durazno? Na opinião de Lia de Melo Schultz, cheira. Ele então fecharia os olhos onde eram os olhos e sorriria um sorriso onde era a boca. Estoy bien listo con esas mis discípulas. Enfim, problema dela, o meu é M.N., um M.N. nu em pêlo, muito mais em pêlo do que eu, ele é peludo à beca, assim na base do macaco. Mas um macaco lindo, a cara tão intelectual, tão rara, o olho direito um pouco menor do que o esquerdo e tão triste, todo um lado da sua cara é infinitamente mais triste do que o outro. Infinitamente. Eu poderia ficar repetindo infinitamente infinitamente. Uma simples palavra que se estende por rios, montes, vales infinitamente compridos como os braços de Deus. As palavras. Os gestos se renovando como a pele da cobra rompendo lisa sob a pele velha. E não é viscosa, toquei nela na fazenda, era verde e espessa mas não viscosa. O gesto de M.N. também novo, não é verdade que tudo será como das outras vezes, ele virá de pele limpa, inventando o inventado nas suas minúcias. Se Deus está no pormenor, o gozo mais agudo também está na miudeza, ouviu isto, M.N.? Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquíni não tinha a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno. E a boca? Inquietante a boca mordendo, mastigando, mordendo. Mordendo um pêssego, lembra? Se eu escrevesse, começaria uma história com esse nome, O Homem do Pêssego. Assisti de uma esquina enquanto tomava um copo de leite: um homem completamente banal com um pêssego na mão. Fiquei olhando o pêssego maduro que ele rodava e apalpava entre os dedos, fechando um pouco os olhos como se quisesse decorar-lhe o contorno. Tinha traços duros e a barba por fazer acentuava seus vincos como riscos de carvão mas toda a dureza se diluía quando cheirava o pêssego. Fiquei fascinada.
Alisou a penugem da casca com os lábios e com os lábios ainda foi percorrendo toda sua superfície como fizera com as pontas dos dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Eu queria que tudo acabasse de uma vez mas ele parecia não ter nenhuma pressa: com raiva quase, esfregou o pêssego no queixo enquanto com a ponta da língua, rodando-o nos dedos, procurou o bico, Achou? Eu estava encarapitada no balcão do café mas via como num telescópio: achou o bico rosado e começou a acariciá-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso. Pude ver que a ponta da língua era do mesmo rosado do bico do pêssego, pude ver que passou a lambê-lo com uma expressão que já era sofrimento. Quando abriu o bocão e deu o bote que fez espirrar longe o sumo, quase engasguei no meu leite. Ainda me contraio inteira quando lembro, oh Lorena Vaz Leme, não tem vergonha?"
Trecho de As meninas de Lygia Fagundes Telles

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Traze-me


Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!


Cecília Meireles

Entre o planeta e o sem-fim




No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.


Cecília Meireles

Alquimia


"Parecia que o alimento que estava ingerindo produzia nela um efeito afrodisíaco, pois começou a sentir que um intenso calor lhe invadia as pernas. Um formigamento no centro do corpo não a deixava ficars entada direita em sua cadeira. Começou a suar e a imaginar o mesmo que sentiria se estivesse sentada no lombo de um cavalo, abraçada por um soldado villista, um desses que tinha visto uma semana antes entrando na praça da cidade, cheirando a suor, a terra, a amanheceres de perigo e incertezas, a vida e a morte. Ela ia ao mercado em companhia de Chencha, a criada, quando o viu entrar pela rua principal de Piedras Negras, vinha na frente de todos, obviamente capitaneando a tropa. Seus olhares se encontraram e o que viu nos olhos dele fez com que ela tremesse. Viu muitas noites junto ao fogo desejando a companhia de uma mulher à qual pudesse beijar, uma mulher que pudesse beijar, uma mulher que pudesse abraçar, uma mulher... como ela. Tirou um lenço e tentou, junto com o suor, afastar de sua mente todos esses pensamentos pecaminosos.
Mas era inútil, alguma coisa estranha acontecia com ela. Tentou buscar apoio em Tita, porém ela estava ausente, com o corpo sobre a cadeira, sentado, muito aprumadamente, é claro, mas sem nenhum sinal de vida nos olhos. Desse jeito parecia que num estranho fenômeno de alquimia seu ser tivesse se dissolvido no molho das rosas, no corpo das codornas, no vinho e em cada um dos odores da comida. Desta maneira penetrava no corpo de Pedro, voluptuosa, aromática, ardente, completamente sensual."


Como água para chocolate, Laura Esquivel.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A Alma Imoral


Há um olhar que sabe discernir o certo
do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência
significa desrespeito e a desobediência
representa respeito.
Há um olhar que reconhece os curtos caminhos
longos e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda, que não hesita
em afirmar que existem fidelidades perversas
e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma.


Nilton Bonder

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O prazer


"Com verdadeiro entusiasmo dispôs-se a preparar com um dia de antecedência o guisado para o batizado. Pedro a escutava da sala experimentando uma nova sensação para ele. O som das panelas chocando-se umas nas outras, o cheiro das amêndoas dourando no comal, a melodiosa voz de Tita cantando enquanto cozinhava, tinham despertado seu instinto sexual. E assim como os amantes sabem que se aproxima o momento de uma relação íntima ante a proximidade, o cheiro do ser amado ou as carícias recíprocas em um prévio jogo amoroso, assim estes sons e odores, sobretudo o do gergelim dourado, anunciavam a Pedro a proximidade de um verdadeiro prazer culinário."
Como água para chocolate, Laura Esquivel.

Livres


"Sempre fomos livres nas profundezas

do nosso coração, totalmente livres

homens e mulheres

Fomos escravos no mundo externo

mas homens e mulheres livres em nossa alma e espírito"


Maharak de Praga


Trecho de A Alma Imoral, Nilton Bonder

Mais eis que Pavel se levantou


"Mais eis que Pavel se levantou e logo se fez um silêncio inesperado. A mãe inclinou-se toda para e frente. Pavel começou tranquilamente:

- Como militante do partido, e não falarei para me defender, mas para satisfazer o desejo dos camaradas que também não quiseram um advogado. Vou tentar explicar-vos o que não compreenderam. O procurador qualificou a nossa manifestação sob a bandeira da socialdemocracia de revolta contra o poder supremo e falou constantemente de nós como amotinados contra o tsar. Quero aqui declarar que, para nós, a autocracia não é a única cadeia que mantém o país escravo, ela é apenas a primeira delas, a mais tangível, da qual queremos libertar o povo...

...

- Somos socialistas. Isto significa que somos inimigos da propriedade privada, que divide os homens, que os arma uns contra os outros, cria uma rivalidade inconciliável de interesses, mente ao pretender esconder ou justificar esse antagonismo e perverte todos com a mentira, a hipocriasia e o ódio. Nós dizemos que uma sociedade que considera o homem como um instrumento para enriquecer é desumana, essa sociedade nos é adversa; nós não aceitamos a sua moral hipócrita e falsa. O seu cinismo e crueldade para com os seres humanos repugna-nos; nós queremos lutar, nós lutaremos contra todas as formas de servidão física e moral do homem por esta sociedade, contra todos os processos de exploração a serviço da ambição. Nós, operários, cujo trabalho criou tudo, desde as máquinas gigantescas até os brinquedos das crianças, nós que estamos privados do direito de lutar pela nossa dignidade humana, nós, que todos procuram transformar em instrumentos para atingirem seus fins, queremos agora ter a liberdade suficiente para que nos seja possível , com o tempo, conquistar todo o poder. As nossa palavras de ordem são simples: Abaixo a propriedade privada! Todos os meios de produção para o povo! Trabalho obrigatório para todos! Como vêem , não somos amotinados!

...

- Nós somos revolucionários e assim seremos enquanto houver alguns que apenas mandam e outros que apenas trabalham. Nós lutamos contra a sociedade cujos interesses vos ordenaram que defendêsseis e da qual somos inimigos irredutíveis, como somos também vossos e a reconciliação entre nós só poderá ser possível depois de termos vencido. E nós, os operários, venceremos. Os vossos mandatários estão longe de ser tão forte como pensam! os bens que eles juntam e que protegem sacrificando milhões de seres que subjugaram, essa mesma força que lhes dá o poder sobre nós, provocam entre eles próprios contradições antagônicas e arruinam-nos física e moralmente. A propriedade exige um esforço demasiado grande para se defender e, na realidade, vós todos, nossos donos, sois mais escravos do que nós: a vós, escravizaram-vos o espírito; a nós, o corpo. Não conseguireis libertar-vos do julgo dos preconceitos e dos hábitos que vos matam moralmente; a nós, nada nos impede de sermos interiormente livres; o veneno com que nos intoxicais é mais fraco do que o contra veneno que derramais, sem querer, na nossa consciência. E essa consciência cresce, desenvolve-se sem parar, inflama-se cada vez mais e chama a ela tudo o que há de melhor, de moralmente são, mesmo do vosso meio. Vede: não tendesjá mais ninguém que lute ideologicamente em nome do vosso poderio, esgotastes já todos os argumentos capazes de vos protegerm contra o avanço da justiça histórica; nada mais podereis criar de novo no domínio das idéias, sois ideologicamente estéreis. As nossa idéias crescem, iluminam com crescente claridade, ganham as massas populares e organizam-nas para a luta libertadora. A consciência do grande papel da classe operária une todos os trabalhadores do mundo numa só alma, sendo-vos absolutamente impossível travar o processo da renovação da vida, a não ser com a crueldade e o cinismo. Mas o cinismo é evidente e a crueldade irrita. E as mãos que hoje nos estrangulam, apertarão em breve as nossas mãos. A vossa energia é a energia mecânica do aumento do ouro, ela une-vos em grupos condenados a devorarem-se mutuamente. A nossa energia é uma força viva - a crescente consciência da solidariedade entre todos os operários. Tudo o que fazeis é criminoso, pois o vosso único fim é escravizar os homens; o nosso trabalho liberta o mundo dos fantasmas e dos monstros engendrados pelas vossas mentiras, o vosso ódio e a vossa ambição para atemorizar o povo. Arrancastes o homem da vida e esmagaste-lo ; o socialismo unirá o mundo destruído por vós num único todo grandioso. Assim será!

Pavel parou um instante e repetiu mais lentamente, com mais força:

- Assim será!




Trecho do julgamente de Pavel e outros de seus companheiros militantes e operários do livro A mãe de Máximo Gorki.

Fósseis muito antigos


"Não dormi naquela noite, mas gastei-a lentamente, como quem chupa os gomos de uma laranja, sorvendo seu sumo com prazer e com cuidado. Porque não queria que a noite passasse, nem que o sol rompesse a barra da madrugada, onde a paz do mundo me aproximava ainda mais da grande verdade: eu encontrara o amor.

Decerto, assim o soube desde o primeiro instante, e esse amor não me veio como chuva, mas era um manancial, era um oceano tão igual ao que Giuseppe nos narrara, que soube ser verdadeiro e eterno — até hoje ainda o amo com a mesma faina, mesmo gasto o tempo, mesmo passadas tantas coisas, mesmo que esse oceano já se tenha evaporado e dele só me reste o seu sal e alguns escombros de sonhos, como fósseis mui antigos que eu acarinho com cuidado para que não virem pó."

Trecho de A casa das sete mulheres de Letícia Wierzchowski

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Telha de vidro




Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...


A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...


Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.


Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

 

Rachel de Queiroz.

A tarde sobe.



Ao rés da Terra o tempo é escuro
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.

Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.

Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.

A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.

A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.
Joaquim Cardozo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Gargalhada




Gargalhada

Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
— e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.

Cecília Meireles

É o que me interessa


Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem

A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem

Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa?

Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor

Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou

Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa

Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão

A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa

O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa
.
Lenine
.
*Para ouvir, clique aqui.

Necessidade de amor


"Uma nuvem rosa chegou até ele, envolveu-o, fazendo com que saísse a todo galope até o rancho de Mamãe Elena. Juan, que assim se chamava o sujeito, abandonou o campo de batalha deixando pra trás um inimigo semi-morto, sem saber para quê. Uma força superior controlava seus atos. Movia-o uma poderosa necessidade de chegar o mais rápido possível ao encontro de alguma coisa desconhecida em um lugar indefinido. Não lhe foi difícil encontrar. Guiava-o o cheiro do corpo de Gertrudis. Chegou justo a tempo de descobri-la correndo no meio do campo. Soube então para que tinha chegado até ali. Esta mulher precisava imperiosamente que um homem lhe apagasse o fogo abrasador que nascia de suas entranhas. Um homem com necessidade de amor igual à dela, um homem como ele.

Gertrudis deixou de correr quando o viu vir em sua direção. Nua como estava, com o cabelo solto caindo-lhe até à contura e irradiando uma luminosa energia, representava o que seria uma síntese entre uma mulher angelical e uma infernal. A delicadeza de seu rosto e a perfeição de seu imaculado e virginal corpo contrastavam com a paixão e a luxúria que lhe saía atropeladamente pelos olhos e pelos poros. Estes elementos amalgados ao desejo sexual que Juan por tanto tempo havia contido por estar lutando na serra fizeram com que o encontro entre ambos fosse espetacular.

Ele, sem deixar de galopar para não perder tempo, se inclinou, tomou-a pela cintura, alçou-a até o cavalo, diante dele, acomodando-a frente a frente e a levou. O cavalo, aparentemente seguindo também ordens superiores, continuou galopando como se soubesse perfeitamente qual era seu destino final, embora Juan tivesse soltado as rédeas para abraçar e beijar apaixonadamente Gertrudis. O movimento do cavalo se confundia com o de seus corpos enquanto realizavam sua primeira cópula a todo galope e com alto grau de dificuldade."


Como água para chocolate, Laura Esquivel

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Saborear a vida

"Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la."
.
Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Síntese


AMOR É SÍNTESE


"Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor"


Mário de Andrade

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O último botão

Ai, se eles me pegam agora

Ai, se mamãe me pega agora de anágua e de combinação
Será que ela me leva embora ou não
Será que vai ficar sentida, será que vai me dar razão
Chorar sua vida vivida em vão
Será que faz mil caras feias, será que vai passar carão
Será que calça as minhas meias e sai deslizando pelo salão
Eu quero que mamãe me veja pintando a boca em coração
Será que vai morrer de inveja ou não

Ai, se papai me pega agora abrindo o último botão
Será que ele me leva embora ou não
Será que fica enfurecido será que vai me dar razão
Chorar o seu tempo vivido em vão
Será que ele me trata à tapa e me sapeca um pescoção
Ou abre um cabaré na Lapa e aí me contrata como atração
Será que me põe de castigo será que ele me estende a mão
Será que o pai dança comigo ou não?

Essa canção faz parte da obra Ópera do Malandro, do Chico Buarque.
Ouçam aqui a interpretação na voz das Frenéticas.

Extravasei os meus limites



"Recuerdo mui bien os acontecimentos dos primeiros meses daquele ano de 1838, talvez o ano mais importante da minha vida — quando pus meus olhos sobre a figura de Garibaldi e, como um rio que sai do seu álveo, extravasei os meus limites e inundei recantos que nem ousara imaginar existentes..."


Trecho de A casa das sete mulheres de Letícia Wierzchowski

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Lei do mansinho


“E, outra coisa, o Diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro - dá gosto! A força dele, quando quer - moço ! - me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza."


Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa

Canto do homem marcado.



Sou um homem marcado ...
Em país ocupado
Pelo estrangeiro.
Sou marinheiro
Desembarcado;
Marcho na bruma das madrugadas;
                                                    Mas-
Trago das águas
A substância
Da claridade.
DA CLARIDADE!
Sou o indefinido,
O inesperado
Viajante da tarde nua,
Que uma dor augusta comoveu ...

Tudo a renuncia,
                        Tudo
O que eu conservo
De altivo e puro,
Sob o meu manto adormeceu.

Em outros tempos e antigos
Plantei alfaces, vendi craveiros,
Fui hortelão, fui jardineiro;
E a escura terra ...
                            Terra
Dos meus canteiros,
Sempre arqueava o dorso
Ao gesto amigo
De minha mão.

Hoje provo, na boca, um desgosto,
Hoje tenho, no sangue, um sinal
Que não foi e não é das algemas
Da prisão da Vida,
Nem do jugo da Terra,
Nem do pecado original.
Muito bem sei, senhores,
Que sou um sonho cravado na morte,
Que sou um homem ferido no olhar ...
E que trago, bem viva, entre as nódoas do mundo,
A mancha do meu país natal.

Sou um homem manchado de sombra
No sonho, no sangue, no olhar,
Sou um homem marcado ...
Em país ocupado
Pelo estrangeiro.

Mas esta marca temerária
Entre a cinza das estrelas
Há de um dia se apagar!
Por isso é que me amparo às mãos dispersas da noite ...
E pelos pés difusos do vento é que marcho
Na bruma das madrugadas ...
Trazendo das águas a substância
Da claridade
E um cheiro manso
De manhã fria ...

Oh! Soledade!
Oh! Harmonia!


Joaquim Cardozo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Liberdade




"Liberdade na vida é ter um amor pra se prender" 

(Fabrício Carpinejar)

Uma história, uma canção.



Queridas literatas,

Hoje decidi, a pedido da Vanessa, compartilhar um vídeo que nos emocionou bastante. Uma canção que foi criada, despretensiosamente, por um músico ao ver uma fotografia no jornal, que é de tal sensibilidade, que minhas palavras não lhe fazem jus. É uma melodia muito serena, surgida de algo tão simples, que me lembrou muitos dos poemas que já compartilhamos, de autores clássicos, que costumavam dizer que sua obra também partia do cotidiano mais puro. 
No vídeo, vocês podem acompanhar a história contada por ele mesmo, e depois uma performance da canção. Espero que gostem. 

Para visualizar este vídeo, clique aqui

"É possível ver poesia em qualquer lugar"

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Capítulo LXXV - O desespero


"Escapei ao agregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto dela, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me à cama, e rolava comigo, e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez. Via-me já ordenado, diante dela, que choraria de arrependimento e me pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles."


Dom Casmurro, Machado de Assis

Carta de amor


Carta de Amor

Encontrada no carro do metrô, e dizia assim:
“Estou pensando seriamente em declarar greve de mim a você, por tempo indeterminado. Não me pergunte os motivos. Você sabe. Ou é melhor que não fique sabendo, porque assim a greve é mais completa, e eu quero justamente ser um grevista mais total do que os outros grevistas que brigam por salário decente e condições decentes de trabalho.
Quero que você fique perturbada e confusa, sem saber o que eu estou fazendo ou deixando de fazer, e a todo instante a se perguntar: “Que greve é esta? Em que consiste? Quando vai acabar? Que coisa mais idiota.” É isso mesmo: você achará idiota a minha greve, porque não a entenderá. Então, o menor gesto que eu fizer, a palavra mais sem significação, tudo se transformará para você em enigma, você me sentirá o cara mais misterioso do mundo, por que não dizer: o mais tenebroso.
Seu pequenino e encantador cérebro de colibri dará voltas a si mesmo e não perceberá o sentido da minha abstenção oculta - de quê? E eu continuarei firme, inflexível, grevista, sem expor minhas reinvidicações. De jeito nenhum.
Então você se desmanchará em suspiros, se enrodilhará toda a meus pés, pedirá perdão de faltas não cometidas, e que eu não sabia que você fosse capaz de cometer. Confessará também as cometidas, mas eu não darei bola e continuarei a tratar você da maneira ambígua que estou anunciando. Você será um poço de petróleo repleto de amor, eu recusarei sondar esse poço inesgotável, ou finjo que estou sondando mas com vontade de não encontrar o menor indício de petróleo. Esta fase será curta, pois não quero abusar de sua amorosidade oferecida. Passemos à segunda fase.
Você se irritará comigo e, perdendo a paciência, me dirá duas ou três coisas ácidas.Jogará um copo na minha direção. Ou uma xícara, dessas do trivial do café. Eu desviarei o corpo do copo ou da xícara, e se você me jogasse em cima um samovar seria a mesma coisa: não desistiria da greve. Aí você adotava em princípio a idéia de enlouquecer. Só em princípio. Eu é que estou pinel - concluiria você. Conclusão provisória, a ser confirmada pelo psiquiatra, mas o psiquiatra, que é meu amigo, lhe responderia: Ele é assim mesmo, isso passa.
Não vai passar não, talvez minha greve seja eterna, e nunca mais seremos aqueles namorados que conquistaram o Oscar de melhor idílio no Festival de Angra dos Reis. Continuaremos, sim, dois namorados unidos por esse laço invisível da greve, como o empresário está cada vez mais preso ao assalariado, ou este àquele, quando entram em conflito de interesses, mas esta nossa categoria não dá prêmio…
A terceira fase…Haverá terceira fase? Você apelará para nossos amigos comuns, ou para o Ministério da Comunicação Social, que aliás não existe, existe só o Ministério, não a Comunicação? E que é que eles podem fazer para acabar com uma greve tão fechada, tão silenciosa, tão sutil, que nem a reforma da legislação trabalhista, por engenhosa que seja, lhe dará remédio?
Bem, se você faz mesmo questão fechada, se sua vida ficar dependendo da elucidação das causas primárias e outras, da minha greve, então eu deixo no carro do metrô um envelope lacrado, com os seguintes dizeres ( no verso) :
“Razões e sem razões de minha greve particular - para ser aberto no caso de uma explosão nuclear”
Não adianta abrir, nessa emergência? Nem haverá quem abra o envelope? Quem sabe? Sempre resta um sobrevivente, ou vários. A Bíblia o demosntra. Eu não posso revelar o meu segredo nem diante de uma comissão de inquérito parlamentar. Minha greve é absoluta. Tem paciência, garota, não faço por menos, nem admito intervenções no meu sindicato. Meu sindicato sou eu.
Tem uma coisa. Não deduza de tudo isto que estou declarando guerra. Guerra é guerra, greve é outra coisa, e a minha então é outríssima. Sem quebra, atenuação ou extinção de amor. Pois você não vê, boba, bobíssima, que isto ainda é amor, é mais amor do que amor, é minha forma de amar você, de um jeito só meu, que nem você mesma é capaz de apreender em sua mineral abismalidade? “Dio, como te amo! Até.”

Carlos Drummond de Andrade (Boca de Luar)

Defeitos



"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."

(Clarice Lispector)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Em mim


"Dentro, em mim, um anjo bom vive no inferno, um mortal que anseia o dom de ser eterno. Eu sou eus, às vezes posso ser bem mais"

Djavan

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

É ela! É ela! É ela! É ela!


É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou - é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura -
A minha lavadeira na janela!
Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! Que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...
Oh! de certo... (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela... que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores...
Tremi de febre!
Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio...
É ela! É ela! - repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! Meu Deus! Era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas
Se achou-a assim mais bela - eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camizinhas!
É ela! É ela! meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou - é ela!
Álvares de Azevedo.

A lista...

Faça uma lista de grandes amigos.
Quem você mais via há dez anos atrás?
Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?

Faça uma lista dos sonhos que tinha!
Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados pra sempre?
Quantos você conseguiu preservar?

Onde você ainda se reconhece:
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?

Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava?
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava,
Hoje são bobos, ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás?
Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?

Quantos segredos que você guardava,
Hoje são bobos, ninguém quer saber?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?


Oswaldo Montenegro.
Para ouvir esta canção, clique aqui.

sábado, 6 de novembro de 2010

O dia passou lentamente...


"O dia passou lentamente, seguido de uma noite de insônia e de um outro dia ainda mais longo. Esperava por alguém, mas ninguém chegou. Escureceu, caiu a noite. Uma chuva fria suspirava e arrulhava ao longo das paredes; o vento zumbia na chaminé, uma coisa qualquer agitava-se no chão. A água gotejava das beirais e as suas notas melancólicas acompanhavam estranhamente o tic-tac do relógio. Parecia que toda a casa vacilava debilmente, indiferente a tudo o que a cercava, entorpecida no abatimento..."

Trecho de A mãe de Máximo Gorki

É isto que sou: um cofre ...


"A história de Giuseppe Garibaldi está impressa na minha pele, como as digitais dos meus dedos. Ultimamente, nas noites de frio, quando ando pela casa escura e já deserta de todos, ouvindo o eco das minhas botinas neste chão de madeira tantas vezes encerado, é nele que penso, é ele que ocupa toda a minha alma como se eu não fosse mais do que um refúgio para as lembranças do que ele já fez, e é no calor da sua recordação que me aqueço. É isso que sou: um cofre, uma urna daqueles sonhos perdidos, do sonho de uma república e do sonho de um amor que se gastou no tempo e nas estradas desta vida, mas que ainda arde em mim, sob essa minha pele agora tão baça, com a mesma pulsação inquieta daqueles anos."

Techo de A casa das sete mulheres de Letícia Wierzchowski

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Racional


"Fosse eu ( que por acaso levo o nome

Da rara e prodigiosa espécie: o Homem)

Livre para escolher meu próprio curso,

A carne certa e o sangue natural

Queria ser Macaco, Cão ou Urso,

Tudo menos o fútil Animal,

Tão orgulhoso de ser Racional."


Lord Rochester (1647-1680)


Tradução de Augusto de Campos

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Açúcar



O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim.

Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale.

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.

Ferreira Gullar