quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Revelação do nome...

"O Reinaldo se chegou para perto de mim. Acho que olhei apara ele com que olhos, isso ele não via, não notava. Ah! ele me queria bem, digo ao Senhor. Mas graças a Deus, o que ele falou foi com a sucinta voz:
- Riobaldo, pois tenho um particular que eu careço de contar a você, e que esconder mais, não posso... Escute: eu não me chamo Reinaldo de verdade; este é um nome apelativo inventado por necessidade minha, carece de você não me perguntar porquê, tenho meus fados. A vida da gente faz sete voltas, se diz: a vida  nem é da gente.
Ele falava aquilo sem rompante, sem entornos, mas antes com pressa, quem sabe se com um tico de pesar e vergonhosa suspensão.
Você era menino, eu era menino...
Atravessamos o rio na canoa, nos topamos naquele porto, desde aquele dia é que somos amigos; que era eu confirmei e ouvi:
- Pois então, o meu verdadeiro nome é Diadorim... guarda esse segredo, sempre quando sozinhos a gente estiver é de Diadorim que você deve me chamar, digo e peço, Riobaldo.
Assim eu ouvia, era tão singular; muito fiquei repetindo em minha mente as palavras, mode de me acostumar com aquilo. 
Ele me deu a mão; e daquela mão eu recebia a certeza dos olhos, os que ele punha em mim, tão externos, quase triste de grandeza, deu a alma em cara.
Adivinhei o que nós dois queríamos, logo eu disse Diadorim... com uma força de afeição, ele sério sorriu, e eu gostava dele, gostava, gostava...
Aí tive o fervor de que ele carecesse de minha proteção toda a vida, eu terçando, garantindo; punindo por ele...
Diadorim me dizendo que esse era o real nome dele, foi como dissesse notícia do que em terras longas se passava.
Da razão desse encoberto nem resumi curiosidades, mas  havendo o ele querer que só eu soubesse e que só eu esse nome verdadeiro pronunciasse, entendi aquele valor.
A amizade nossa, ele não queria acontecida simples, no comum sem encalço. 
A amizade dele, ele me dava, e amizade dada é Amor..."



João Guimarães Rosa, in GRANDE SERTÃO: VEREDAS.

Vaquinha




"Na estrada das tabocas, uma vaca viajava. Vinha pelo meio do caminho, como uma criatura cristã. A vaquinha vermelha, a cor grossa e afundada - o tom intenso de azamar. Ela soleava as ancas, no trote balançando e manso, seus cascos no chão batiam poeira. Nem hesitava nas encruzilhadas. Sacudia os chifres, recurvos em coroa, e baixava testa, ao rumo, que reto a trazia, para o rio, e - para lá do rio - as terras de um Major Quitério, nos confins do dia, à fazenda do Pãodolhão."


Trecho de Sequência, in PRIMEIRAS ESTÓRIAS,  de João Guimarães Rosa. 

Que mundo é este?






Na BR-116, é certo que encontrarei engarrafamento e cachorro morto. A cada animalzinho estirado na mureta, tapo os olhos de meu filho Vicente – não é uma boa recordação para se levar à escola logo de manhã.

Mas fui notando que teria que deixá-lo vendado o trajeto inteiro. No intervalo de 10 quilômetros, avistava um novo corpo já despossuído de alma e Deus, inchado e anônimo, sem a gentileza de cruz e o amparo da coleira.

Cachorro atropelado na Grande Porto Alegre é tão frequente quanto as capivaras abatidas na BR-471.

Procurava desvendar como o cão atingiu o miolo da estrada. Na minha idealização, o bicho esquecera o caminho de volta e não contara com sorte ao cruzar a mão dupla. Por uma série de tristes casualidades, fora jogado na loucura assassina de um autorama.

Não me passava maldade pela cabeça. Sei o quanto um cachorro costuma cheirar caminhos e se distrair com facilidade.

Até que descobri que existe um nazismo canino. Cachorros são abandonados na rodovia pelos próprios donos. Aquilo que vejo todo o dia não representa acidentes, é, sim, resultado de uma matança deliberada.

Famílias compram ou recebem de presente um cãozinho, acham que é barbada cuidar, enfrentam uma semana de experiência, gastam demais com ração e higiene, e decidem sacrificar o hóspede. Sem tempo a perder, desaparecem com as provas de uma existência. E ainda raciocinam que não é um assassinato, que Palmira Gobbi é apenas o nome de uma avenida. Fingem acreditar que não cometeram mal nenhum, largaram o pequeno à mera provação do destino.

O motivo é sempre gratuito. Matam o cão para prevenir incômodos. Ou porque ele adoeceu ou envelheceu. Ou porque o remédio e o veterinário são caros ou porque o abrigo é longe e não podem se atrasar para o trabalho.

Que mundo é este? Pela janela, eliminam uma vida com a leviandade de alguém que arremessa longe uma bagana de cigarro, uma embalagem de picolé, um saco de salgadinho. Absolutamente crentes na impunidade.

Quem faz isso não merece perdão. Não merece explicação. Não merece defesa. É um crime premeditado. A mais implacável execução que conheço, antecedida de lenta tortura emocional.

Repare na insensibilidade: o dono mente ao seu cachorro que irão passear, para desová-lo no corredor da morte. Calcule o terror do bichinho quando não entende o castigo, e corre uivando, desesperado, atrás de um carro que nunca será mais o seu.

Cansei de esconder os olhos de meu filho.



Fabrício Carpinejar




terça-feira, 29 de novembro de 2011

Armadilhas

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e agüentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.
Ferreira Gullar

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Eu respiro



"Em todo caso o futuro parecia vir a ser muito melhor. Pelo menos o futuro tinha a vantagem de não ser o presente, sempre há um melhor para o ruim. Mas não havia nela miséria humana. É que tinha em si mesma uma certa flor fresca. Pois, por estranho que pareça, ela acreditava. Era apenas fina matéria orgânica. Existia. Só isto. E eu? De mim só se sabe que respiro.
Embora só tivesse nela a pequena flama indispensável: um sopro de vida”.
A Hora da Estrela, Clarice Lispector.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Brasília

Museu Nacional, por Jéssyca Rodrigues



I
Brasília em que me esqueço e lembro 
acostar-me minha vida em seu corpo alado 
e dizer-me: 
Liberdade, 
a que me ensinastes e em que me tens, 
ao velho lobo do Planalto.
II 
Vira o milênio, vira o século,
mais te quero se me livras 
de tuas ausências e solidões. 
Que dó, que alívio 
desconhecer os meus vizinhos. 
E de vista, 
os indignados síndicos: 
anti-social que és 
se pudessem te prenderiam 
no mastro de uma aldeia mísera. 
Brasília liberdade, minha liberdade. 
III 
Como a uma esfinge 
não sei se te chamas Brasília 
ou apenas um planisfério do céu 
excessivamente coevo e desabrido. 
Há de ti diversas em mim 
dos tempos idos. Que amor e lembrança 
das estradas vazias e dos ônibus corcovejantes. 
Corcovejavam por quê? 
E os pastéis de queijo da Rodoviária, 
boiando em óleo, que em certos dias 
navegavam em níveis de pura gula ou prazer?
Ou aquelas noites solenes 
de ir-se à sala Martins Pena para ouvir Brahms, 
com sotaque de Beatles 
e voltar enregelado para casa, 
com o vento batendo a impunidade terrível 
com que Oscar* te adornou... 
Ou em tempos mais antigos, 
o cheiro que tinha o Núcleo nas chuvas, 
resinas de tabuado ruim, de becos fétidos, de pai ausente. 
Do escritório empoeirado 
e a fascinante secretária, cujas pernas perfeitas 
ainda agem na memória. 
Depois aquela chácara no Lago Sul, 
com mulher e filhos pequenos 
e os primeiros devaneios sobre a natureza. 
Depois aquela copa de sibipiruna na chapada do Corisco 
e o leito enorme da moça. 
IV 
Depois, mais, depois... Acho que Brasília não existe. 
Deixa-se existir. 
No fim sobra a poesia do desastre de Brasília, 
pó de ouro no fim da tarde de Brasília. 
Nada sei ou muito. Acolá, nas roças, 
o sol dura até amanhecer. 
Errei eu ou errou o lugar? 
Pois sabe-se que ninguém 
está em Brasília por acaso, 
mas por designação do poder ou dos astros. 
Examino em mim teus defeitos 
e não me acho assim tão direito, 
nem tão errado. 
Ao que interessa o cidadão SQN 316 – I – 504? 
Dizem: tudo, nada deve fazer-se de geometria 
da tirania. 
Quem virá libertar Brasília, a inlibertável, 
para toda e qualquer 
tara libertável, ou não? 
A menina carece seviciamentos. 
Senão como viveremos nós, 
nossos ratos de porão? 
VI 
Brasília, cidade amada 
e alongada, 
desastre monocórdio da humanidade. 
Mas amo tua amnésia e disritmia. 
Brasília é como viver em lugar nenhum 
e curiosamente viver em algum lugar 
onde só há vias, carros e elevadores. 
Mas amo a esplanada de Oscar, 
rampa descendente para decolar astronaves, 
e outras coisinhas mais 
do Santo Piemontês.* 
VII 
Inundemos Brasília de Amores. 
Nenhum planejador de espaços 
conseguiria planejá-la de amores 
e os amores é que conduzem à vida. 
Não nascemos e vivemos 
para viver a cidade natimorta 
e enrijecida de sonhos póstumos. 
Liberte-se, Brasília, ainda que tarde. 
Em Goiás, em Minas, no Norte inteiro 
algumas coisas do Brasil 
pedem a tua transfiguração e metamorfose, 
assim bela, mas não assim triste. 
Mas amo teus jardins. 
Feitos para encherem-se 
de estátuas, meteoros e namorados. 
As quadras numeradas 
por flores, obeliscos e cores 
nunca vistos nos ultramarinos. 
Quadra 316, por favor? 
- à direita, no obelisco rosa. 
O nome agora é quadra Azulinha. 
E a danceteria dancing days? 
- No centro do Eixão. Perdão, 
- no Cerradão Sul. 
VIII 
Do anonimato 
brotou Brasília, flor do Eu. 
Capital da liberdade 
e de uma Ilusão de Ilha 
no coração do Brasil quinhentista. 
Terra minha amada 
e recriada, 
com lágrimas de mel. 


1996.




Paulo Bertran, poeta goiano, in  SERTÃO DO CAMPO ABERTO.

O olhar do outro


Evolução de Uma Miopia

"Se era inteligente, não sabia. Ser ou não inteligente dependia da instabilidade dos outros. Às vezes o que ele dizia despertava de repente nos adultos um olhar satisfeito e astuto. Satisfeito, por guardarem em segredo o fato de acharem-no inteligente e não o mimarem; astuto, por participarem mais do que ele próprio daquilo que ele dissera. Assim, pois, quando era considerado inteligente, tinha ao mesmo tempo a inquieta sensação de inconsciência: alguma coisa lhe havia escapado. A chave de sua inteligência também lhe escapava. Pois às vezes, procurando imitara si mesmo, dizia coisas que iriam certamente provocar de novo o rápido movimento no tabuleiro de damas, pois era esta a impressão de mecanismo automático que ele tinha dos membros de sua família: ao dizer alguma coisa inteligente, cada adulto olharia rapidamente o outro, com um sorriso claramente suprimido dos lábios, um sorriso apenas indicado com os olhos, "como nós sorriríamos agora, se não fôssemos bons educadores" — e, como numa quadrilha de dança de filme de faroeste, cada um teria de algum modo trocado de par e lugar. Em suma, eles se entendiam, os membros de sua família; e entendiam-se à sua custa. Fora de se entenderem à sua custa, desentendiam-se permanentemente, mas como nova forma de dançar uma quadrilha: mesmo quando se desentendiam, sentia que eles estavam submissos às regras de um jogo, como se tivessem concordado em se desentenderem.
Às vezes, pois, ele tentava reproduzir suas próprias frases de sucesso, as que haviam provocado movimento no tabuleiro de damas. Não era propriamente para reproduzir o sucesso passado, nem propriamente para provocar o movimento mudo da família. Mas para tentar apoderar-se da chave de sua "inteligência". Na tentativa de descoberta de leis e causas, porém, falhava. E, ao repetir uma frase de sucesso, dessa vez era recebido pela distração dos outros. Com os olhos pestanejando de curiosidade, no começo de sua miopia, ele se indagava por que uma vez conseguia mover a família, e outra vez não. Sua inteligência era julgada pela falta de disciplina alheia?
Mais tarde, quando substituiu a instabilidade dos outros pela própria, entrou por um estado de instabilidade consciente. Quando homem, manteve o hábito de pestanejar de repente ao próprio pensamento, ao mesmo tempo que franzia o nariz, o que deslocava os óculos — exprimindo com esse cacoete uma tentativa de substituir o julgamento alheio pelo próprio, numa tentativa de aprofundar a própria perplexidade. Mas era um menino com capacidade de estática: sempre fora capaz de manter a perplexidade como perplexidade, sem que ela se transformasse em outro sentimento.
Que a sua própria chave não estava com ele, a isso ainda menino habituou-se a saber, e dava piscadelas que, ao franzirem o nariz, deslocavam os óculos. E que a chave não estava com ninguém, isso ele foi aos poucos adivinhando sem nenhuma desilusão, sua tranqüila miopia exigindo lentes cada vez mais fortes.
Por estranho que parecesse, foi exatamente por intermédio desse estado de permanente incerteza e por intermédio da prematura aceitação de que a chave não está com ninguém — foi através disso tudo que ele foi crescendo normalmente, e vivendo em serena curiosidade. Paciente e curioso. Um pouco nervoso, diziam, referindo-se ao tique dos óculos. Mas "nervoso" era o nome que a família estava dando à instabilidade de julgamento da própria família. Outro nome que a instabilidade dos adultos lhe dava era o de "bem comportado", de "dócil". Dando assim um nome não ao que ele era, mas à necessidade variável dos momentos.
Uma vez ou outra, na sua extraordinária calma de óculos, acontecia dentro dele algo brilhante e um pouco convulsivo como uma inspiração.
Foi, por exemplo, quando lhe disseram que daí a uma semana ele iria passar um dia inteiro na casa de uma prima. Essa prima era casada, não tinha filhos e adorava crianças. "Dia inteiro" incluía almoço, merenda, jantar, e voltar quase adormecido para casa. E quanto à prima, a prima significava amor extra, com suas inesperadas vantagens e uma incalculável pressurosidade — e tudo isso daria margem a que pedidos extraordinários fossem atendidos. Na casa dela, tudo aquilo que ele era teria por um dia inteiro um valor garantido. Ali o amor, mais facilmente estável de apenas um dia, não daria oportunidade a instabilidades de julgamento: durante um dia inteiro, ele seria julgado o mesmo menino.
Na semana que precedeu "o dia inteiro", começou por tentar decidir se seria ou não natural com a prima. Procurava decidir se logo de entrada diria alguma coisa inteligente — o que resultaria que durante o dia inteiro ele seria julgado como inteligente. Ou se faria, logo de entrada, algo que ela julgasse "bem comportado", o que faria com que durante o dia inteiro ele seria o bem comportado. Ter a possibilidade de escolher o que seria, e pela primeira vez por um longo dia, fazia-o endireitar os óculos a cada instante.
Aos poucos, durante a semana precedente, o círculo de possibilidades foi se alargando. E, com a capacidade que tinha de suportar a confusão — ele era minucioso e calmo em relação à confusão — terminou descobrindo que até poderia arbitrariamente decidir ser por um dia inteiro um palhaço, por exemplo. Ou que poderia passar esse dia de um modo bem triste, se assim resolvesse. O que o tranqüilizava era saber que a prima, com seu amor sem filhos e sobretudo com a falta de prática de lidar com crianças, aceitaria o modo que ele decidisse de como ela o julgaria. Outra coisa que o ajudava era saber que nada do que ele fosse durante aquele dia iria realmente alterá-lo. Pois prematuramente — tratava-se de criança precoce — era superior à instabilidade alheia e à própria instabilidade. De algum modo pairava acima da própria miopia e da dos outros. O que lhe dava muita liberdade. Às vezes apenas a liberdade de uma incredulidade tranqüila. Mesmo quando se tornou homem, com lentes espessíssimas, nunca chegou a tomar consciência dessa espécie de superioridade que tinha sobre si mesmo.
A semana precedente à visita à prima foi de antecipação contínua. Às vezes seu estômago se apertava apreensivo: é que naquela casa sem meninos ele estaria totalmente à mercê do amor sem seleção de uma mulher. "Amor sem seleção" representava uma estabilidade ameaçadora: seria permanente, e na certa resultaria num único modo de julgar, e isso era a estabilidade. A estabilidade, já então, significava para ele um perigo: se os outros errassem no primeiro passo da estabilidade, o erro se tornaria permanente, sem a vantagem da instabilidade, que é a de uma correção possível.
Outra coisa que o preocupava de antemão era o que faria o dia inteiro na casa da prima, além de comer e ser amado. Bem, sempre haveria a solução de poder de vez em quando ir ao banheiro, o que faria o tempo passar mais depressa. Mas, com a prática de ser amado, já de antemão o constrangia que a prima, uma estranha para ele, encarasse com infinito carinho as suas idas ao banheiro. De um modo geral o mecanismo de sua vida se tornara motivo de ternura. Bem, era também verdade que, quanto a ir ao banheiro, a solução podia ser a de não ir nenhuma vez ao banheiro. Mas não só seria, durante um dia inteiro, irrealizável como — como ele não queria ser julgado "um menino que não vai ao banheiro" — isso também não apresentava vantagem. Sua prima, estabilizada pela permanente vontade de ter filhos, teria, na não ida ao banheiro, uma pista falsa de grande amor.
Durante a semana que precedeu "o dia inteiro", não é que ele sofresse com as próprias tergiversações. Pois o passo que muitos não chegam a dar ele já havia dado: aceitara a incerteza, e lidava com os componentes da incerteza com uma concentração de quem examina através das lentes de um microscópio.
À medida que, durante a semana, as inspirações ligeiramente convulsivas se sucediam, elas foram gradualmente mudando de nível. Abandonou o problema de decidir que elementos daria à prima para que ela por sua vez lhe desse temporariamente a certeza de "quem ele era". Abandonou essas cogitações e passou a previamente querer decidir sobre o cheiro da casa da prima, sobre o tamanho do pequeno quintal onde brincaria, sobre as gavetas que abriria enquanto ela não visse. E finalmente entrou no campo da prima propriamente dita. De que modo devia encarar o amor que a prima tinha por ele?
No entanto, negligenciara um detalhe: a prima tinha um dente de ouro, do lado esquerdo.
E foi isso — ao finalmente entrar na casa da prima — foi isso que num só instante desequilibrou toda a construção antecipada.
O resto do dia poderia ter sido chamado de horrível, se o menino tivesse a tendência de pôr as coisas em termos de horrível ou não horrível. Ou poderia se chamar de "deslumbrante", se ele fosse daqueles que esperam que as coisas o sejam ou não.
Houve o dente de ouro, com o qual ele não havia contado. Mas, com a segurança que ele encontrava na idéia de uma imprevisibilidade permanente, tanto que até usava óculos, não se tornou inseguro pelo fato de encontrar logo de início algo com que não contara.
Em seguida a surpresa do amor da prima. É que o amor da prima não começou por ser evidente, ao contrário do que ele imaginara. Ela o recebera com uma naturalidade que inicialmente o insultara, mas logo depois não o insultara mais. Ela foi logo dizendo que ia arrumar a casa que ele podia ir brincando. O que deu ao menino, assim de chofre, um dia inteiro vazio e cheio de sol.
Lá pelas tantas, limpando os óculos, tentou, embora com certa isenção, o golpe da inteligência e fez uma observação sobre as plantas do quintal. Pois quando ele dizia alto uma observação, ele era julgado muito observador. Mas sua fria observação sobre as plantas recebeu em resposta um "pois é", entre vassouradas no chão. Então foi ao banheiro onde resolveu que, já que tudo falhara, ele iria brincar de "não ser julgado": por um dia inteiro ele não seria nada, simplesmente não seria. E abriu a porta num safanão de liberdade.
Mas à medida que o sol subia, a pressão delicada do amor da prima foi se fazendo sentir. E quando ele se deu conta, era um amado. Na hora do almoço, a comida foi puro amor errado e estável: sob os olhos ternos da prima, ele se adaptou com curiosidade ao gosto estranho daquela comida, talvez marca de azeite diferente, adaptou-se ao amor de uma mulher, amor novo que não parecia com o amor dos outros adultos: era um amor pedindo realização, pois faltava à prima a gravidez, que já é em si um amor materno realizado. Mas era um amor sem a prévia gravidez. Era um amor pedindo, a posteriori, a concepção. Enfim, o amor impossível.
O dia inteiro o amor exigindo um passado que redimisse o presente e o futuro. O dia inteiro, sem uma palavra, ela exigindo dele que ele tivesse nascido no ventre dela. A prima não queria nada dele, senão isso. Ela queria do menino de óculos que ela não fosse uma mulher sem filhos. Nesse dia, pois, ele conheceu uma das raras formas de estabilidade: a estabilidade do desejo irrealizável. A estabilidade do ideal inatingível. Pela primeira vez, ele, que era um ser votado à moderação, pela primeira vez sentiu-se atraído pelo imoderado: atração pelo extremo impossível. Numa palavra, pelo impossível. E pela primeira vez teve então amor pela paixão.
E foi como se a miopia passasse e ele visse claramente o mundo. O relance mais profundo e simples que teve da espécie de universo em que vivia e onde viveria. Não um relance de pensamento. Foi apenas como se ele tivesse tirado os óculos, e a miopia mesmo é que o fizesse enxergar. Talvez tenha sido a partir de então que pegou um hábito para o resto da vida: cada vez que a confusão aumentava e ele enxergava pouco, tirava os óculos sob o pretexto de limpá-los e, sem óculos, fitava o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego."
Clarice Lispector

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Uma casinha...




"Na manhã de um dia que brumava e chuviscava, parecia não acontecer coisa nenhuma. Estava-se perto fogo familiar, na cozinha, aberta, de alpendre, atrás da pequena casa.  No campo, é bom; é assim. Mamãe, ainda de roupão, mandava Maria Eva estrelar ovos com torresmos e descascar os mamões maduros. Mamãe, a mais bela, a melhor. Seus pés podiam calçar as chinelas de Pele. Seus cabelos davam um louro silencioso. Suas meninas-dos-olhos brincavam com as bonecas. Ciganinha, Pele e Brejeirinha - elas brotavam num galho. Só o Zito, este, era de fora; só primo. Meia-manhã chuvosa entre verdes: o fúfio fino borrifo, e a gente fica quase presos, alojados, na cozinha ou na casa, no centro de muitas lamas. Sempre se enxergam o barranco, o galinheiro, o cajueiro grande de variados entortamentos, um pedaço de um morro - e o longe"


Trecho de   Partida do audaz navegante, de João Guimarães Rosa, in PRIMEIRAS ESTÓRIAS. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Você lê



"Você lê e sofre. Você lê e ri. Você lê e engasga. Você lê e tem arrepios. Você lê , e sua vida vai se misturando no que está sendo lido”.
Caio Fernando Abreu .

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Guimarães Rosa, a meninice e os animais.




"Poucos, pouquíssimos escritores souberam tão bem captar as iluminações da meninice quanto Guimarães Rosa. Os seus meninos são tão reais, e tão meninos, que cada um de nós neles também revê suas saudades. Não sei, por outro lado, de nenhum outro escritor que tenha sentido mais fundo a visão afetuosa que liga um guri aos animais. Os bichos - os passarinhos, a cabra e os cabritos, os cachorros, as formigas, os cavalos, o coelho, o tatu, o caxinguelê, e os peixes, e os macacos, e as galinhas com os pintinhos, e os bois, os muitos bois, sempre - são como intercessores entre as crianças e o mundo. O peru e o tucano põem a terra e o céu bem juntinho do Menino de 'As margens da alegria' e de 'Os cimos', nestas Primeiras estórias. Com a chegada do gato torna-se ainda mais deslumbrante o 'Jardim fechado', de Ave, palavra"


Trecho do ensaio Estas Primeiras Estórias, de Alberto da Costa e Silva.

Mudança



"Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando."

João Guimarães Rosa, in GRANDE SERTÃO: VEREDAS. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Una Furtiva Lacrima



- Sabe o que mais eu aprendi? Eles disseram que se devia ter alegria de viver. Então, eu tenho. Eu também ouvi uma música linda, eu até chorei.
- Era samba?
- Acho que era. E cantada por um homem chamado Caruso que se diz que já morreu. A voz era tão macia que até doía ouvir. A música chamava-se "Una Furtiva Lacrima". [...]
"Una Furtiva Lacrima" fora a única coisa belíssima na vida de Macabéa. Enxugando as próprias lágrimas, tentou cantar o que ouvira. Mas a sua voz era tão crua e tão desafinada como ela mesma era. Quando ouviu começara a chorar. (...) Chorava, assoava o nariz , sem saber mais por que chorava. Não chorava por causa da vida que levava porque, não tendo conhecido outros modos de viver, aceitara que com ela era "assim". Mas também creio que chorava porque, através da música, adivinhava, talvez, que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma.

Trecho de A hora da estrela, Clarice Lispector.

*Para ouvir Una Furtiva Lacrima na voz de Caruso, clique aqui.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O vento



"Naquela tarde de princípios de novembro, o sueste que soprava sob os céus de Santa Fé punha inquietos os cata-ventos, as pandorgas, as nuvens e as gentes: fazia bater portas e janelas: arrebatava de cordas e cercas as roupas postas a secar nos quintais: erguia as saias das mulheres, desmanchava-lhes os cabelos: arremessava no ar o cisco e a poeira das ruas, dando à atmosfera uma certa aspereza e um agourento arrepio de fim de mundo.
Por volta das três horas, um funcionário da Prefeitura assomou à janela da repartição e olhou por um instante para as árvores agitadas da praça, exclamando: "Ooô tempinho brabo!"
Num quintal próximo, recolhendo às tontas as roupas que o vento arrancara do coradouro e espalhara pelo chão, uma doma de casa resmungava: " É para um vivente ficar fora do juízo!"

O Retrato, Parte II de O Tempo e o Vento.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A mulher madura

Leonardo da Vinci. La Scapigliata.


A Mulher Madura

Affonso Romano de Sant'Anna


O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Terá que ser hoje


"Se me quiserem amar, terá de ser agora: depois, estarei cansada. Minha vida foi feita de parceria com a morte: pertenço um pouco a cada uma, para mim sobrou quase nada. Ponho a máscara do dia, um rosto cômodo e fixo: assim garanto a minha sobrevida. Se me quiserem amar, terá de ser hoje: amanhã, estarei mudada."
Lya Luft

Vaga-lume







"Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim, era lindo! - tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria."





João Guimarães Rosa, in As margens da alegria, PRIMEIRAS ESTÓRIAS.

sábado, 5 de novembro de 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Mundo próprio

Monet. Mulher de branco no jardim.


“Era essencialmente feminina com esse extraordinário dom, peculiar às mulheres, de fazer-se num mundo próprio, onde quer que se encontrasse. (...) Desprezada das relações humanas (eram tão difíceis as pessoas), fora muitas vezes ao jardim receber das suas flores uma paz que os homens e as mulheres não lhe davam nunca.”

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf