sábado, 31 de dezembro de 2011

He won't go






Some say I'll be better without you,
But they don't know you like I do,
Or at least the sides I thought I knew,
I can't bear this time,
It drags on as I lose my mind,
Reminded by things I find,
Like notes and clothes you've left behind,
Wake me up, wake me up when all is done,
I won't rise until this battle's won,
My dignity's become undone,

But I won't go,
I can't do it on my own,
If this ain't love, then what is?
I'm willing to take the risk,
I won't go,
I can't do it on my own,
If this ain't love, then what is?
I'm willing to take the risk,

So petrified, I'm so scared to step into this ride,
What if I lose my heart and fail, declined,
I won't forgive me if I give up trying,
I heard his voice today,
I didn't know a single word he said,
Not one resemblance to the man I met,
Just a vacant broken boy instead,

But I won't go,
I can't do it on my own,
If this ain't love, then what is?
I'm willing to take the risk,
I won't go,
I can't do it on my own,
If this ain't love, then what is?
I am willing to take the risk,

There will be times, we'll try and give it up,
Bursting at the seams, no doubt,
We'll almost fall apart, then burn to pieces, 
So watch them turn to dust,
But nothing will ever taint us,

I won't go,
I can't do it on my own,
If this ain't love, then what is?
I'm willing to take the risk,
I won't go,
I can't do it on my own,
If this ain't love, then what is?
I am willing to take the risk,

Will he, will he still remember me?
Will he still love me even when he's free?
Or will he go back to the place 
Where he will choose the poison over me?
When we spoke yesterday,
He said to hold my breath and sit and wait,
I'll be home so soon, I won't be late,

He won't go,
He can't do it on his own,
If this ain't love, then what is?
He's willing to take the risk,
So I won't go,
He can't do it on his own,
If this ain't love, then what is?
I'm willing to take the risk,

'Cause he won't go,
He can't do it on his own,
If this ain't love, then what is?
We're willing to take the risk,
I won't go,
I can't do it on my own,
If this ain't love, then what is?
I'm willing to take the risk.



Adele.
Ouçam aqui

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Eu cria nos coqueiros velhos...




"Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze; ao contrário, os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício, nem os cantos, outra utilidade. Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que nos velhos livros. Pássaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o estio, toda a gente viva do ar era da mesma opinião."



Trecho de Dom Casmurro, de Machado de Assis. 





Imagem por Marcelo Reis

O gosto do sacrifício




"Em casa, brincava de missa - um tanto às escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira. Arranjávamos um altar, Capitu e eu. Ela servia de sacristão, e alterávamos o ritual, no sentido de dividirmos a hóstia entre nós; a hóstia era sempre um doce. No tempo em que brincávamos assim, era muito comum ouvir à minha vizinha: "Hoje há missa?" Eu sabia o que isto queria dizer, respondia afirmativamente e ia pedir hóstia por outro nome. Voltava com ela, arranjávamos o altar, engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. Dominus, non sum dignus...¹ Isto, que eu devia dizer três vezes, penso que só dizia uma, tal era a gulodice do padre e do sacristão. Não bebíamos vinho nem água; não tínhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício"


Trecho de Dom Casmurro, de Machado de Assis. 




¹Dominus, non...: citação de um trecho da missa católica: "Senhor, eu não sou digno (de que entreis em minha casa)"

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Flor do embiroçu






Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Fil. Elis




Quando a noturna sombra envolve a terra
E à paz convida o lavrador cansado,
À fresca brisa o seio delicado
A branca flor do embiroçu descerra.


E das límpidas lágrimas que chora
A noite amiga, ela recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.


Então, à luz nascente, a flor modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o sono quando tudo é festa,


Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a asa impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!


Também ela ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ela da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio às ilusões viçosas.


É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrelas;
Abrasada de amor, palpita ao vê-las,
E a todas cinge no ideial abraço.


O rosto não encara indiferente,
Nem a traidora mão cândida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.


Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua asa amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.


Ama-te a flor que desabrocha à hora
Em que o último olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, rescende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.


Machado de Assis

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O corvo



Em certo dia, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais".
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;

Cada brasa do lar sobre o colchão refletia
A sua última agonia.
Eu ansioso pelo Sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui, no peito,
Levantei-me de pronto, e "Com efeito,
(Disse), é visita amiga e retardada
"Que bate a estas horas tais.
"É visita que pede à minha porta entrada:
"Há de ser isso e nada mais".

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo, e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
"Mas como eu, precisando de descanso
"Já cochilava, e tão de manso e manso,
"Batestes, não fui logo, prestemente,
"Certificar-me que aí estais".
Disse; a porta escancar, acho a noite somente,
somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra
Que me amedronta, que me assombra.
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, com um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Älguma coisa que sussurra. Abramos,
"Eia, fora o temor, eia, vejamos
"A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais,
"Devolvamos a paz ao coração medroso,
"Obra do vento, e nada mais".

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
de um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta em um busto de Palas:
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gosto severo, - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
"Vens, embora a cabeça nua tragas,
"Sem topete, não és ave medrosa,
"Dize os teus nomes senhoriais;
"Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que eu lhe fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta a dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário.
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse,
Nenhuma outra proferiu, nenhuma.
Não chegou a mecher uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
"Tantos amigos tão leais!
"Perderei também este em regressando a aurora".
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
"Que ele trouxe da convivência
"De algum mestre infeliz e acabrunhado
"Que o implacável destino há castigado
"Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
"Que dos seus cantos usuais
"Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
"Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez nesse momento
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E, mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera,
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim pôsto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da Lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível:
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
"Manda repouso à dor que te devora
"Destas saudades imortais.
"Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora".
E o corvo disse: "Nunca mais".

"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Ave ou demônio que negrejas!
"Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
"Onde reside o mal eterno,
"Ou simplesmente náufrago escapado
"Venhas do temporal que te há lançado
"Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
"Tem os seus lares triunfais,
"Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Ave ou demônio que negrejas!
"Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
"Por esse céu que além se estende,
"Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
"Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
"No Éden celeste a virgem que ela chora
"Nestes retiros sepulcrais,
"Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o corvo disse: "Nunca mais!"

"Ave ou demônio que negrejas!
"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Cessa, ai, cessa! (clamei, levantando-me) cessa!
"Regressando ao temporal, regressa
"À tua noite, deixa-me comigo...
"Vai-te, não fique no meu casto abrigo
"Pluma que lembre essa mentira tua.
"Tira-me ao peito essas fatais
"Garras que abrindo vão a minha dor já crua"
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais.


O corvo, de Edgar Allan Poe.
Tradução de Machado de Assis.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um coração alegre e feliz!




"Seu próprio coração estava alegre e feliz, e isso lhe bastava. Ele não teve mais relações com os espíritos, mas manteve a melhor das relações com os seus semelhantes, e diziam mesmo que não havia nenhuma pessoa que festejasse com mais entusiasmo as festas de Natal. Que todos possam dizer de nós a mesma coisa, com a mesma sinceridade."


Trecho de Um conto de natal, de Charles Dickens.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Quando maior é a fadiga...


"A mão é que se recusa a escrever. O corpo não quer sentar na cadeira diante da escrivaninha. Os olhos não querem ver a folha de papel. O pensamento, esse anda numa mapiagem desembestada tagarelando que nem fábrica ao meio dia. É engraçado mas justamente quando maior é a fadiga maior parece que é o trabalho da inteligência."

Mário de Andrade
Carta a Prudente de Moraes, em 18 de fevereiro de 1925.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Aos saltinhos



"Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já ideias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos. Não sei se me explico bem. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos."

Dom Casmurro, Machado de Assis.

Cocadas

"Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:
-Sinhazinha, qué cocada hoje?

-Não - respondeu Capitu.

-Cocadinha tá boa.

-Vá-se embora - replicou ela sem rispidez.

-Dê cá! - disse eu descendo o braço para receber as duas.

Comprei-as, mas tive de as comer sozinho; Capitu recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto pode ser perfeição como imperfeição, mas o momento não é para definições rais; fiquemos em que a minha amiga, apesar de equilibrada e lúcida, não quis saber de doce, e gostava muito de doce."

Dom Casmurro, Machado de Assis.

Palavras furiosas



"Capitu, a princípio, não disse nada. Recolheu os olhos, meteu-os em si e deixou-se estar com as pupilas vagas e surdas, a boca entreaberta, toda parada. Então eu, para dar força às afirmações, comecei a jurar que não seria padre. Naquele tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na hora da morte se fosse para o seminário. Capitu não parecia crer nem descrer, não parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis chamá-la, mas faltou-me ânimo. Essa criatura que brincara comigo, que pulara, dançara, creio até que dormira comigo, deixava-me agora com os braços atados e medrosos. Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas palavras furiosas:

-Beata!Carola!Papa-missas!"

Dom Casmurro, Machado de Assis.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Vida diferente



"Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida anriga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira."

Dom Casmurro, Machado de Assis.

O penteado


Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
- Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim, a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e...
Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam, vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.

Dom Casmurro. Machado de Assis.

Assistam aqui o belíssimo (José Dias feelings hehe) trecho da minissérie Capitu, da Globo, que une os capítulos "Olhos de ressaca", "O penteado" e "Sou homem!".

Olhos de ressaca


- Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. [...]
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra de dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, com a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, e a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando evolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado aquele tempo infinito e breve.

Dom Casmurro. Machado de Assis

uma ponte e não um fim


"O homem é a corda estendida entre o animal e o Super homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e não um acabamento."

O Anticristo, de Nietzsche.

Um possível Natal futuro...

"– Cobertores dele? – perguntou Joe. 
– De quem mais podiam ser? – respondeu a mulher. Tenho a impressão de que a esta hora já não tem medo de passar frio. 
– Espero que não tenha morrido de moléstia contagiosa? – perguntou Joe interrompendo o seu inventário e erguendo os olhos para ela. 
– Sei lá! Eu não tenho medo, – replicou a mulher. A sua companhia não era assim tão agradável para que eu andasse vendo o que ele tinha. Oh, pode morrer de olhar para essa camisa, que não achará um rasgão, um rustido. Era a que ele tinha de mais resistente e mais bonita. Sem mim, ela estaria perdida. 
– Perdida? Como assim? 
– Sim, teria sido enterrado com ela, – disse a mulher. Não sei quem teve a estúpida idéia de a vestir nele, mas eu tornei a tirá-la. Se a chita não serve para mortalha, então não serve para nada. Olhe que não podia ser mais feio do que era com esta camisa. 
Scrooge ouvia este diálogo horrorizado. 
Aqueles indivíduos agrupados em redor de sua presa, à miserável claridade da lamparina do velho, inspiravam-lhe um ódio e uma repugnância indescritíveis, apenas menos violentos, talvez, do que se tivessem sido imundos demônios em disputa do seu próprio cadáver. 
– Ah! ah! ah! – gargalhou ruidosamente a mulher, quando o velho Joe, apresentando um saco de flanela cheio de dinheiro, pôs no chão a quantia que tocava a cada um. 
– Ah! ah! ah! Ele, em vida, – continuou a mulher –, mandou toda a gente passear, com o único fim de nos proporcionar alguns pequeninos lucros depois de sua morte. Ah! ah! ah! 
– Espírito, – disse Scrooge tremendo da cabeça aos pés, agora compreendo, agora compreendo. A sorte deste infeliz poderia ter sido a minha, e é exatamente a isso que conduz uma vida como a que levo. Deus do céu! Que é aquilo? 
Scrooge recuou, apavorado. 
A cena era completamente outra. Estava agora à cabeceira de uma cama, uma cama sem cortinas, sobre a qual jazia, envolto num pano rasgado, uma forma cuja muda imobilidade era um lúgubre libelo contra a natureza. 
O quarto estava escuro, bastante escuro para que se lhe pudessem distinguir os detalhes, embora Scrooge olhasse para todos os lados, ansioso por descobrir aquilo que tal escuridão envolvia. 
Uma pálida claridade vinda do exterior incidiu sobre o leito onde, pilhado, roubado, sem ninguém que o velasse, sem um amigo para chorá-lo, no meio do mais absoluto abandono, jazia o corpo deste homem. 
Scrooge olhou para o fantasma, e viu que a mão apontava para a cabeça do morto. O lençol que a envolvia estava colocado de tal maneira que bastava levantar-lhe uma das pontas para descobrir o rosto do defunto. 
Scrooge pensou em fazê-lo, mas, ao tentá-lo, verificou que para realizar este facílimo gesto se achava tão impotente quanto para despedir o espectro que continuava de pé a seu lado."


Trecho de Um conto de  natal, de Charles Dickens. 

A grande ópera




"- A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...

- Mas, meu caro Marcolini.

-Quê...

E, depois de beber um gole de licor, pousou o cálice, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.

Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outroscondiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás lçevou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros - e acaso para reconciliar-se com o céu -, compôs a partitura, e logo que acabou foi levá-la ao Padre Eterno.

-Senhor, não desaprendi as lições recebidas- disse-lhe. - Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e, se achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...

-Não - retorquiu o Senhor -, não quero ouvir nada.

-Mas, Senhor...

-Nada!Nada!

Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

-Ouvi agora alguns ensaios!

Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto de Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força da repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muitas vezes o sentido por um modo confuso. As partes prquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.

Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezase tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama.

O grotesto, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar Mulheres patuscas de Windsor.

Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, com tal arte e fidelidade que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.

-Esta peça - concluiu o velho tenor- durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos os escolhidos". Deus recebe em ouro, Satanás em papel.

-Tem graça...

-Graça? - bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: - Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horro à graça.Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálice (e enchia-o novamente), esteve cálice é um breve estribilho. Não se ouve? Tambén não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera..."

Dom Casmurro, Machado de Assis.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O fantasma dos Natais passados...



"O espírito envolveu-o num olhar benévolo. Embora tivesse posto a mão apenas um instante sobre o coração do velho, este julgou sentir ainda o calor daquele contato. Flutuavam no ambiente mil perfumes amigos, cada um dos quais evocava uma multidão de pensamentos, de esperanças, de alegrias e pesares passados, de muitos anos atrás . 
– Tens os lábios trêmulos, – observou o fantasma –, e o que estou vendo em tuas faces? 
Scrooge, com voz rouquenha, o que estava fora dos seus hábitos, respondeu que era uma verruga, e declarou que estava disposto a seguir o espírito para onde quer que fosse. ! 
– Reconheces o caminho? – perguntou o espírito. 
– Oh, se o reconheço! – respondeu Scrooge com emoção; – poderia andar por ele de olhos fechados! 
– É estranho que o tenhas esquecido durante tantos anos, – observou o espírito. – Vamos adiante. 
Ambos prosseguiram, e Scrooge ia reconhecendo à cada casa, cada árvore, cada poste. Logo a seguir, apareceu um pequeno povoado, com sua igrejinha, sua ponte e o rio sinuoso. Avistaram, então, na entrada, vários rapazes montados em hirsutos pôneis, e que se comunicavam alegremente com outros jovens montados em carriolas camponesas. Toda esta juventude transbordava de vida e de entusiasmo, e suas vozes enchiam o campo de uma música tão alegre que o ar cristalino parecia todo entrar em vibração"



Trecho de   Um conto de natal, de Charles Dickens. 

O espírito do Natal futuro...




"(...) Para começar, Scrooge achou esquisito que o espírito desse tanta importância a umas conversações aparentemente banais. Naturalmente, deviam elas ter uma significação oculta, mas qual seria? Elas não podiam referir-se à morte de Jacob, seu antigo sócio, porque a morte dele pertencia ao passado, e o domínio deste fantasma era o futuro. Entre as pessoas que ele conhecia, Scrooge não via nenhuma a quem pudesse aplicar o assunto daquelas palavras, mas, persuadido de que de um modo ou de outro elas encerravam uma lição destinada ao seu aperfeiçoamento, resolveu guardar com cuidado tudo que visse e ouvisse, e observar particularmente sua própria imagem quando ela lhe aparecesse, pois a atitude de seu próprio futuro lhe daria provavelmente o fio condutor que lhe faltava e lhe tornaria fácil a solução de todos estes enigmas"


Trecho de Um conto de natal, de Charles Dickens. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

um homem

O Grito. Edvard Munch.

Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.


Quando achava alguma coisa;
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,
Não era um gato,

Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.


O Bicho, Manuel Bandeira

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Palpitar da seiva


Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, trêmulas e crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente também por ser a primeira.

Machado de Assis, Dom Casmurro.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Aprendizado da Morte


"...o sono seria mesmo o aprendizado da Morte.
Deitados, as mãos junto ao corpo, os olhos fechados, as rugas do dia amainadas, caímos subitamente sob a abóbada sombria; e a noite encerra, sela, com sua trevas, a pesada pedra da tumba. Não há mais presente; não há mais convite ao ato. Começa a hora do grande desinteresse. Aquilo que o místico busca heroicamente, dolorosamente, pelo caminho da ascese, pela via negativa, o sono nos concede, feito um dom, uma graça: o apagar da atividade, e o grão, o minúsculo grão de sene, o sonho que, quando da verdadeira morte do corpo, irá se tornar a árvore da vida eterna."

Roger Bastide, O mergulho tenebroso.

As duas pontas da vida


O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das coisas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim.

Machado de Assis, Dom Casmurro.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O muro falou por nós

"Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro… Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas as quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la marcado; sinto falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar”.
Dom Casmurro, Machado de Assis.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sampa


Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente, não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

Caetano Veloso

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Narciso


Narciso, de Caravaggio. 



"Crédulo, por que procuras, em vão, uma imagem fugitiva? O que tu procuras não existe em nenhuma parte. Afasta-te daquilo que amas e tu o perdes. Esta sombra que vês é o reflexo de tua imagem. Nada é por si mesma. Contigo, ela aparece e permanece; com tua partida desaparecerá, se tiveres a coragem de partires”."


Ovídio.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Do título


Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
- Continue, disse eu acordando.
- Já acabei, murmurou ele.
- São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. [...]
Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo do homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

Machado de Assis, Dom Casmurro.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Peso na alma...





"Em algumas fases da jornada, às vezes longas, carregamos um bocado de peso na alma. Nem um pouco raro, às vezes sem sequer notarmos. A gente costuma se acostumar fácil às circunstâncias difíceis que, vez ou outra, podem ser mudadas até sem grandes elaborações e movimentos, sem que se precise contar com sorte, promessas, milagres e cercanias. A gente costuma se adaptar demais ao que faz nossos olhos brilharem menos. A gente costuma camuflar a exaustão. Inventar inúmeras maneiras para revestir o coração com isolamento acústico para evitar ouvi-lo. Fazer de conta que a vida é assim mesmo e pronto. Que somos assim mesmo e ponto. A gente costuma arrastar bolas de ferro e agir como se carregássemos pétalas só pra não precisar fazer contato com as insatisfações e trabalhar para transformá-las. A gente costuma mudar de calçada quando vê certos riscos virem na nossa direção, mesmo que nos encantem. A gente carrega muito peso no peito, tantas vezes, porque resiste à mudança o máximo que consegue. Até o dia em que a alma, com toda razão, cansada de não ser olhada, encontra o seu jeito de ser vista e dizer quem é mesmo que manda."


Ana Jácomo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Metade agonia, metade esperança


"Não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar com você pelos os meios de que disponho neste momento. Você fendeu minha alma. Sou metade agonia, metade esperança. Não me diga que é tarde demais, que sentimentos tão preciosos foram-se para sempre. Ofereço-me para você de novo com um coração muito mais seu do que quando você quase o despedaçou há oito anos e meio atrás. Não se atreva a dizer que o homem esquece mais rápido do que a mulher, que seu amor morre mais cedo. Eu tenho amado somente você, mais ninguém. Injusto posso ter sido, fraco e ressentido também, mas nunca inconstante. Você, apenas você trouxe-me para Bath. Faço planos pensando somente em você. Você ainda não percebeu? Não entende o que eu desejo? Eu não teria esperado nem estes dez dias se tivesse podido ler seus pensamentos como eu penso que você penetrou nos meus. Quase não posso escrever. A todo instante ouço alguma coisa que me atordoa. Você abaixa sua voz, mas eu ainda posso distinguir seus tons, mesmo quando perdidos em meio aos outros."

Trecho da carta de Capitão Wentworth à Anne Elliot. In: Persuasão, de Jane Austen
Tradução: Raquel Sallaberry Brião (www.janeausten.com.br)

na essência do que nunca aconteceu

Álvaro Pacheco



- A JANELA
OS VENTOS

Não há, nos ventos,
a liberdade da morte,
embora sejam implacáveis e
jamais perdoem as folhas secas.

Todos os ventos têm nome
mas não se conhece nenhum
de perto, embora
se agarrem a você
e desorganizem a harmonia.

Os ventos não têm forma
mas sabemos todas as suas aspirações
e os seus amores com o mar e as árvores.

Os ventos não têm a liberdade da morte
diluídos na essência
do que nunca aconteceu.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Revelação do nome...

"O Reinaldo se chegou para perto de mim. Acho que olhei apara ele com que olhos, isso ele não via, não notava. Ah! ele me queria bem, digo ao Senhor. Mas graças a Deus, o que ele falou foi com a sucinta voz:
- Riobaldo, pois tenho um particular que eu careço de contar a você, e que esconder mais, não posso... Escute: eu não me chamo Reinaldo de verdade; este é um nome apelativo inventado por necessidade minha, carece de você não me perguntar porquê, tenho meus fados. A vida da gente faz sete voltas, se diz: a vida  nem é da gente.
Ele falava aquilo sem rompante, sem entornos, mas antes com pressa, quem sabe se com um tico de pesar e vergonhosa suspensão.
Você era menino, eu era menino...
Atravessamos o rio na canoa, nos topamos naquele porto, desde aquele dia é que somos amigos; que era eu confirmei e ouvi:
- Pois então, o meu verdadeiro nome é Diadorim... guarda esse segredo, sempre quando sozinhos a gente estiver é de Diadorim que você deve me chamar, digo e peço, Riobaldo.
Assim eu ouvia, era tão singular; muito fiquei repetindo em minha mente as palavras, mode de me acostumar com aquilo. 
Ele me deu a mão; e daquela mão eu recebia a certeza dos olhos, os que ele punha em mim, tão externos, quase triste de grandeza, deu a alma em cara.
Adivinhei o que nós dois queríamos, logo eu disse Diadorim... com uma força de afeição, ele sério sorriu, e eu gostava dele, gostava, gostava...
Aí tive o fervor de que ele carecesse de minha proteção toda a vida, eu terçando, garantindo; punindo por ele...
Diadorim me dizendo que esse era o real nome dele, foi como dissesse notícia do que em terras longas se passava.
Da razão desse encoberto nem resumi curiosidades, mas  havendo o ele querer que só eu soubesse e que só eu esse nome verdadeiro pronunciasse, entendi aquele valor.
A amizade nossa, ele não queria acontecida simples, no comum sem encalço. 
A amizade dele, ele me dava, e amizade dada é Amor..."



João Guimarães Rosa, in GRANDE SERTÃO: VEREDAS.