quarta-feira, 26 de junho de 2013

Dois irmãos

Por volta de 1914, Galib inaugurou o restaurante Biblos no térreo da casa. O almoço era servido às onze, comida simples, mas com sabor raro. Ele mesmo, o viúvo Galib, cozinhava, ajudava a servir e cultivava a horta, cobrindo-a com um véu de tule para evitar o sol abrasador. No Mercado Municipal, escolhia uma pescada, um tucunaré ou um matrinxã, recheava-o com farofa e azeitonas, assava-o no forno de lenha e servia-o com molho de gergelim. Entrava na sala do restaurante com a bandeja equilibrada na palma da mão esquerda; a outra mão enlaçava a cintura de sua filha Zana. Iam de mesa em mesa e Zana oferecia guaraná, água gasosa, vinho. O pai conversava em português com os clientes do restaurante: mascateiros, comandantes de embarcação, regatões, trabalhadores do Manaus Harbour. Desde a inauguração, o Biblos foi um ponto de encontro de imigrantes libaneses, sírios e judeus marroquinos que moravam na praça Nossa Senhora dos Remédios e nos quarteirões que a rodeavam. Falavam português misturado com árabe, francês e espanhol, e dessa algaravia surgiam histórias que se cruzavam, vidas em trânsito, um vaivém de vozes que contavam um pouco de tudo: um naufrágio, a febre negra num povoado do rio Purus, uma trapaça, um incesto, lembranças remotas e o mais recente: uma dor ainda viva, uma paixão ainda acesa, a perda coberta de luto, a esperança de que os caloteiros saldassem as dívidas. Comiam, bebiam, fumavam, e as vozes prolongavam o ritual, adiando a sesta.

Trecho da obra Dois irmãos, de Milton Hatoum.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O Casamento

  “— O casamento embucetou! — Anuncia Maria Petisco, saltando do táxi na porta de entrada da casa de Almério. Deixara Tereza nos braços de mestre Gereba. Não tinha naufragado, não estava morto? Que morto nem meio morto, vivo e bem vivo, um pedaço de homem de se lamber os beiços, rolete de cana caiana, Tereza mais sortuda. Quando o Balboa naufragara, fazia mais de três meses que ele e Toquinho, outro baiano, haviam desengajado, iniciando a volta para casa. Na maciota, vendo mundo. Acabara de chegar e o compadre Caetano Gunzá lhe contara os acontecidos todos. O amigo Almério desculpasse mas o casamento parecia bastante comprometido.

No primeiro momento, Almério sofreu séria decepção, profundo abalo, não há como esconder; afinal, com papéis prontos e festa paga, não era para menos. Mas a curiosidade de velho leitor de folhetins, de ouvinte fanático de novelas de rádio, habituado a encarnar-se nos melodramáticos heróis, superou o desaponto, e ele pediu detalhes. Acreditem: em menos de meia hora já se entusiasmava com o relato. Maria Petisco se adiantara para dar a notícia aos convidados, chegando quase junto com o juiz e o padre. O magistrado logo se retirou; dom Timóteo, porém, permaneceu à espera de Almério, talvez o pobre necessitasse de consolo.

— E o que se vai fazer com tanto manjar? — Quis saber o velho Miguel Santana, que almoçara leve reservando espaço e apetite para a comilança.

— Ai, meu Deus, a festa não vai mais haver! — Gemeu a negra Domingas, preparada para sambar a noite inteira.

Na sala ia entrando Almério das Neves acompanhado de Anália, ouviu a queixa, abanou os braços, não lhe cabia culpa. Meu povo, disse ele, o casamento deu com os burros n’água. Para mim foi triste mas para Tereza foi alegre. O noivo que ela pensou que estava morto chegou do mar a tempo. Pior seria se chegasse depois. Aí, sim, de qualquer jeito era ruim. Encarnava o apaixonado generoso, capaz de sacrificar-se sem um lamento pela felicidade da bem-amada e do rival afortunado.

— Já que é assim, vamos festejar — Propôs Caymmi, homem de bom conselho.

Almério olhou a sala cheia, gente sobrando pelos corredores, as mesas postas, grandiosas, as garrafas no gelo e o jazz-band. Um sorriso lhe nasceu nos lábios, expulsando da face plácida do ex-noivo a última sombra de desaponto. Heróico e abnegado, elevou a voz para ser ouvido por todos os presentes, a Bahia inteira:

— Não há o casamento mas nem por isso a festa deixa de se realizar. Vamos estourar a champanha do doutor Nelson!

— Isso, sim, que é falar direito. — Aprovou Miguel Santana dirigindo-se para a sala de jantar.

A festa do casamento de Tereza Batista, apesar do casamento não ter acontecido, atravessou a noite, animadíssima. Comeram quanto havia, beberam a bebida toda, regabofe como hoje só na Bahia ainda se faz e olhe lá! A não ser para beber um copo de cerveja e beliscar de cada prato um pouco, o jazz não parou de tocar e a dança terminou na rua, de manhã, atrás do Trio Elétrico. No meio da noite, Almério um tanto alto, e Anália — essa não nasceu para mulher-dama — fizeram-se par constante e ela lhe confessou ser doida por criança. Ora, já se viu, até parece coisa de romance!

Vela enfunada, o saveiro corta o mar da Bahia. A brisa sopra, noite alta, leve sobre o golfo. Tereza Batista, respingada de água, sabendo a sal, odor de maresia, os negros cabelos soltos ao vento, ressuscitada, aleluia! Achega-se ao peito de Januário Gereba. Ao leme, mestre Janu pesa as qualidades da embarcação à venda: se for boa de travessia, compro e pago à vista, compadre Gunzá pôs meu dinheiro no Banco a render juros, compadre mais porreta. Que nome vamos lhe dar, me diga? Antes de escolher o nome do saveiro, Tereza fala:

— Sabe que eu matei um homem? Era ruim demais, só merecia a morte mas até hoje carrego ele nas costas.

Januário guarda o cachimbo de barro:

— Oxente, vamos descarregar ele aqui mesmo, de uma vez para sempre. Era ruim, vai com os cações, raça de peixe desgraçada. Assim, tu fica livre dele.

Sorri na noite escura, em seu sorriso o sol renasce. Um já se foi, porém tem mais, Janu.

— Um homem morreu dentro de mim, na hora mesmo. Não sei se para os outros ele foi bom ou mau, para mim o melhor homem do mundo, marido e pai. Levo a morte dele nas entranhas.

— Se morreu naquela hora, então está no paraíso, foi direto. Quem morre assim é protegido de Deus. Largue o corpo do justo com as arraias, se livre da morte dele, mas guarde tudo de bom que ele lhe deu.

O mar se abriu e se fechou, Tereza suspira aliviada. Gereba pergunta:

— Tem mais algum? Se tem, a gente aproveita e joga no mar. Por aqui perto descarreguei a minha falecida.

Tereza lembrou-se daquele que não chegara a ser, arrancado de seu ventre antes da hora do nascimento. Pôs a mão sobre a de mestre Januário Gereba, Janu do bem-querer, fazendo-o mover o leme, mudar o rumo do saveiro, dirigindo-o para pequena enseada entre bambus na margem do golfo, escondido remanso. Estendese Tereza na popa do saveiro:

— Venha e me faça um filho, Janu.

— Sou bom nisso como quê.

Ali, na barra da manhã, rio e mar.”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Chorando, atira-se nos braços de Januário Gereba


“Em casa de dona Fina, Maria Petisco e Anália ajudam Tereza Batista a se vestir e enfeitar. Noiva mais jururu onde se viu? Prepara-se para a festa do matrimônio ou para o velório do próprio enterro?
Anália reclama com a amiga que não sabe dar valor à sorte. Ai, quem me dera, fosse eu a felizarda! Ando farta dessa vida de rameira, de cama em cama, de mão em mão, vendendo o corpo, gastando amor com xodós de pouca duração. Não viu Kalil? Tão bom moço mas a largou para casar com uma prima, o sem vergonha. Anália não o culpa, para casar também ela romperia o rabicho inconsequente. Ah! quem me dera lar e filho, marido para mim somente e eu somente para ele. Ai, Tereza, estivesse eu em teu lugar, estaria rindo pelos cotovelos, rindo pelos cantos, pelos dentes todos, rindo à toa. Maria Petisco concorda em parte. Para ela, ser fiel a homem não é fácil, sobretudo com os encantados descendo nas camas sem perguntar o nome do dono do colchão, do travesseiro e da adormecida criatura.
Tereza vestida e penteada, Maria Petisco coloca-lhe ao pescoço um colar de Yansã, deslumbrante e encantado, símbolo da vitória na guerra contra os mortos, presente de Valdeloir Rego, joalheiro dos orixás, lavado por mãe Senhora no peji. Anália a conduz defronte ao espelho para ela se mirar, formosa porém triste.
Enquanto as amigas se arrumam, Tereza vê-se refletida no aço do espelho pelo direito e pelo avesso. Vibrantes contas de triunfo, roxo colar de sangue, posto em ombro impróprio de quem foi derrotada e se acabou. Velha, cansada de guerra, morta por dentro.
Recorda acontecimentos e pessoas, fatos distantes, gente desaparecida. O doutor, o capitão, Lulu Santos, o menino arrancado de seu ventre, assassinado antes de ser. Os tempos de cadeia, os tempos de bordel, a época de Estância, lugares por onde andou, o ruim e o bom, a taca de couro e a rosa. Quantos anos completara há poucos meses no xadrez, presa e surrada pela polícia de costumes da Bahia? Vinte e seis? Não pode ser. Quem sabe, cento e vinte e seis, mil e vinte e seis ou ainda mais? Na hora da morte não se conta idade.
Barulho na porta, ruído de discussão, a voz de dona Fina contraditando alguém, a resposta e o riso. Tereza estremece, palpita-lhe incontido o coração, de quem essa voz inesquecível, esse acento de marulho e búzio?
— Vai casar? Pode ser, mas só se for comigo.
Levanta-se trêmula, não acredita nos próprios ouvidos, sai passo a passo pelo corredor, olha a medo. Na porta da rua, disposto a entrar de qualquer maneira, gigante, pássaro, vivo, inteiro, lá está ele. Então Tereza Batista abre-se em pranto, em choro convulso. Chorando, atira-se nos braços de Januário Gereba.”


TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tereza Batista se parece com o povo!


“Com quem se parece Tereza Batista, tão castigada pela vida, tão cansada de apanhar e de sofrer e, ainda assim, de pé, com todo o peso da morte no lombo, porfiando em arrancar da maldita uma criança para a vida? Pois eu lhe digo com quem acho que ela se parece.
Sentada nesta varanda, vendo ao longe o mar do Rio Vermelho, olhando as árvores, algumas centenárias, a maioria plantada por mim e pelos meus, com essas minhas mãos que empunharam a carabina nas matas de Ferradas, nas lutas do cacau, recordando João, meu finado, um homem alegre e bom, cercada pelos meus três filhos, meus tesouros, e pelas três noras, minhas filhas e rivais, pelos netos, netas e bisnetos, por meus parentes e aderentes, eu, Eulália Leal Amado, Lalu na voz geral da benquerença, lhe digo, meu senhor, que Tereza Batista se parece com o povo e com mais ninguém. Com o povo brasileiro, tão sofrido, nunca derrotado. Quando o pensam morto, ele se levanta do caixão.”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Explicar, não explico...


“Milagres demais, na opinião do amigo, descrente dessas abusões. Orixás acontecendo a cada instante, encantamentos e magias. Velho de barbas e bordão surgindo de repente, a fechar os caminhos da polícia, a abrir portas de igreja, poeta morto há cem anos salvando raparigas., Ogum Peixe Marinho infundindo confiança, Exu empurrando o revoltado comissário, fazendo-o estatelar-se, quebrando-lhe de vez as duas pernas, Santo Onofre velando no deserto chão da zona o corpo de Vovó — para um materialista ê dose bruta, o amigo deseja o relato da verdade pura e não feitiçarias.
Não discuto a conta feita pelo amigo, o número certo das intervenções indébitas mas não se esqueça que o caso se deu na cidade da Bahia, situada no oriente do mundo, terra de esconjuros e ebós. Aqui, meu prezado, os absurdos são o pão de cada dia desse povo incapaz de inventar uma mentira ainda mais a propósito de assunto tão mexido.
Me diga o distinto, por favor: como seria possível a putas sem tostão, sem armas e sem leitura, enfrentar a polícia e ganhar a guerra do balaio fechado se não contassem com a ajuda de santos e orixás, de feiticeiros e poetas? O que teria sido delas, me responda, se para tanto tem competência e fantasia.
Explicar, não explico, só lhe contei porque me rogou com insistência e um chofer de táxi tem a obrigação de tratar bem a freguesia, conversando e comentando para fazer a corrida mais maneira. Quem no mundo pensa, tudo explicar, trocando em miúdo cada fato, prendendo a vida nas cancelas das teorias, é apenas, me desculpe o amigo, um falso materialista, sábio de meia-tigela, um caga-regras, historiador de vôo curto, um tolo.
Para terminar, some mais um despropósito aos muitos que ouviu, sucedeu comigo, Edgard Rogaciano Ferreira, conhecido em toda a praça da Bahia por sério e inimigo de patranhas. Já lhe disse como vi naquela noite vazio o pedestal da estátua do poeta Castro Alves, na praça do mesmo nome, onde faço ponto. Pois, ao acordar novamente, bem mais tarde, à passagem dos carros da policia conduzindo o mulherio preso no fim da briga, tendo levantado os olhos para o monumento, o que vejo? A estátua do poeta em seu lugar de sempre, o braço estendido para o mar e na mão um cartaz rasgado com figuras de mulheres e palavras sem sentido, todo poder às putas, já pensou? E agora saia dessa se puder, o caro amigo. Boa noite eu lhe desejo, tome cuidado com Exu.”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

terça-feira, 21 de maio de 2013

PROCISSÃO E LUTA!


“Atrás da imagem as mulheres, logo na primeira fila Tereza Batista. Ao vê-la, Peixe Cação esquece até a dor nos bagos, precipita-se. Exatamente no mesmo instante, do Bar Flor de São Miguel sai um grupo barulhento e agitado de fregueses, o futuroso astro de nosso teatro, Tom Lívio, o alemão Hansen a gravar na madeira com goiva e sangue a vida das mulheres da zona, o poeta Telmo Serra, os eternos boêmios, aqueles que pela madrugada afora discutem o destino do mundo e salvam a humanidade das catástrofes e do aniquilamento, os guardiões do sonho do homem. Nas mãos poderosas do gravador um cartaz exibe esquálidas fêmeas seminuas, todas elas rompendo as cadeias a lhes prender os pulsos, tendo no lugar do xibiu um cadeado. Uma inscrição em grandes letras: TODO O PODER ÀS PUTAS. O comissário grita ordens para os tiras e para os soldados, manda dissolver, prender, espancar, matar, se necessário.
Parte a carga de cavalaria, dissolve-se a procissão, os guardas baixam os cassetetes, os investigadores apontam os revólveres. A imagem de Santo Onofre fica depositada no chão, em pé. Ao lado, Vovó continua a puxar a ladainha. Tem ao menos cem anos de idade e mil de puta, basta ver-lhe as rugas, a cara chocha, a boca sem dentes, mas ainda gosta de brigar e de louvar os santos:
Ave, ave Maria
Ave, ave Maria
O comissário Labão Oliveira corre para fazê-la calar-se, tropeça num buraco, tomba, rola, não se levanta. Mesmo caído, atira, a velha emudece, o canto cessa, o silêncio cobre a praça inteira. Junto da imagem do santo o corpo pequeno e gasto de Vovó; morreu rezando, morreu brigando, morreu contente.
Tiras acodem ao comissário, ajudam-no a erguer-se mas ele não consegue se firmar em pé, rotos os ossos das duas pernas. O investigador Alirio, apavorado, joga-se no chão, bate a cabeça nas pedras, bem ele avisara: comissário, não seja doido, não toque em Exu.
Os carros rumam para o edifício da Polícia Central, lotados de presos, mulheres e boêmios, praticamente a zona inteira foi em cana. No comando da limpeza final ainda permanece alguns minutos o investigador Peixe Cação. Mas tem pressa: no depósito, bem guardada Tereza Batista espera.
Mais uma vez tentarão lhe ensinar o respeito e a obediência. Peixe Cação esfrega as mãos, em noite de tanto descalabro, uma alegria.”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

quarta-feira, 15 de maio de 2013

BASTA!


“Quem não sabe, fique sabendo de uma vez para sempre: puta não tem direito algum, puta é para dar gozo aos homens, receber a paga tabelada e se acabou. Fora disso, apanha. Do cafetão, do gigolô, do tira, do guarda, do soldado, do delinqüente e da autoridade. Do vicio e da virtude, renegada. Por tolice apanha, dá com os costados na cadeia, quem quiser pode lhe escarrar na cara. Impunemente.
O senhor, paladino das causas populares, com nome elogiado nas gazetas, por gentileza me diga se alguma vez na vida dignou-se a pensar nas putas, exceto, é claro, nas inconfessáveis ocasiões em que nelas se põe em leito de folgança a regalar-se pois mesmo um incorruptível necessita satisfazer a carne, está sujeito às exigências do instinto. Leito infame, carne vil, baixos instintos na opinião do mundo inteiro.
Sabe o indômito líder ser excelente negócio possuir casas de aluguel em zona de meretrício? A polícia localiza a zona de acordo com os interesses da política, premiando parentes, amigos, correligionários. Por ser aluguel de casa de puta bem mais elevado do que o das casas de família. Sabia dessa particularidade o bravo campeão dos explorados? Aliás, para elas tudo é mais caro e mais difícil, e todos acham justo, ninguém protesta. Nem sequer o nobre defensor do povo. Não sabia? pois fique sabendo. E saiba ainda mais que despejo de puta independe de ação judicial, basta a polícia decidir, ordem de um delegado, um comissário, um tira, faz-se a mudança. Não cabe à puta escolha de onde morar e exercer.
Quando uma puta se despe e se deita para receber homem e conceder-lhe o supremo prazer da vida em troca de paga escassa, sabe o ilustre combatente da justiça social quantos estão comendo dessa paga? Do proprietário da casa ao sub-locador, da caftina ao delegado, do gigolô ao tira, o governo e o lenocínio. Puta não tem quem a defenda, ninguém por ela se levanta, os jornais não abrem colunas para descrever a miséria dos prostíbulos, assunto proibido. Puta só é notícia nas páginas de crimes, ladrona, arruaceira, drogada, mariposa do vício, presa e processada, acusada dos males do mundo, responsável pela perdição dos homens. A quem cabe a culpa de tudo de ruim quanto acontece universo afora? Pois às putas, sim, senhor.
O indomável advogado dos oprimidos por acaso tomou conhecimento da existência de milhões de mulheres que não pertencem a nenhuma classe, por todas elas repudiadas, postas à margem da luta e da vida, marcadas a ferro e fogo? Sem carta de reivindicações, sem organização, sem carteira profissional, sem sindicato, sem programa, sem manifesto, sem bandeira, sem contar tempo de ofício, podres de doenças, sem médico de Instituto nem cama em hospital, com fome e sede, sem direito a pensão alimentar, a aposentadorias, a férias, sem direito a filhos, sem direito a lar, sem direito a amor, apenas putas, nada mais? Sabe ou não sabe? Pois fique sabendo de uma vez.
Puta, enfim, é caso de polícia, xilindró e necrotério. Mas já imaginou o caridoso pai dos pobres se um dia as putas do mundo unidas decretassem greve geral, trancassem a flor e se recusassem a trabalhar? Já pensou o caos, o dia de juízo, o fim dos tempos?
O último dos últimos encontra quem por ele brade e lute, só as putas não. Sou o poeta Castro Alves, morto há cem anos, do túmulo me levanto, na Praça de meu nome e monumento, na Bahia, assumo a tribuna de onde clamei pelos escravos, no Teatro São João que o fogo consumiu, para conclamar as putas a dizer basta.”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Roda-Gigante


"Sem querer, pela primeira vez escapa-lhe da boca a expressão de um desejo, não chega todavia a ser um pedido:
— Sempre tive vontade de um dia andar na roda-gigante.
— Nunca andou, Favo-de-Mel?
— Nunca tive ocasião.
— Vai andar hoje. Vamos.
Aguardam a vez na fila, antes de ocuparem uma caçamba. Elevam-se pouco a pouco, enquanto a roda vai parando para desembarcar os antigos e embarcar ps novos fregueses. O coração palpitante, Tereza prende entre as suas a mão esquerda do doutor; com o braço livre ele a circunda. Em determinado momento ficam parados no ponto mais alto, a cidade lá embaixo. A multidão a divertir-se, confuso rumor de conversas e risos, luzes multicores nas barracas, no carrossel, no contorno da praça. Pouco adiante as ruas vazias, mal iluminadas, a massa de árvores do Parque Triste, o vulto dos sobradões na sombra. Na distância, o murmúrio dos rios correndo sobre as pedras para se juntarem no porto velho, a caminho do mar. Em cima, o céu imenso de estrelas e a lua de Estância, desmedida, e louca. Tereza solta o balão azul, o vento o leva no rumo do porto — quem sabe para o mar distante?
— Ai, que maravilha! — murmura Tereza comovida.
Na quermesse, obstinados, alguns basbaques, os olhos levantados, a espiá-los. Também umas quantas senhoras e comadres arriscam destroncar o pescoço para vê-los. O doutor traz o corpo de Tereza para junto de si, ela descansa a cabeça no ombro dele. Emiliano acaricia-lhe os cabelos negros, toca-lhe a face e a beija na boca, beijo longo, profundo e público — um escândalo, um descaramento, uma delícia, um esplendor. Ah!, os felizardos."


TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Cada aroma tinha um valor próprio...


“Para agradá-lo, um dia, após o banho vespertino, Tereza tomou do vidro e se encharcou com a água-de-colônia do amásio; assim veio encontrá-lo ao pé do leito. Emiliano levantara-se para a acolher e ao sentir o perfume espalhado sobre ela, riu o riso largo, capitoso:
— Que fizeste, Tereza? Esse perfume é de homem.
— Vi o senhor usar com tanto gosto, usei também, pensando. . .
Esguia menina, corpo em formação, ancas insolentes, o doutor a volteou e a reteve de costas contra si. Da ponta dos. Cabelos aos dedos dos pés, da rosa do xibiu ao goivo do subilatório, o corpo inteiro de Tereza foi posse do doutor, chão de sua lavra.
Com o tempo, soube Tereza dos perfumes e da maneira de usá-los. Na hora da barba ela mesma passava a água-de-colônia no rosto, no bigode, nos pelos brancos do peito cabeludo do doutor. Gostava de aspirar o perfume seco, agreste, de homem. Vez por outra, ele, tomando o frasco da mão da amiga, punha-lhe uma gota no colo e a volteava, sentindo-lhe a palpitação das ancas. Cada gesto, cada palavra, cada olhar, cada aroma tinha um valor próprio.”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

terça-feira, 7 de maio de 2013

Tempo do amor



“Tereza deixara de ser a chucra menina do sertão, retirada da cadeia e do prostíbulo, corpo e coração marcados a ferro e fogo. As marcas foram desaparecendo, no trato do doutor ela cresceu em formosura, em elegância, em graça, em mulher no esplendor da juventude. Antes solitária, fez-se risonha e comunicativa; era trancada, abriu-se em alegria.
Tempo do amor, quando se tornaram indispensáveis um ao outro. Amor de um deus, de um cavaleiro andante, de um ser sobre-humano, de um senhor, e de uma menina do campo, moleca de roça por ele elevada à condição de amásia, de moça com um verniz de finura e educação, mas amor profundo e terno, desbragado de desejo.”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO



segunda-feira, 6 de maio de 2013

Manhãs de Estância



“Tereza com o maiô por baixo do vestido, o doutor com uma sunga minúscula sob as calças, atravessavam Estância em direção ao rio. Apesar da hora matinal, já as lavadeiras batiam roupa nas coroas de pedra, mascando fumo de rolo. Tereza e o doutor recebiam a ducha forte da Cachoeira do Ouro, pequena queda d’água. O lugar era deslumbrante: correndo sobre seixos, a sombra de árvores imensas, o rio abria-se mais adiante num grande remanso de água límpida. Para ali se encaminhavam, após a ducha, atravessando entre as peças de roupa postas a enxaguar pelas lavadeiras.
A água, no ponto mais profundo, dava no ombro do doutor. Estendendo os braços, ele mantinha Tereza à tona, ensinando-lhe a nadar. Os redemoinhos, as brincadeiras, o riso solto, os beijos trocados dentro d’água; o doutor num mergulho a sujeitá-la pela cintura, a mão no seio ou por dentro do maio, insolente, estranho peixe escapando-lhe da sunga. Prelúdios de amor, o desejo se cendendo no banho do rio Piauitinga. Na volta, em casa, no banheiro e na cama completavam o alegre começo da manhã. Manhãs de Estância, ai, nunca mais.”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Mas amor, desde quando, Emiliano?


     “No dia seguinte ao do aborto, o médico deu alta a Tereza, permitindo-lhe deixar o leito, andar pelo jardim, mas ainda lhe aconselhando repouso para o corpo e o coração:
— Não saia por aí a trabalhar, comadre, não abuse de suas forças, nem fique aperreada. — Tratando-a de comadre para a apoiar e lhe demonstrar estima: — Quero lhe ver forte e alegre.
— Fique descansado, doutor, já não sinto nada, ou pensa que sou uma molenga? Já passou tudo, pode crer.
Tocado pela bravura de Tereza e no desejo de apressar-lhe a completa convalescença, doutor Amarílio aconselhou a Emiliano, ao despedir-se na porta do jardim:
— Quando o doutor for à Bahia, traga de lá uma dessas bonecas grandes que falam e andam e ofereça à Tereza, será uma compensação.
— Você acha, Amarílio, que uma boneca pode compensar um filho? Eu não creio. Vou trazer um bocado de coisas, tudo de bonito que eu encontrar, mas boneca não. Tereza meu caro, não é só bonita e jovem, é sensível e inteligente. Só é menina na idade, nos sentimentos é mulher madura, vivida de caráter, vem de dar provas disso. Não, meu amigo, se eu trouxesse uma boneca para Tereza, ela não haveria de gostar. Se uma boneca pudesse substituir um filho, tudo no mundo seria fácil.
— Talvez o senhor tenha razão. Amanhã, volto para vê-la. Até, doutor.
Do portão do jardim, Emiliano vê o médico dobrar a esquina, a maleta na mão. O que ela perdeu, Amarílio, o que eu lhe tomei à força, usando um truque, colocando-a entre a cruz e a caldeirinha, só se compensa com carinho, afeto, ternura e amizade. Só com amor se paga.
Afeto, carinho, ternura, amizade, regalos e dinheiro, com certeza, são moedas correntes no trato das amásias. Mas amor, desde quando, Emiliano?”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

terça-feira, 30 de abril de 2013

Despedida...


“— Em certas coisas, Teresa; você é igualzinha a ele, olho para você e vejo Emiliano. Na convivência foi ficando parecida: a lealdade, o orgulho, sei lá o que. . .
Ficou um instante calado, logo prosseguiu:
— Eu quis vir vê-lo agora, me despedir enquanto ele está em sua companhia, não quero estar  presente quando chegar a gente dele. Por sua causa, Tereza, ele veio para Estância, para junto de nós e nos deu um pouco de seu tempo tão ocupado e nos transmitiu seu amor à vida. Quando ele chegou, eu já estava entregue à velhice, à espera da morte, ele me levantou de novo. Quero me despedir dele
a seu lado, os outros não conheço e não quero conhecer.
Novamente o silêncio, o morto de olhos abertos. Mestre João continuou:
— Nunca tive irmãos, Tereza, mas Emiliano foi para mim mais do que um irmão. Só não perdi tudo que meu pai deixou porque ele se ocupou de meus negócios. Mesmo assim, nunca abriu a boca para uma confidência. Ainda agora eu estava dizendo a Amarílio: o orgulho e a generosidade, o rebenque e a rosa. Vim para ver Emiliano e para lhe ver, Tereza.”

Jorge Amado – Tereza Batista cansada de guerra

sexta-feira, 26 de abril de 2013

CÁLIDAS NOITES


       
     "Nas cálidas noites de Estância de amena viração, brisa dos rios, no céu de estrelas sem contar a lua desmedida sobre as árvores, ficavam no jardim a bebericar, ela e o doutor. Ele nas fortes aguardentes, na genebra, no vodca, no conhaque, ela no vinho do Porto ou no Cointreau. Favo-de-mel, Tereza, teus doces lábios. Ai, meu senhor, seu beijo queima, chama de conhaque, brasa de genebra. Nessas horas a distância a separá-los se tornava mínima até desaparecer na cama por completo. Na cama ou ali mesmo no balanço da rede à viração, sob as estrelas. Árdegos partiam para alcançar a lua."
Tereza Batista cansada de guerra
Jorge Amado

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Imagine, meu velho, essa gente com saúde e sabendo ler, que perigo medonho!


"Cega, vazios os buracos dos olhos, os gadanhos pingando pus, feita de chaga e fedentina, a bexiga negra desembarcou em Buquim de um trem cargueiro da Leste Brasileira, vindo das margens do rio São Francisco, entre suas múltiplas moradas uma das preferidas: naquelas barrancas as pestes celebram tratos e acordos, reunidas em conferências e congressos — o tifo acompanhado da fúnebre família das febres tifóides e dos paratifos, a malária, a lepra milenária e cada vez mais jovem, a doença de Chagas, a febre amarela, a disenteria especialista em matar crianças, a velha bubônica ainda na brecha, a tísica, febres diversas e o analfabetismo, pai e patriarca. Ali, nas margens do São Francisco, em sertão de cinco Estados, as epidemias possuem aliados poderosos e naturais: os donos da terra, os coronéis, os delegados de polícia, os comandantes dos destacamentos da força pública, os chefetes, os mandatários, os politiqueiros, enfim o soberano governo. 
Contam-se nos dedos os aliados do povo: Bom Jesus da Lapa, alguns beatos e uma parte do clero, uns poucos médicos e enfermeiros, professorinhas mal pagas, tropa minúscula contra o numeroso exército dos interessados na vigência da peste.
Se não fossem a bexiga, o tifo, a malária, o analfabetismo, a lepra, a doença de Chagas, a xistossomose, outras tantas meritórias pragas soltas no campo, como manter e ampliar os limites das fazendas do tamanho de países, como cultivar o medo, impor o respeito e explorar o povo devidamente? Sem a disenteria, o crupe, o tétano, a fome propriamente dita, já se imaginou o mundo de crianças a crescer, a virar adultos, alugados, trabalhadores, meeiros, imensos batalhões de cangaceiros — não esses ralos bandos de jagunços se acabando nas estradas ao som das buzinas dos caminhões — a tomar as terras e a dividi-las? Pestes necessárias e beneméritas, sem elas seria impossível a indústria das secas, tão rendosa; sem elas, como manter a sociedade constituída e conter o povo, de todas as pragas a pior? Imagine, meu velho, essa gente com saúde e sabendo ler, que perigo medonho!"

ABC da peleja de Tereza Batista e a bexiga negra 
Tereza Batista cansada de guerra 
Jorge Amado

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Os olhos, presos aos olhos celestes do anjo, umedeceram-se


  
    "Não trocaram uma única palavra. Ele a prendeu nos braços, encostando a face cálida na fria face de Tereza; o hálito do moço era perfume, perfume de tontear. Nos cabelos, na pele, nas mãos, na boca semi-aberta. O capitão fede a suor ardido, bafo de cachaça — homem macho não usa cheiro. Sem dela se afastar, Daniel levou as duas mãos ao rosto de Tereza, emoldurando-o nos dedos, e a fitá-la nos olhos veio com a boca semi-aberta e tomou de sua boca. Por que Tereza não desvia a cabeça se tem horror a beijos, nojo da boca do capitão sobre a sua, a sugar, a morder? Maior que o nojo era o medo. O moço, porém, não lhe faz medo; então, por que consente, não vira a cara, não o manda embora?
    A boca de Dan, os lábios, a língua, longa, suave carícia, a boca de Tereza foi se entregando. De repente, dentro de seu peito alguma coisa explodiu e os olhos, presos aos olhos celestes do anjo, umedeceram-se — pode-se chorar por outros motivos que não sejam dor de pancada, ódio impotente, medo incontido? Além dessas, existem outras coisas na vida? Não saberia dizer, só tinha comido da banda podre; peste, fome e guerra, a vida de Tereza Batista."

Tereza Batista cansada de guerra 
Jorge Amado

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Medo nos olhos de Tereza, curso de completo de medo e respeito...


“Antes, porém, tentou fugir pela segunda vez. Descobriu ter sido suspensa a vigilância do cabra no corredor durante as idas e vindas de Guga. Na certa, o capitão, ao fim de dois meses de intenso tratamento, considerava-a suficientemente dobrada, submissa à sua vontade.
Constatada a ausência do capanga, Tereza outra vez investiu, metida na camisola de Dóris, ligeira como um bicho do mato. Não foi longe: aos gritos de Guga acorreram o capitão e dois cabras, cercaram-na nas aforas da casa, trouxeram-na de volta. Dessa vez o capitão mandou amarrá-la com cordas; fardo sem movimentos, de novo atirada no quarto.
Meia hora depois, Justiniano Duarte da Rosa apareceu à porta, riu seu riso curto, sentença fatal. Trazia na mão um ferro de engomar cheio de brasas. Levantou-o à altura da boca, soprou por detrás, voaram faíscas pelo bico, brilharam lá dentro os carvões acendidos. Passou o dedo na língua, depois no fundo do ferro, o cuspo chiou.
Arregalaram-se os olhos de Tereza, o coração encolheu e então a coragem lhe faltou, soube a cor e o gosto do medo. Tremeu-lhe a voz e mentiu:
— Juro que não ia fugir, só queria tomar banho, tou grossa de sujo.
Apanhara sem pedir piedade, calada, apenas o choro e os gritos; não rogara pragas, não xingara, enquanto tinha forças reagia e não se entregava. Chorou e consentiu, é certo; jamais, porém, implorara perdão. Agora, acabou-se:
— Não me queime, não faça isso, pelo amor de Deus. Nunca mais vou fugir, peço perdão; faço tudo que quiser, peço perdão. Pelo amor de sua Mãe, não faça isso, me perdoe, ai, me perdoe!
Sorriu o capitão ao constatar o medo nos olhos, na voz de Tereza; finalmente! Tudo no mundo tem o seu tempo e o seu preço.
A menina estava atada de cordas, deitada de barriga para cima. Justiniano Duarte da Rosa sentou-se no colchão diante das plantas nuas dos pés de Tereza. Aplicou o ferro de engomar primeiro num pé, depois no outro. O cheiro de carne queimada, o chiado da pele, os uivos e o silêncio de morte.
Depois de fazê-lo, o capitão a desamarrou; já não eram necessárias cordas e vigilância, cabra no corredor, fechadura na porta. Curso completo de medo e respeito, Tereza por fim obediente.Chupa, ela chupou. Depressa, de quatro e de costas. Depressa se pôs. Sozinha no mundo e com medo, Tereza Batista, argola no colar do capitão.”

Tereza Batista cansada de guerra
Jorge Amado

sábado, 13 de abril de 2013

Estátua de pedra

"Estátua de pedra na ponte de velhas tábuas roídas pelo tempo. Tereza Batista ali permanece fincada, um punhal cravado no peito. A noite a envolve e penetra de trevas e vazio, de saudade e ausência, ai meu amor, mar e rio."
Tereza Batista cansada de guerra
Jorge Amado