quarta-feira, 22 de maio de 2013

Explicar, não explico...


“Milagres demais, na opinião do amigo, descrente dessas abusões. Orixás acontecendo a cada instante, encantamentos e magias. Velho de barbas e bordão surgindo de repente, a fechar os caminhos da polícia, a abrir portas de igreja, poeta morto há cem anos salvando raparigas., Ogum Peixe Marinho infundindo confiança, Exu empurrando o revoltado comissário, fazendo-o estatelar-se, quebrando-lhe de vez as duas pernas, Santo Onofre velando no deserto chão da zona o corpo de Vovó — para um materialista ê dose bruta, o amigo deseja o relato da verdade pura e não feitiçarias.
Não discuto a conta feita pelo amigo, o número certo das intervenções indébitas mas não se esqueça que o caso se deu na cidade da Bahia, situada no oriente do mundo, terra de esconjuros e ebós. Aqui, meu prezado, os absurdos são o pão de cada dia desse povo incapaz de inventar uma mentira ainda mais a propósito de assunto tão mexido.
Me diga o distinto, por favor: como seria possível a putas sem tostão, sem armas e sem leitura, enfrentar a polícia e ganhar a guerra do balaio fechado se não contassem com a ajuda de santos e orixás, de feiticeiros e poetas? O que teria sido delas, me responda, se para tanto tem competência e fantasia.
Explicar, não explico, só lhe contei porque me rogou com insistência e um chofer de táxi tem a obrigação de tratar bem a freguesia, conversando e comentando para fazer a corrida mais maneira. Quem no mundo pensa, tudo explicar, trocando em miúdo cada fato, prendendo a vida nas cancelas das teorias, é apenas, me desculpe o amigo, um falso materialista, sábio de meia-tigela, um caga-regras, historiador de vôo curto, um tolo.
Para terminar, some mais um despropósito aos muitos que ouviu, sucedeu comigo, Edgard Rogaciano Ferreira, conhecido em toda a praça da Bahia por sério e inimigo de patranhas. Já lhe disse como vi naquela noite vazio o pedestal da estátua do poeta Castro Alves, na praça do mesmo nome, onde faço ponto. Pois, ao acordar novamente, bem mais tarde, à passagem dos carros da policia conduzindo o mulherio preso no fim da briga, tendo levantado os olhos para o monumento, o que vejo? A estátua do poeta em seu lugar de sempre, o braço estendido para o mar e na mão um cartaz rasgado com figuras de mulheres e palavras sem sentido, todo poder às putas, já pensou? E agora saia dessa se puder, o caro amigo. Boa noite eu lhe desejo, tome cuidado com Exu.”

TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO

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