sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Atrás da porta.







Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei
Sobre teu corpo e duvidei

E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho

Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua...






Elis Regina.
Ouça aqui.

Felicidades novas


"Eu já nem desejo muito
para mim e para todo ser vivo,
irmão ou desconhecido:
o dia pacificado,
a noite serena. Alguém
acha meu voto excessivo?”


Receita de Ano Novo, Carlos Drummond de Andrade.

O bêbado e a equilibrista


Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil.
Meu Brasil!...

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil...

Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança...

Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar...

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar...

Elis Regina. 


Ouça aqui. 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Encontros


"Perdida em uma névoa, a maioria de nossos encontros. Apenas quando alguém se torna vital é que tentamos dar ao primeiro encontro a importância que depois ele viria a ter… Embora, se formos honestos, aquele homem, aquela mulher, era apenas um rosto ou uma circunstância“.

O Pálido Olho Azul, Louis Bayard

...ardia de impaciência por tal viagem...



"Há muito tempo ardia de impaciência por tal viagem: pensara nisso todos os dias; fizera cálculos, imaginara futuras felicidades. Queria teatros bufos, ceias ruidosas ao lado de francesas, passeios fora de horas, a carro, pelos arrabaldes. Seu espírito, excessivamente romântico, como o de todo maranhense nessas condições, pedia uma grande cidade, velha, cheia de ruas tenebrosas, cheias de mistérios, de hotéis, de casas de jogo, de lugares suspeitos e de mulheres caprichosas; fidalgas encantadoras e libertinas, capazes de tudo, por um momento de gozo. E Amâncio sentia necessidade de dar começo àquela existência que encontrara nas páginas de mil romances. Todo ele reclamava amores perigosos, segredos de alcova e loucuras de paixão."

Casa de Pensão. Aluísio Azevedo. 

Elegia a uma pequena borboleta.



Como chegavas do casulo, 
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia, 

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas, 

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente 
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava! 

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!

Cecília Meireles. 

Oração ao Tempo.



És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo.


Caetano Veloso. 


Ouça  aqui.

Folhetim

Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem 'sim'
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim

E se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falsa
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim

E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis

Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte
Te afasta de mim
Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim


(Chico Buarque)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Urgente


"a cidade lá fora, com gentes falando sempre alto demais, sem parar, entrando e saindo de lugares, bebendo, comendo coisas, pagando contas, dançando alucinadas, querendo ser felizes antes da segunda-feira: urgente"

Estranhos Estrangeiros, Caio F. Abreu

Convidativos


"Os livros me dão as costas. Não para me rejeitar, como as pessoas: são convidativos, querendo apresentar-se a mim. Metros e mais metros de livros que nunca poderei ler. E sei: o que aqui se oferece é a vida, são complementos à minha própria vida que esperam ser postos em uso. Mas os dias passam rápido e deixam para trás as possibilidades. Um único desses livros talvez bastasse para mudar completamente a minha vida. Quem eu sou agora? Quem eu seria então?"

A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, Jostein Gaarder

Ler


"Os prazeres da leitura são múltiplos. Lemos para saber, para compreender, para refletir. Lemos também pela beleza da linguagem, para nossa emoção, para nossa perturbação. Lemos para compartilhar. Lemos para sonhar e para aprender a sonhar (há várias maneiras de sonhar…). A melhor maneira de começar a sonhar é por meio dos livros…"


A arte de ler, José Martins.

Fabuloso


"Todo futuro es fabuloso" (Alejo Carpentier)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Uma fenda


" O amor, pensava, devia chegar de repente com grande estrondo e fulgurações - furacão dos céus que cai sobre vida, transtornando-a, arranca as vontades como folhas e arrasta para o abismo o coração inteiro. Ela não sabia que no terraço das casas a chuva faz lagos quando as calhas estão entupidas e permaneceu assim em sua segurança, quando descobriu subitamente uma fenda no muro."


Madame Bovary, Gustave Flaubert.

Cicatriz


" Peço-lhe nesse instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos que fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado?Este vai ser o nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa : Eu sobrevivi."


Pequena Abelha, Chris Cleave.

O mestre do horror

Stephen King

O livro da vez do Clube das Literatas tem como seu autor o americano do estado do Maine, Stephen King. Conhecido mundialmente como o mestre do horror, King já escreveu mais de 60 livros - dos quais mais de 50 possuem tradução para o português - várias novelas para televisão, episódios de seriados como Arquivo X, teve suas histórias transfomadas em quadrinhos e filmes - na parceria com Stanley Kubrick - e continua produzindo. Há ainda os grandes sucessos do autor que não pertencem ao seu gênero comum, o terror, como "À Espera de um Milagre", "Conta Comigo" e "Um Sonho de Liberdade", todos transformados em filmes de grande público.

Nas fotos, o palhaço (do livro "It") que atormenta o imaginário de muitas crianças - e muitos adultos também! - e o pobre Jack Torrance, brilhantemente interpretado por Jack Nocholson em um de seus primeiros trabalhos no cinema, dominado pelos fantasmos do Overlook Hotel (do livro "O Iluminado").

Nosso livro da vez, "O Cemitério", foi levado ao cinema com o nome "Cemitério Maldito" e será uma aventura para as Literatas e para os visitantes do blog que compartilharão das nossas impressões!


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Em busca de mais

O silêncio das estrelas

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um deus e amanheço mortal

E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim
Ver que toda essa procura não tem fim
E o que é que eu procuro afinal?

Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais, de mais...
Afinal, como estrelas que brilham em paz, em paz...

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um deus e amanheço mortal

Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais...

(Lenine / Dudu Falcão)


Ouçam
aqui.

O "Simitério" de Bichos



Sinopse

Louis Creed, jovem médico de Chicago, acredita que encontrou seu lugar naquela pequena cidade do Maine. Uma casa boa, o trabalho na universidade, a felicidade da esposa e dos filhos. Num dos primeiros passeios para explorar a região, conhece um cemitério no bosque próximo à sua casa. Ali, gerações e gerações de crianças enterraram seus animais de estimação. Para além dos pequenos túmulos, onde letras infantis registram seu primeiro contato com a morte, há, no entanto, um outro cemitério. Uma terra maligna que atrai pessoas com promessas sedutoras. Um universo dominado por forças estranhas capazes de tornar real o que sempre pareceu impossível. A princípio, Louis se diverte com as histórias fantasmagóricas do velho vizinho Crandall. Só aos poucos começa a perceber que o poder de sua ciência tem limites.
A história começa a ficar mais medonha quando o gato da família é atropelado na estrada. Louis fica preocupado como a filha irá agir com a morte do bichinho de estimação e decide enterra-lo no cemitério, o que não foi uma boa ideia. O gato volta irreconhecível.

(Sem autor)
[ Espero que gostem do livro. ]

Tudo isso existe lá


"Além do horizonte deve ter

Algum lugar bonito

Pra viver em paz

Onde eu possa encontrar a natureza

Alegria e felicidade

Com certeza

Lá nesse lugar

O amanhecer é lindo

Com flores festejando

Mais um dia que vem vindo

Onde a gente pode

Se deitar no campo

Se amar na relva

Escutando o canto

Dos pássaros

Aproveitar a tarde

Sem pensar na vida

Andar despreocupado

Sem saber

A hora de voltar

Bronzear o corpo todo

Sem censura

Gozar a liberdade

De uma vida sem frescura

Porque você vem comigo

tudo isso existe lá

no horizonte

esperando por nós dois

Porque você vem comigo

Tudo isso tem valor

Pois só vale o paraíso

Com amor

Além do horizonte

Existe um lugar

Bonito e tranquilo

Pra gente se amar"


Além do horizonte, Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Meditação


Quem acreditou
No amor, no sorriso, na flor
Entao sonhou, sonhou...
E perdeu a paz...
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais.

Quem, no coraçao
Abrigou a tristeza de ver tudo isto se perder...
E na solidao
Procurou um caminho e seguiu,
Já descrente de um dia feliz...

Quem chorou, chorou
E tanto que seu pranto já secou...
Quem depois voltou
Ao amor, ao sorriso e à flor,
Então tudo encontrou...
E a própria dor
Revelou o caminho do amor,
E a tristeza acabou...
Tom Jobim

Inútil Paisagem


Mas pra que?
Pra que tanto céu?
Pra que tanto mar?
Pra que?
De que serve esta onda que quebra
E o vento da tarde...
De que serve a tarde?
Inútil paisagem...
Pode ser
Que não venhas mais,
Que não voltes nunca mais...
De que servem as flores que nascem
Pelo caminho?
Se o meu caminho
Sozinho é nada...
Tom Jobim e Aloysio de Oliveira

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Everything is dust in the wind ...


Dust in the wind
Kansas
.
I close my eyes
Only for a moment
And the moment's gone
All my dreams
Pass before my eyes, a curiosity
Dust in the wind
All they are is dust in the wind

Same old song
Just a drop of water
In an endless sea
All we do
Crumbles to the ground
Though we refuse to see
Dust in the wind
All we are is dust in the wind

Now, don't hang on
Nothing lasts forever
But the earth and sky
It slips away
And all your money
Won't another minute buy

Dust in the wind
All we are is dust in the wind
Dust in the wind
Everything is dust in the wind
.
*Para ouvir, clique aqui.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A gota que falta

Gota d'água

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água...

(Chico Buarque)

Ouçam aqui.

Tempo Perdido


Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E Selvagem! Selvagem!
Selvagem!

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos castanhos

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes acesas agora

O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens!
Tão jovens!
Tão jovens!

(Legião Urbana)
.
*Para ouvir, clique aqui.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Regra três


Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz,
Abusou da regra três
Onde menos vale mais.

Da primeira vez ela chorou,
Mas resolveu ficar...
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar.
Depois perdeu a esperança,
Porque o perdão também cansa de perdoar...

Tem sempre o dia em que a casa cai,
Pois vai curtir seu deserto, vai!
Mas deixe a lâmpada acesa,
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto,
Porque você pode estar certo que vai chorar...
Vinícius e Toquinho

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

VII Encontro do Clube do Libro – A Alma Imoral

Drink no dancing

A história de Lily Braun

Como num romance
O homem dos meus sonhos
Me apareceu no dancing
Era mais um
Só que num relance
Os seus olhos me chuparam
Feito um zoom

Ele me comia
Com aqueles olhos
De comer fotografia
Eu disse cheese
E de close em close
Fui perdendo a pose
E até sorri, feliz

E voltou
Me ofereceu um drink
Me chamou de anjo azul
Minha visão
Foi desde então ficando flou

Como no cinema
Me mandava às vezes
Uma rosa e um poema
Foco de luz
Eu, feito uma gema
Me desmilinguindo toda
Ao som do blues

Abusou do scotch
Disse que meu corpo
Era só dele aquela noite
Eu disse please
Xale no decote
Disparei com as faces
Rubras e febris

E voltou
No derradeiro show
Com dez poemas e um buquê
Eu disse adeus
Já vou com os meus
Numa turnê

Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drink no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz


(Chico Buarque e Edu Lobo)

Ouçam aqui na voz dos compositores e aqui na voz de Gal Costa.

Abre teu coração

A bela e a fera

Ouve a declaração, oh bela
De um sonhador titã
Um que dá nó em paralela
E almoça rolimã
O homem mais forte do planeta
Tórax de Superman
Tórax de Superman
E coração de poeta

Não brilharia a estrela, oh bela
Sem noite por detrás
Tua beleza de gazela
Sob o meu corpo é mais
Uma centelha num graveto
Queima canaviais
Queima canaviais
Quase que eu fiz um soneto

Mais que na lua ou no cometa
Ou na constelação
O sangue impresso na gazeta
Tem mais inspiração
No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Letras de macarrão
Fazem poema concreto

Oh bela, gera a primavera
Aciona o teu condão
Oh bela, faz da besta fera
Um príncipe cristão
Recebe o teu poeta, oh bela
Abre teu coração
Abre teu coração
Ou eu arrombo a janela

(Chico Buarque e Edu Lobo)

Ouçam
aqui.

Contemplo o lago mudo

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
Fernado Pessoa

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Clube das Literatas no Correio Braziliense!

Na manhã de hoje, tivemos nossa segunda matéria publicada, dessa vez num dos principais veículos de comunicação, o jornal Correio Braziliense. A primeira matéria a respeito do nosso clube foi publicada na revista Vinte e Um, também maravilhosa, que pode ser lida aqui, na página 40. Ambas são motivos de muita felicidade para o grupo, e é por isso mesmo que resolvemos compartilhar com vocês, leitores do nosso blog. Espero que gostem da matéria que a jornalista Gabriela de Almeida preparou com tanto carinho! E aproveito, ainda, para dizer às demais literatas que é um imenso prazer poder fazer parte de algo tão lindo como nosso clube. Que ele seja duradoro e próspero! E vamos à leitura!!

 

Livros de papel e os clubes de leitura continuam em alta no Brasil
Gabriela de Almeida 
Publicação: 15/12/2010 07:19 
Quando Gabriela Gonçalves leu Madame Bovary, de Gustave Flaubert, pela primeira vez, o impacto foi tão grande que sua vontade era de entregar um exemplar para cada pessoa que visse pela frente. “Quis compartilhar a experiência, queria que várias pessoas sentissem o que senti”, afirma. A aluna de letras da Universidade de Brasília (UnB) é uma amante dos livros. Com 25 anos, a paixão foi compartilhada com a criação, em abril, do Clube das Literatas, uma reunião das amigas Luiza Vieira, Juliana Freitas, Vanessa Vieira, Daniela Inocêncio, Luzia Pires, Aquíria Francielli e Melina Alves em torno de clássicos da literatura mundial. A cada mês o grupo elege uma anfitriã para receber o encontro e escolher o próximo livro que será lido. Luzia Pires, 21, foi escolhida anfitriã para a reunião de discussão do livro A mãe, de Maksim Gorki. A escolha, segundo a estudante, foi uma sugestão do pai.

O grupo é a prova de que velhos hábitos nunca mudam. Com a média de idade de 21 anos, as meninas do Clube das Literatas não abrem mão do bom e velho livro de papel e estão à frente de grande parte da população brasileira na mesma faixa etária, no que diz respeito ao número de livros que leem por mês, uma média de quatro. “Nosso intuito com o clube é unicamente literário. Não pretendemos estudar as obras, por que isso já fazemos na universidade, mas sim trocar a experiência que o livro escolhido provocou em cada uma de nós”, explica Gabriela.

Dados de uma pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro concluem que a cada quatro brasileiros, um não faz a menor ideia do papel da leitura na formação intelectual do cidadão, e apenas três acreditam que esse hábito tem um significado positivo. Em contrapartida, recentemente uma nova pesquisa mostrou que o índice de leitura dos brasileiros aumentou 150% na última década. O número passou de 1,8 livro por ano, em média, para 4,7.

Boa parte do aumento do hábito de leitura deve-se a aquisição de leitores eletrônicos, como o iPad, o Sony Reader e o Kindle. Em um estudo com 1,2 mil donos de leitores eletrônicos nos Estados Unidos realizado pela Marketing and Research Resources, 40% disseram que passaram a ler mais livros após à aquisição do aparelho e 55% dos entrevistados acharam que vão usar o aparelho para ler ainda mais livros futuramente. Só nos EUA, as vendas desses equipamentos cresceram quase 200% no primeiro semestre. Por enquanto, os aparelhos de leitura ainda são um artigo de luxo e não pertencem à realidade de grande parcela da população brasileira, mas o acesso digital a um grande número de obras da literatura está cada vez mais próximo principalmente para a formação de novos leitores.

Iniciativas

Dona de um dos talk shows mais vistos da televisão norte-americana, Oprah Winfrey é uma defensora da leitura. A apresentadora possui um clube do livro onde a cada mês sugere uma nova obra para o público. Oprah utiliza o espaço para sugerir um livro e avalia a leitura de acordo com as próprias impressões. O sucesso é tão grande que muitos livros se tornaram best-sellers pela divulgação de Oprah e o seu programa é visto em mais de 100 países. Um exemplo é o romance Freedom, de Johatran Franzen, sugerido por Oprah e que ocupou o topo da lista do jornal The New York Times.

No Brasil, a dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano (zezedicamargoeluciano.uol.com.br)criou uma corrente de leitura em parceria com os seguidores do Twitter. A cada 60 dias a dupla sorteia 50 pessoas que se cadastram no site e recebem o livro em casa. Na última corrente os livros mais votados pelo público foram Comer rezar amar (Elizabeth Gilbert), O menino do pijama listrado (John Boyne), A cabana (William Young), Querido John (Nicholas Sparks) e A última música (Nicholas Sparks).

CURIOSIDADES ELETRÔNICAS

» Em eventos literários já foram registrados alguns pedidos de autógrafos aos escritores nos aparelhos eletrônicos de leitura. O escritor David Sedaris disse que enquanto lançava o livro When you are engulfed in flames, em uma livraria de Manhattan, Nova York, um leitor apresentou seu Kindle para um autógrafo. O escritor revelou que já assinou pelo menos cinco Kindles e um bom número de iPads.


4


Média de livros lidos por mês pelo Clube das Literatas

OS FAVORITOS DO ANO PELO CLUBE


» Madame Bovary, de Gustave Flaubert

» Lavoura arcaica, de Raduan Nassar

» Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos

» Um sopro de vida, de Clarice Lispector

» Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez

» A mãe, de Maksim Gorki

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Amores serão sempre amáveis

Futuros Amantes

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

(Chico Buarque)


Ouçam aqui!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Maduro


"Meu coração não quer

Nada no futuro

Ele só quer pra já

Já que está maduro


No que o momento dá

Meu coração pega

No que você mandar

Meu coração navega


Vai chegar antes

Melhor que antes

junto

Vai chegar junto"


Meu coração, Gilberto Gil

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Mil

ELA FAZ CINEMA

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual

Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz

Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.

Chico Buarque

Ouçam aqui

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

30 anos sem John

Trago um trecho do musical feito em 2007 em homenagem aos Beatles, Across the Universe, em que é interpretada a música do John Lennon "Come Together" , uma das minhas preferidas!
Hoje, dia de homenagens, lembremos do mais apaixonado dos Beatles!

Centelha


"Nem só o bom e o correto dá conta da centelha permanente que promove e motiva tudo na vida."
A Alma Imoral, Nilton Bonder

16 anos sem Tom



Poética

De manhã escureço,
De dia tardo,
De tarde anoiteço,
De noite ardo.
A oeste, a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo,
O leste é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem.
Nasço amanhã,
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Em homenagem a Tom Jobim.

Gênero, gêneros: onde se encontram mulheres e homens?


"Tomando-se gênero como o processo social que constrói diferenças e hierarquias sexuais, delimitando o que seria o masculino e o feminino, fica uma indagação, pois trata-se tanto de discutir categorias como de evidenciar hierarquias e relações de poder daí decorrentes. Ou seja, apontar que masculino e feminino são diferenciações biológicas e sociais que implicam relações de poder e resultam na subalternidade das mulheres.
São colocações corretas, mas que não elucidam como se produziu a dominação de umas pelos outros. É preciso saber se não estaria intuído nestas colocações que homens - isto é, todos os homens - são livres; mulheres não são livres. Seria livre o "homem-proletário"? É possível especular que este homem-proletário, amanhado por sua companheira, ao se tornar provedor, tenha adotado a posição de dominador da mulher, autorizado a tal exercício de poder pela filosofia. No entanto, a experiência indica que o proletariado não renuncia espontaneamente ao poder político sobre a sociedade; é pela educação (ideologia) que se logrará tal renúncia, não havendo a renúncia "altruísta", como quer o positivismo comteano. Reproduz-se, deste modo, o esquema geral dos exercícios de poder, a dominação de uns sobre outros e a reprodução da dominação na escala microeconômica, conformado como micropoderes. Num primeiro plano, homens e mulheres acham-se submetidos aos dispositivos gerais da ordem instaurada nas relações capitalistas; num segundo plano, estes mesmos homens e mulheres garantirão a manutenção e a reprodução de tais arranjos de poder nas suas relações pessoais."



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Vem sentar-te comigo Lídia



Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente

E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,

Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos

Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,

Pagã triste e com flores no regaço.


Ricardo Reis, 12-6-1914
Vale a pena conferir Paulo Autran recitando esse poema!

Esteja


"As mães não nos dizem onde estamos, e nos deixam sozinhos; onde os medos acabam e Deus começa - aí talvez a gente esteja."

Rainer Maria Rilke

Seus olhares estavam presos

"Segurou a minha mão entre as suas, tão fortes e amorenadas pelo sol. Foi como se meu corpo partisse em mil bocaditos, como se explodisse, como se rebentasse tal e qual uma nuvem rebenta na hora das chuvas... Deixei minha mão entre as suas por um longo momento, como um pássaro aconchegado em seu ninho.

... mas seus olhares estavam presos em mim como pedras preciosas incrustadas num colar. E aquele foi, então, um dos momentos perfeitos da minha vida."
Manuela

Trecho de A casa das sete mulheres de Letícia Wierzchowski

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Outros


"Fui até onde eu pude, mas como é que não compreendi que aquilo que já não alcanço em mim... Já são os outros?"


Clarice Lispector

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Nada é impossível mudar!

Nada é impossível de mudar
Bertold Brecht



Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

Para viver um grande amor...


Para Viver Um Grande Amor
Vinicius de Moraes

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

E nós?


"Entender que não precisamos ser onipotentes é uma das maiores libertações. Ninguém, homem ou mulher, pai ou mãe, pode ser totalmente responsabilizado pela sorte de ninguém, por seus erros e acertos, por sua solidão ou felicidade - a não ser na medida justa, em que se é responsável por quem se ama, dentro dos limites da capacidade de cada um.

Na maturidade percebe-se que não importa tanto o que fizeram conosco, mas o que fizemos com o que eventualmente nos aconteceu. É uma indagação dramática, que na juventude parece algo a resolver num futuro muito remoto. E nós, e nós? Precisamos descobrir que amadurecer não significa desistir nem estagnar."


O Rio do Meio, Lya Luft

Rastejando


"Quem é essa, agora, que dentro de mim me assusta e me atrai?Sorrateira, ela sou eu ou é alguma sombra que me segue como um bicho rastejando nos calcanhares de minha alma?Lá está, lá está, e sabe tudo, faz tudo: eu sou apenas ferramenta, garganta pela qual ela chama, chama, chama.

A quem deseja, a quem busca, a quem quer?"


O Rio do Meio, Lya Luft

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O desdém dos finados.



"Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar aos outros, embaça-se a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos, não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados."

Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis.

domingo, 28 de novembro de 2010

Não se preocupe...


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

Clarice Lispector.

sábado, 27 de novembro de 2010

Sob seu olhar

"... Ah, o que os seus olhos já tinham visto! Que terras, que mistérios, que tesouros e perigos contemplara. E, no entanto, guardavam ainda aqueles olhos para mim o seu brilho e a sua luz de sol poente... Sim, pois foi sob seu olhar que me descobri mulher. E eu era então como a concha que descobre em si mesma uma pérola."



trecho de A casa das sete mulheres
de Letícia Wierzchowski

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Poeminho do contra.


"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!"

Mario Quintana