sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A idade de ser feliz


A Idade de Ser Feliz

(Mário Quintana)

Existe somente uma idade para a gente ser feliz.
Somente uma época na vida de cada pessoa
em que se pode sonhar e fazer planos,
e ter energia bastante para realizá-los,
a despeito de todas as dificuldade e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encontrar com a vida
e viver apaixonadamente,
com o entusiasmo dos amantes
e a coragem dos aventureiros.
Fase dourada em que se pode criar e recriar a vida
à imagem e semelhança
dos nossos desejos;
e sorrir e cantar, e brincar e dançar,
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e desfrutar de tudo com toda a intensidade,
sem preconceito nem pudor.
Tempo em que cada limitação humana
é só mais um convite ao crescimento;
um desafio a lutar com toda energia
e a tentar algo novo, de novo e de novo
e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão especial e tão única
chama-se presente...
E tem apenas a duração do instante que passa...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Coisa mais linda


Coisa Mais Linda

Caetano Veloso

Coisa mais bonita é você,
Assim,
Justinho você
Eu juro,eu não sei porque você
Você é mais bonita que a flor,
Quem dera,
A primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza que é o amor
Perfumando a natureza,
Numa forma de mulher
Porque tão linda assim não existe a flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe
Porque tão linda assim não existe
A flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor,
Nem mesmo o amor existe

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Gosto de saudade...


...marca do êxtase...





"A boca beijada não guarda a marca do êxtase; ele fica na boca de quem a beijou"


Carlos Drummond de Andrade. In: O avesso das coisas.

A Máquina do Mundo





E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

I
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.


Carlos Drummond de Andrade.




Carlos Drummond de Andrade, poeta, contista e cronista brasileiro. Nasceu em Itabira, Minas Gerais, no dia 31 de outubro de 1902. Falecera em 17 de agosto de 1987, com 84 anos. Se ainda estivesse vivo, completaria 110 anos de idade no dia de hoje. 
Entre seus poemas mais conhecidos estão: "Sentimento do mundo", "José", "Quadrilha", Mãos dadas", "No meio do caminho", "As sem-razões do amor". 

sábado, 27 de outubro de 2012

XVII Encontro Clube do Livro – Cecília Meireles





TRAZE-ME um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
— vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no seu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
— vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saüdade da flor!
— Vê que nem te digo — esperança!
— Vê que nem sequer sonho — amor!

Murmúrio, Cecília Meireles

CANÇÃO



NUNCA eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na bôca,
e depois no teu ouvido.

Levou sòmente a palavra,
deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só si aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...

Cecília Meireles, Viagem

MOTIVO



EU CANTO porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gôzo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Si desmorono ou si edifico,
si permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei si fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles, Viagem

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

É outra coisa

"Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é trambém exato que perdeu muito espinho que a fez molesta,  e, da memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira”.
Dom Casmurro, Machado de Assis.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Gênesis

Gênesis
Primeiro não havia nada
Nem gente, nem parafuso
O céu era então confuso
E não havia nada
Mas o espírito de tudo
Quando ainda não havia
Tomou forma de uma jia
Espírito de tudo

E dando o primeiro pulo
Tornou-se o verso e reverso
De tudo que é universo
Dando o primeiro pulo
Assim que passou a haver
Tudo quanto não havia
Tempo pedra peixe dia
Assim passou a haver

Dizem que existe uma tribo
De gente que sabe o modo
De ver esse fato todo
Diz que existe essa tribo
De gente que toma um vinho
Num determinado dia
E vê a cara da jia
Gente que toma um vinho

Dizem que existe essa gente
Dispersa entre os automóveis
Que torna os tempos imóveis
Diz que existe essa gente
Dizem que tudo é sagrado
Devem se adorar as jias
E as coisas que não são jias
Diz que tudo é sagrado

E não havia nada
Espírito de tudo
Dando o primeiro pulo
Assim passou a haver
Diz que existe essa tribo
Gente que toma um vinho
Diz que existe essa gente
Diz que tudo é sagrado

Caetano Veloso

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Felicidade

"És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste."
Cecília Meireles

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Tudo está em gostar da vida e saber viver...



"Trecho do documentário de Adilson Ruiz que realiza um trajeto poético por São Paulo, sob a perspectiva do olhar do escritor Mário de Andrade."

Ah!

Ah, se pelo menos o pensamento não sangrasse! Ah, se pelo menos o coração não tovesse memória! Como seria menos linda e mais suave a minha história!"
Cacasa

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Velhas árvores

(Olavo Bilac)

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...
O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,
Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Acordar

trecho do poema de Álvaro de Campos




Eu adoro todas as coisas 
 E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. 
 Tenho pela vida um interesse ávido 
 Que busca compreendê-la sentindo-a muito. 
 Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, 
 Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, 
 Para aumentar com isso a minha personalidade. 
 
 Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio 
 E a minha ambição era trazer o universo ao colo 
 Como uma criança a quem a ama beija. 
 Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras, 
 Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo 
 Do que as que vi ou verei. 
 Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações. 
 A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos. 
 Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Shadow days







Did you know that you could be wrong
And swear you're right
Some people been known to do it
All their lives
But you find yourself alone
Just like you found yourself before
Like I found myself in pieces
On the hotel floor
Hard times help me see

I'm a good man, with a good heart
Had a tough time, got a rough start
But I finally learned to let it go
Now I'm right here, and I'm right now
And I'm open, knowing somehow
That my shadow days are over
My shadow days are over now

Well, I ain't no troublemaker
And I never meant her harm
But it doesn't mean I didn't make it
Hard to carry on

Well, it sucks to be honest (honest)
And it hurts to be real
But it's nice to make some love
That I can finally feel
Hard times let me be

I'm a good man, with a good heart
Had a tough time, got a rough start
But I finally learned to let it go
Now I'm right here, and I'm right now
And I'm open, knowing somehow
That my shadow days are over
My shadow days are over now 

I'm a good man, with a good heart
Had a tough time, got a rough start
But I finally learned to let it go
Now I'm right here, and I'm right now
And I'm open, knowing somehow
That my shadow days are over
My shadow days are over now


Shadow days. John Mayer. 


Cecília Meireles



Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.


Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.


Cecília Meireles, Poesia Completa

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Faz quase tudo


"O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Faz quase tudo
Mas ele é mudo
O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda
Só eu posso pensar
Se Deus existe
Só eu
Só eu posso chorar
Quando estou triste
Só eu
Eu cá com meus botões
De carne e osso
Eu falo e ouço. Hum
Eu penso e posso
Eu posso decidir
Se vivo ou morro por que
Porque sou vivo
Vivo pra cachorro e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
No meu caminho inevitável para a morte
Porque sou vivo
Sou muito vivo e sei
Que a morte é nosso impulso primitivo e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus
Olhos de vidro"
Cérebro eletrônico, Gilberto Gil

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Olhos nus

" Se Deus está no pormenor, o gozo mais agudo também está na miudeza, ouviu isto, M.N?Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do bíquini não tinha a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos sera mais excitante do que a do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno."
As Meninas,  Lygia Fagundes Telles.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Poema de Natal



Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Bicho tão pequeno


"O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.
O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver"
O Homem; as viagens" Carlos Drummond de Andrade.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

My valentine





Música de Paul McCartney. Clipe estrelado por Johnny Depp e Natalie Portman.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Só vendo que beleza


"Eu tenho uma casinha lá na Marambaia
Fica na beira da praia, só vendo que beleza.
Tem uma trepadeira que na primavera
Fica toda florescida de brinco de princesa.
Quando chega o verão eu me sento na varanda,
Pego o violão e começo a tocar.
Minha morena que está sempre bem disposta
Senta-se ao meu lado também a cantar.
Quando chega a tarde um bando de andorinhas
Passa em revoada fazendo verão
E lá na mata um sabiá gorjeia uma linda melodia pra alegrar
meu coração
Às seis horas da tarde o sino da capela
Bate as badaladas da Ave Maria
E a lua nasce por de trás da serra
Anunciando que acabou o dia."
Só vendo que beleza,  Maria Bethânia.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Terminei indo


Terminei indo - China, part. Tiê

Eu já sei caminhar em tantas nuvens
E posso visitar de vez em quando o chão
Do alto do parque, por cima das árvores eu vejo você

Antes de bater o vento eu já pensava em voar
Antes do sol clarear eu desapareci
Por cima dos prédios, estrelas vermelhas não brilham no céu

Eu sou das ruas de qualquer lugar
Existo sempre que você pensar em nós
Não tenho tempo pra guardar recordações

Mas o tanto que eu levar de você
Eu deixo um pouco pra me misturar
E não descanso pra você dormir

Eu já sei caminhar em tantas nuvens
E posso visitar de vez em quando o chão
Do alto do parque, por cima das árvores eu vejo você

Enquanto os pássaros sorriem para mim
Você procura o céu que não existe mais
Em São Paulo cinza, no Rio vermelho, em Recife azul

Mas o tanto que eu levar de você
Eu deixo um pouco pra me misturar
E não descanso pra você dormir

Eu troco a roupa, eu tomo um café
Me sento sempre na janela
E a minha casa é pra onde vão meus pés

sábado, 16 de junho de 2012

meu batom vermelho vai me enfeitar



Retrovisor- Céu

Pode vir me contar das coisas que
Pensei conhecer em ti
Não sei bem se foi eu que me enganei
Ou foi você que me iludiu

Pois, não pense que isso vai ficar assim
Meu batom vermelho vai me enfeitar
Não preciso do espelho do retrovisor pra não borrar

Pois, neste minuto sei tão bem do espaço que ocupo
Meu amor, tudo tem seu lugar

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Meditação

 

Meditação


Quem acreditou
No amor, no sorriso e na flor
Então sonhou, sonhou
E perdeu a paz
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais
Quem no coração
Abrigou a tristeza de ver
Tudo isso se perder
E na solidão
Procurou o caminho e seguiu
Já descrente de um dia feliz
Quem chorou, chorou
E tanto que o seu pranto já secou
Quem depois voltou
Ao amor, ao sorriso e à flor
Então tudo encontrou
Pois a própria dor
Revelou o caminho do amor
E a tristeza acabou

Caetano Veloso.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mas acontece que eu sorri para ti, e aí...


Se eu soubesse
Chico Buarque
Ah, se eu soubesse não andava na rua
Perigos não corria
Não tinha amigos, não bebia, já não ria à toa
Não ia, enfim,
Cruzar contigo jamais

Ah, se eu pudesse te diria, na boa
Não sou mais uma das tais
Não vivo com a cabeça na lua
Nem cantarei: eu te amo demais
Casava com outro, se fosse capaz

Mas acontece que eu saí por aí
E aí...

Ah, se eu soubesse nem olhava a lagoa
Não ia mais à praia
De noite não gingava a saia, não dormia nua
Pobre de mim
Sonhar contigo, jamais

Ah, se eu pudesse não caía na tua
Conversa mole, outra vez
Não dava mole à tua pessoa
Te abandonava prostrado a meus pés
Fugia nos braços de um outro rapaz

Mas acontece que eu sorri para ti
E aí...

Vaca profana

"Respeito muito minhas lágrimas

Mas ainda mais minha risada

Inscrevo, assim, minhas palavras

Na voz de uma mulher sagrada

Vaca profana, põe teus cornos

Pra fora e acima da manada

Vaca profana, põe teus cornos

Pra fora e acima da man...

Ê, ê, ê, ê, ê,

Dona das divinas tetas

Derrama o leite bom na minha cara

E o leite mau na cara dos caretas



Segue a "movida Madrileña"

Também te mata Barcelona

Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks

Picassos movem-se por Londres

Bahia, onipresentemente

Rio e belíssimo horizonte

Bahia, onipresentemente

Rio e belíssimo horiz...

Ê, ê, ê, ê, ê,

Vaca de divinas tetas

La leche buena toda en mi garganta

La mala leche para los "puretas"

Quero que pinte um amor Bethânia

Stevie Wonder, andaluz

Como o que tive em Tel Aviv

Perto do mar, longe da cruz

Mas em composição cubista

Meu mundo Thelonius Monk`s blues

Mas em composição cubista

Meu mundo Thelonius Monk`s...

Ê, ê, ê, ê, ê,

Vaca das divinas tetas

Teu bom só para o oco, minha falta

E o resto inunde as almas dos caretas

Sou tímido e espalhafatoso

Torre traçada por Gaudi

São Paulo é como o mundo todo

No mundo, um grande amor perdi

Caretas de Paris e New York

Sem mágoas, estamos aí

Caretas de Paris e New York

Sem mágoas estamos a...

Ê, ê, ê, ê, ê,

Dona das divinas tetas

Quero teu leite todo em minha alma

Nada de leite mau para os caretas

Mas eu também sei ser careta

De perto, ninguém é normal

Às vezes, segue em linha reta

A vida, que é "meu bem, meu mal"

No mais, as "ramblas" do planeta

"Orchta de chufa, si us plau"

No mais, as "ramblas" do planeta

"Orchta de chufa, si us...

Ê, ê, ê, ê, ê,

Deusa de assombrosas tetas

Gotas de leite bom na minha cara

Chuva do mesmo bom sobre os caretas"

Vaca Profana, Caetano Veloso.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

mentalidades


- Vai mal a Ana Turva. De manhã já está dopada. E faz dívidas feito doida, tem cobrador aos montes no portão. As freirinhas estão em pânico. E esse namorado dela, o traficante...
- O Max? Ele é traficante?
- Ora, então você não sabe - resmungou Lião arrancando um fiapo de unha do polegar. - E não é só bolinha e maconha, cansei de ver a marca das picadas. Devia ser internado imediatamente. O que também não vai adiantar no ponto em que chegou. Enfim, uma caca.
Abro as mãos no tapete. Examino minhas unhas.
- Divino-maravilhoso se o noivo milionário se casar com ela. Empresto o oriehnid para a plástica na zona sul, ele só se casará com uma virgem, ela tem que ficar virgem. Ai meu Pai.
- Você acredita que casamento rico vai resolver? - perguntou Lia. Teve um sorriso triste: - Devia se envergonhar de pensar assim, Lorena. E vai sair casamento? O moço então não está sabendo de toda essa curtição? Ao invés de ficar pensando no milagre do casamento você devia pensar num milagre de verdade, entende? Não sei explicar mas vocês, cristãos, têm uma mentalidade tão divertida.

As meninas, Lygia Fagundes Telles.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Estamos morrendo


Acendo um cigarro. Que me importa dormir no meio dos bêbados, das putas, o cigarro aceso no meu peito, dói sim, mas se soubesse que você está livre, dormindo na estrada ou debaixo da ponte. Mas livre. Não sei aguentar sofrimento dos outros, entende? O seu sofrimento, Miguel. O meu aguentaria bem, sou dura. Mas se penso em você fico uma droga, quero chorar. Morrer. E estamos morrendo. Dessa ou de outra maneira não estamos morrendo?

As meninas, Lygia Fagundes Telles.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A delícia da manhã


À sombra das araucárias
Manuel Bandeira

Não aprofundes o teu tédio.
Não te entregues à mágoa vã.
O próprio tempo é o bom remédio:
bebe a delícia da manhã.

A névoa errante se enovela
na folhagem das araucárias.
Há um suave encanto nela
que enleia as almas solitárias...

As cousas têm aspectos mansos.
Um após outro, a bambolear,
passam, caminho d'água, os gansos.
Vão atentos, como a cismar...

No verde, à beira das estradas,
maliciosas em tentação,
riem amoras orvalhadas.
Colhe-as: basta estender a mão.

Ah! Fosse tudo assim na vida!
Sus, não cedas à vã fraqueza.
Que adianta a queixa repetida?
Goza o painel da natureza.

Cria, e terás com que exaltar-te
no mais nobre e maior prazer.
A afeiçoar teu sonho de arte,
sentir-te-ás convalescer.

A arte é uma fada que transmuta
e transfigura o mau destino.
Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta.
Cada sentido é um dom divino.

terça-feira, 15 de maio de 2012

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Cavaleiro selvagem

"Cavaleiro selvagem
Cavaleiro selvagem
Cavaleiro selvagem
Aqui te sigo (aqui te sigo)
Como a estaca do meu viver
Tua aura reluz
Teu canto conduz
Eleva mais e mais e mais
Te vejo na beleza de um novo dia
Me faz ver na tristeza, sabedoria
Raiz que nunca saiu daqui, sempre morou aqui
Amor, que seja como for
Cavaleiro selvagem
Cavaleiro selvagem
Cavaleiro selvagem
Aqui te sigo (aqui te sigo)
Sereno sobre as casas
Livre, bonito
É vento sob as asas
Estrela-guia
Rumo, norte, figa, sorte
Cor e criança
Vem
Trazendo o nosso sol
Vai
Levando todo o mal
Como quiser, hora, lugar
Quando disser, vou lá
Cavaleiro selvagem
Cavaleiro selvagem
Cavaleiro selvagem
Aqui te sigo
Aqui te sigo"
Cavaleiro selvagem, Mariana Aydar

segunda-feira, 7 de maio de 2012

É bom ser menina


"Deita
O corpo pra cá
Pra variar
A lua brilhando
No calcanhar
A rede balança
Sem descansar
E o tempo não cansa
Na varanda, na varanda...
Deixa
A vida pra lá
Pra variar
Que é hora é nossa
Nesse lugar
A noite é tão linda
Que eu vou ficar
É bom ser menina
Na varanda, na varanda..."
Na varanda de Liz,  Tiê.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Mundo grande


Drummond


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

Por natureza e ofício

"Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões."
Graciliano Ramos

domingo, 29 de abril de 2012

arauto negro

(…)
Por que será que temos tanto medo das palavras? Não tanto da palavra escrita, mas da palavra pronunciada. Por que será que ainda acreditamos em palavras mágicas, rezas, abracadabra? Será que se eu agora, nesta gravação, em vez de te contar esta história, simplesmente parar por uns segundos, respirar fundo e te dizer: quero que você morra. Será que isso vai te ajudar a morrer? Será que isso vai te empurrar? Não sei. Sei apenas que, naquele momento, as palavras da mãe de Karen, por mais melodramáticas e teatrais que fossem, tiveram algum efeito em mim. Como quando você assiste a um filme, você sabe que é tudo mentira, fingimento, mas mesmo assim você sente medo e tristeza e alegria e o que for. Por que será que a gente, mesmo sabendo que é ilusão, na hora de sentir sente de verdade? Será apenas catarse? Ou será uma necessidade muito forte, e muito profunda, de viver algo especial? A necessidade dos grandes sentimentos, amor, ódio, honra, bravura.
Érika liga de novo o rádio, desta vez encontra rapidamente uma estação. Uma ópera. Érika diminui o volume, a música continua enquanto ela fala.
Mas, como te dizia, a mãe de Karen pegou a bolsa e foi embora. Eu fiquei lá, sem conseguir dizer nada, sem conseguir me levantar. Fiquei lá o resto da tarde. Me sentia, de repente, tão frágil, desamparada. É tão fácil qualquer coisa nos atingir. Até mesmo uma frase teatral. Fiquei pensando, talvez eu seja mesmo um monstro. Você acha? Mas o que é exatamente um monstro? Lembro que fui ver no dicionário, monstro é por definição um ser contrário à natureza. Algo que não deveria existir, que não estava programado. O monstro é, portanto, uma espécie de falha da evolução. Por outro lado, há a origem da palavra. Fui procurar a etimologia. E sabe o que eu achei? Lá dizia que originalmente monstro era o ser que vinha anunciar a vontade dos deuses. Curioso, não? Eu gosto dessa definição, porque no fundo ela nos redime, o monstro é apenas um arauto, um arauto negro, nada mais. E nada do que ele faça poderá mudar a vontade dos deuses, entende? Ou seja, o monstro não tem culpa da mensagem que carrega. Mais que isso. Sem ele ficaríamos incomunicáveis. Sem ele, ao entrarmos na sala escura na expectativa da música, do concerto, encontraríamos, aí sim, apenas o silêncio.
Érika desliga o rádio.
Carola Saavedra, Paisagem com dromedário

quarta-feira, 25 de abril de 2012

As meninas

"Que beleza, que força, que matéria viva e lancinante em As Meninas".
Carlos Drummond de Andrade


(Lygia Fagundes Telles)

Alguma coisa de sagrado

"O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria”.
Ensaio: O Livro, Jorge Luís Borges

sexta-feira, 20 de abril de 2012

XV Encontro


Fuga

Retirantes. Cândido Portinari.


Saíram de madrugada. Sinha Vitoria meteu o braço pelo buraco da parede e fechou a porta da frente com a taramela. Atravessaram o pátio, deixaram na escuridão o chiqueiro e o curral, vazios, de porteiras abertas, o carro de bois que apodrecia, os juazeiros. Ao passar junto às pedras onde os meninos atiravam cobras mortas, Sinha Vitoria lembrou-se da cachorra Baleia, chorou, mas estava invisível e ninguém percebeu o choro. [...]
Agora Fabiano examinava o céu, a barra que tingia o nascente, e não queria convencer-se da realidade. Procurou distinguir qualquer coisa diferente da vermelhidão que todos os dias espiava, com o coração aos baques. As mãos grossas, por baixo da aba curva do chapéu, protegiam-lhe os olhos contra a claridade e tremiam. Os braços penderam, desanimados.
- Acabou-se.
[...] Que iriam fazer? Retardaram-se, temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.


Vidas Secas
, Graciliano Ramos

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Coisas desejadas...





"Então, e como sempre, era só depois de desistir das coisas desejadas que elas aconteciam". 


A procura de uma dignidade, in LAÇOS DE FAMÍLIA, de Clarice Lispector. 


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sinha Vitória



"Acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, Sinha Vitória soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas.
Labaredas lamberam as achas de angico, esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras. Sinha Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano. Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida".


Vidas secas, de Graciliano Ramos

Baleia



"Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes."


Vidas Secas
, Graciliano Ramos

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Alguma coisa maior




"Quem andando pelo Jardim Botânico, ou pela Lagoa Rodrigo de Freitas ou ainda assistindo a um pôr do sol no Arpoador não se sentiu parte de alguma coisa maior, uma nova dimensão, parte de uma teia invisível e permanente que liga todas as coisas numa relação de interdependência de vida? Esta sensação é muito forte e abre em nossa consciência um espaço para o invisível, o inominável, o absoluto ou ainda ao que chamamos de Deus. Esta força estranha e atraente que ora nos abraça ora nos repreende de acordo com a lei de nossas ações é o grande mistério do mundo. 
Que relação podemos ter de intimidade e respeito, reverência ou medo diante do infinito e da grandeza, nós simples humanos, mortais e pecadores." 


Trecho de Perdoando Deus, de Clarice Lispector. 

Juros e prazos



"Na palma da mão as notas estavam úmidas de suor. Desejava saber o tamanho da extorsão. Da última vez que fizera contas com o amo o prejuízo parecia menor. Alarmou-se. Ouvira falar em juros e em prazos. Isto lhe dera uma impressão bastante penosa: sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente só serviam para encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. As vezes decorava algumas e empregava-as fora do propósito. Depois esquecia-as. Para que um pobre da laia dele usar conversa de gente rica?"

Vidas secas, de Graciliano Ramos.