segunda-feira, 14 de março de 2011

Sutil


"20 de maio

Passei a tarde no Sutil com os velhos. Como os invejo!Levam a vida que pediram a Deus. Sem compromissos mundanos, sem ambições, e possivelmente sem temores. Decerto aguardam a morte tranquilamente, como quem espera a visita duma velha comadre. Amam o pedaço de tarra onde vivem, cercados de árvores, flores e bichos...Sem telefone, sem rádio, em suma, sem essas máquinas que o velho tanto detesta. A guerra não chega a tocá-los. Babalo segue o noticiário dos jornais com certa curiosidade, mas noto que não acredita na metade das coisas que lê. Um dia me disse: 'É impossível que exista no mundo tanta gente louca e malvada'.

Durante a visita pensei frequentemente em Floriano, por muitas razões, mas especialmente por causa da luz da tarde. Meu amigo sempre dá um jeito de meter nas suas histórias o outono, sua estação favorita. Enquanto eu caminhava ao lado do velho Aderbal pelo Sutil, frequentemente era vos de F. que eu ouvia. 'Que luz macia!A paisagem parece estar dentro dum enorme topázio amarelo. A gente vê ou sente que há também uns toques de violeta na tarde, mas não sabe exatamente onde estão.' Babalo me mostrou uma grande paineira, no alto duma coxilha, tranquila no ar parado, pesada de flores rosadas. O velho percebeu o meu enlevo e disse: 'Sabe o nome dessa árvore?Bibiana Terra'. Mostrou-me depois um jequitibá alto e ereto:'Esta é a velha Maria Valéria'. Levou-me a ver um ipê ainda novo:'Esta é a Sílvia'. Olhou-me bem nos olhos e acrescentou:'Venha na primavera para ver como você fica bonita, toda cheia de flores amarelas'.

Mas a mais bela de todas as coisas era a própria figura do velho Aderbal, com suas grandes mãos vegetais mas ao mesmo tempo tão humanas, sua pele tostada irmã da terra, e aqueles olhos que, de tanto olharem os largos horizontes da querência, pareciam cheios de distâncias, saudades e histórias. A gente custa a acreditar que Aderbal Quadros tenha sido o estancieiro mais rico da região Serrana. Dizem que perdeu tudo que possuía por falta de competência administrativa misturada com falta de sorte e excesso de confiança no próximo. A meu ver, quem explica melhor o fenômeno é o Floriano.' O velho nunca se sentiu bem como homem de grandes posses. Sempre achou o luco indecente e a distribuição de terras injusta. Tinha a vocação da pobreza. Foi ele mesmo que, talvez inconscientemente, trabalhou para a própria ruína.'

Quando voltávamos para a casa, um crepúsculo grave pintava de vermelho e púrpura o horizonte. A tarde parecia afogar-se em vinho. O velho Babalo caminhava ao meu lado, mas calado, compreendendo decerto o que aquele momento significava para mim. O ar era um cristal quase frio. Eu sentia o silêncio não só com os ouvidos mas também com os olhos, o tato e o olfato, porque o silêncio tinha um corpo, uma cor, uma temperatura, um perfume...

- Como vai essa tal de guerra? - perguntou o velho quando já entrávamos na casa.

Contei-lhe que a ofensiva russa em Krakov continuava vitoriosa. Ele sacudiu a cabeça lentamente. D.Laurentina me presenteou com um cesto cheio de bolinhos de milho. Quando se despediu de mim, deu-me a ponta dos dedos. Seu Aderbal me beijou a testa. Bento me esperava no automóvel, à frente da casa. Voltei para o Sobrado com a alma limpa. Floriano costuma dizer que existem dias de duas, três e até quatro dimensões. Nos de duas, quase morremos de tédio. Nos de três, amamos a vida, vislumbramos o seu sentido, fizemos e criamos coisas...Nos de quatro... bom, os de quatro são pura magia. Passamos a fazer parte da paisagem, quase atingimos a unidade com o cosmos.

Tive hoje um dia quase quadridimensional. Que Deus abençoe esses dois velhos. E não Se esqueça muito de mim."


Do diário de Sílvia, Érico Veríssimo.

3 comentários:

  1. Como esse livro é belo! Cada frase tem alguma coisa de mágico, de sublime... Apaixonante. Dá vontade de decorar esses trechos pra nunca mais esquecer a beleza disso.

    ResponderExcluir
  2. Eu já li mil vezes esse livro e me emociono toda vez!!

    ResponderExcluir