"Como é que a mulher africana passou de assunto etnográfico para figurar nas capas de revistas de moda, nos anúncios de cosméticos, nas passarelas de alta-costura? Marcelo, eu bem notava, deleitava-se com a contemplação dessas imagens. Uma raiva funda fervia em mim. Era certo que a invasão da sensualidade negra era um sinal que os padrões de beleza se tornaram menos preconceituosos. A nudez da mulher negra, contudo, me conduzia ao meu próprio corpo. Pensando no modo como via o meu corpo concluí: eu não sabia estar nua. E dei conta: o que me cobria não era tanto o vestuário mas a vergonha. Era assim desde Eva, desde o pecado. Para mim, África não era um continente. Era o medo da minha própria sensualidade. Uma coisa parecia certa: se queria reconquistar Marcelo, precisava de deixar África emergir dentro de mim. Precisava de fazer nascer, em mim, a minha nudez africana."
Antes de nascer o mundo, Mia Couto.
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ResponderExcluirCom certeza, a beleza negra é mesmo única...
ResponderExcluirBelíssimo trecho!
ResponderExcluir"E dei conta: o que me cobria não era tanto o vestuário mas a vergonha. Era assim desde Eva, desde o pecado."
ResponderExcluirNão só as africanas, mas todas as mulheres carregam um grande peso pela sensualidade, um temor que a gente tem do próprio corpo que precisa ser superado!