segunda-feira, 12 de março de 2012

Aqui se oferece vida

"Passeio pelas estantes da biblioteca. Os livros me dão as costas. Não para me rejeitar, como as pessoas: são convidativos, querendo apresentar-se a mim. Metros e mais metros de livros que nunca poderei ler. E sei: o que aqui se oferece é a vida, são complementos à minha própria vida que esperam ser postos em uso. Mas os dias passam rápido e deixam para trás as possibilidades. Um único desses livros talvez bastasse para mudar completamente a minha vida. Quem sou eu agora? Quem eu seria então?”
A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, J. Gaarder e K. Hagerup

sábado, 10 de março de 2012

O perigo da história única











Brilhante relato da escritora nigeriana Chimamanda Adichie sobre "o perigo da história única".

"Eu acho que essa história única sobre a África vem da literatura ocidental. Aqui temos uma citação de um mercador londrino chamado John Locke, que navegou até o oeste da África em 1561 e manteve um fascinante relato de sua viagem. Após referir-se aos negros africanos como 'bestas que não têm casas', ele escreve: 'Eles também são pessoas sem cabeças, que têm sua boca e seus olhos no peito.' Eu rio toda vez que leio isso, e deve-se admirar a imaginação de John Locke. Mas o que é importante sobre sua escrita é que ela representa o início de uma tradição de contar histórias africanas no Ocidente. Uma tradição de representar a África subsaariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do maravilhoso poeta Rudyard Kipling, são 'metade demônio, metade criança'. [...] Então, é assim que se cria uma história única: mostre um povo como uma coisa, como uma única coisa apenas, repetidamente, e será isso que ele se tornará."

quarta-feira, 7 de março de 2012

É o que está certo


E depois de uma tarde de quem sou eu
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero...
Eis que às três horas da madrugada eu me acordei
E me encontrei.
Eu fui ao encontro de mim.
Calma, serena, alegre.
Plenitude sem fulminação.
Simplesmente isso:
Eu sou eu,
você é você.
É lindo, é vasto,
Vai durar.
Eu não sei ao certo
O que vou fazer em seguida,
Mas, por enquanto,
Olha para mim e me ama.
Não!
Tu olhas para ti e te amas
É o que está certo.

Clarice Lisepctor

Persona



Clarice Lispector, na voz de Aracy Balabanian.


"Vou falar da palavra pessoa, que persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem. Obrigada por ter desde cedo me ensinado a distinguir entre os que realmente nascem, vivem e morrem, daqueles que, como gente, não são pessoas."

Keep quiet

"It takes two years to learn to speak and sixty to learn to keep quiet."
Ernest Hemingway

segunda-feira, 5 de março de 2012

O que você quer saber de verdade



Vai sem direção!
Vai ser livre!
A tristeza, não,
Não resiste!
Solte os seus cabelos ao vento!
Não olhe pra trás!
Ouça o barulhinho que o tempo
No seu peito faz!
Faça sua dor dançar!
Atenção para escutar
Esse movimento que traz paz,
Cada folha que cair,
Cada nuvem que passar...
Ouve a terra respirar
Pelas portas e janelas das casas!
Atenção para escutar
O que você quer saber de verdade!

Ressureição

cena do filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos

A lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A caatinga ressucitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a solidão. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, Sinha Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a caatinga ficaria toda verde.
Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para não derramar a água salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna sacudia os xique-xiques e os mandacarus. Uma palpitação nova. Sentiu um arrepio na caatinga, uma ressureição de garranchos e folhas secas.
Chegou. Pôs a cuia no chão, escorou-a com pedras, matou a sede da família. Em seguida, acocorou-se, remexeu o aió, tirou o fuzil, acendeu as raízes de macambira, soprou-as, inchando as bochechas cavadas. Uma labareda tremeu, elevou-se, tingiu-lhe o rosto queimado, a barba ruiva, os olhos azuis. Minutos depois, o preá torcia-se e chiava no espeto de alecrim.
Eram todos felizes. Sinha Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de Sinha Vitória remoçaria, as nadégas bambas de Sinha Vitória engrossariam, a roupa encarnada de Sinha Vitória provocaria a inveja das outras caboclas.
A lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas, três, agora havia poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem escurecia o morro.
A fazenda renasceria - e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono daquele mundo.
Os troços minguados ajuntavam-se no chão: a espingarda de pederneira, o aió, a cuia de água e o baú de folha pintada. A fogueira estalava. O preá chiava em cima das brasas.
Uma ressureição. As cores da saúde voltariam à cara triste de Sinha Vitória. Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores. A caatinga ficaria verde.
Baleia agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas coisas, esperava com paciência a hora de mastigar os ossos. Depois iria dormir.


Trecho de Vidas Secas, Graciliano Ramos

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Palavra

Imagem: Hugo Enio Braz. Extraída de: hugoeniobraz.blogspot.com.

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

Graciliano Ramos

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Versos Negros (Mas nem tanto)


Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.

Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.

À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry, dão câncer.

O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.

Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.

A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.

Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.

E colectivo, nem se fala. Em massa,
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ónibus, no avião, viaja o câncer.

Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte...
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?

Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.

Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.

Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.

O amor então, é a grande solução?
Amor, fonte da vida... Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.

Já que você nasceu... Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinónimo de câncer.

Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trimegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.

Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há-de morrer de câncer.

Ou morrerá - melhor - pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.

Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer - morrer de medo.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A fuga perfeita



"Eu caio nesse estado por diversas razões. Às vezes é depois de uma briga tipo “Não aguento mais olhar pra sua cara”. Outra vezes, é sintomático do meu estado psicológico, tédio até o último fio de cabelo, minha vida que está bagunçada, e aquele sentimento de medo sempre que me perguntam o que ando fazendo. Como alguém pode colocar todas essas coisas em ordem? Levando tudo em consideração, prefiro ler. É a fuga perfeita”.
Ler, Viver e Amar em Los Angeles, J.Kaufman & K. Mack.