sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Dezembros


















Nunca mais a natureza da manhã
E a beleza no artifício da cidade
Num edifício sem janelas,
Desenhei os olhos dela
Entre vestígios de bala
E a luz da televisão

Os meus olhos têm a fome do horizonte
Sua face é um espelho sem promessas
Por dezembros atravesso
Oceanos e desertos
Vendo a morte assim tão perto
Minha vida em suas mãos

O trem se vai na noite sem estrelas
E o dia vem
Nem eu, nem trem
Nem ela
(Fagner e Zeca Baleiro)
*Para ouvir, clique aqui.

Cor da Alma


Alma não tem cor
Porque eu sou branco?Alma não tem cor
Porque eu sou preto?
Branquinho, neguinho
Branco, negão
Percebam que a alma não tem corEla é colorida, sim
Ela é multicolor
Percebam que a alma não tem uma só cor
Ela é colorida, sim
Ela é multicolor
Azul, amarelo
Verde, verdinho, marrom
Você conhece tudo
Você conhece o reggae
Você conhece tudo
Você só não se conhece
Branquinho,neguinhoBranco, negão
Azul, amarelo
Verde, verdinho, marrom
Alma não tem cor - Zeca Baleiro
Ouvir aqui.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Alô, fevereiro!



Tamborim avisou, cuidado,
Violão respondeu, me espera,
Cavaquinho atacou, dobrado,
Quando o apito chegou, já era.

Veio o surdo e bateu, tão forte,
Que a cuíca gemeu, de medo,
E o pandeiro dançou, que sorte,
Fazer samba não é brinquedo.
Todo mês de fevereiro, morena

Carnaval te espera
Querem te botar feitiço, morena
Mas também pudera.

Se ele pega no teu corpo

Vai ter gente enlouquecida
Querendo entender a tua dança
Querendo saber da tua vida.


Roberta Sá.


Ouça aqui.

Quando a gente ama.



"...Meu amor,a vida passa num instante
E um instante é muito pouco pra sonhar
Quando a gente ama,
Simplesmente ama
É impossível explicar
Quando a gente ama
Simplesmente ama!"


Oswaldo Montenegro

Ouvir aqui

Prever serviu pra eu enganar


"Se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar”

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Amigo, eu me desesperava

A palo seco

Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
- Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português:

- Tenho vinte e cinco anos de sonho e
De sangue e de América do Sul.
Por força deste destino,
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues.
Sei, que assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
E eu quero é que esse canto torto,
Feito faca, corte a carne de vocês.

(Belchior)

Ouçam aqui na voz de Belchior e aqui na voz dos Los Hermanos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Música


"Sem música, a vida seria um erro."
(Nietzsche)

Pequeno eucalipto - PARTE III (final)

de Vladimir Souza Carvalho



O sítio, no entanto, fez foi piorar. Se na casa ela passava o dia todo no grande jardim, aqui nem vinha dormir mais em casa. “Ora, amor, a frieza da noite. Olhe que estamos na época de São João. Vai lhe fazer mal. Você terá um resfriado, uma gripe qualquer, a lhe impedir de ficar com suas plantas”. Ela riu. O sereno far-lhe-ia bem. Não atendeu ao convite. Era agora um pequeno eucalipto. O tronco precisava do ar da noite para perfumar a casca, respondeu, abrindo os braços, ereta, em meio ao capim rasteiro, numa área espaçosa, um pouco distante da casa, próxima da cancela.
O marido insistiu. Eucalipto não dorme no interior de uma casa. Fica pregado no chão, os pés se transformando em raízes que se enfiariam pelo chão adentro, à procura do alimento devido. Não deixasse a lagarta de fogo comer suas folhas nem a coruja se abrigar em seus galhos. Foi a resposta. O marido desistiu dessa forma de levá-la para a casa. Foi dormir. Sua paciência tinha limites. Na hora em que o frio aumentasse, ela correria para dentro de casa. Era só esperar para ver. Depois, aquela mania pelo verde tinha um limite. Por sim ou por não, ele estava de cabeça cheia com tudo aquilo. “Então, boa noite, pequeno eucalipto, que eu vou dormir. Até manhã”.
De madrugada, foi acordado, aos poucos, pelo som animado de uma zabumba, o vozerio de pessoas ao longe, conversando alto, foguetes que pipocavam no ar. Ele continuou na cama. Na certa, estavam em busca de um mastro para os festejos juninos, como faziam anualmente na mesma data, com muita festa e garrafas de cachaça, segundo as boas tradições nordestinas. De repente, estremeceu. O pensamento fulminou sua mente. Levantou-se. De pijama mesmo correu para fora da casa. Do terreiro ainda pode ver a multidão se afastando com o pequeno eucalipto nas costas.

Pequeno eucalipto - PARTE II

de Vladimir Souza Carvalho




O marido aceitou o conselho. Trocou o apartamento por uma casa, jardim imenso, árvores copudas, muita sombra e muito verde, espaço como o quê para a esposa caminhar, explorar, viver, conhecer, um mundão pela frente, com a vantagem de poder ficar longe dos olhares dos condôminos de seu edifício. Chatos eles, chato o síndico, com sua conversa mansa, a tocar na sua ferida de forma tão crua, sem respeitar o problema que estava passando.
Ela viu a casa. Não caminhava. Bailava. De canteiro em canteiro, alisando a grama, beijando as folhas de onze horas, das dálias, dos crisântemos, das orquídeas, das damas-da-noite, dos véus-de-noiva. As mãos acariciando as papoulas, os cravos, os jasmins, as cabritas, os sorrisos, as gérberas, as tulipas. Aqui e ali um abraço demorado nas algarobas. O sorriso estampado no rosto. O marido quase chora de emoção. A felicidade da esposa lhe contagiava.
O jardim seria seu mundo, grande, verde, bonito, bem cultivado. Ele se sentiu recompensado pela mudança. O médico fora feliz na receita. Acertara em cheio.
Não demorou muito tempo se viu obrigado a voltar ao consultório. O problema não se resolvera. Ao contrário, inchara e estava maior. Agora era a mulher que não saía do jardim, esquecida da casa, das suas obrigações. Não visitava ninguém, não se interessava por nenhuma novidade, não comprava roupa de espécie alguma, o que fazia antes de tudo aquilo ter início. As plantas já têm sua roupa especial, dizia. Aliás, para bem da verdade, só entrava em casa para dormir, assim mesmo forçada pelo marido. De manhã cedo, antes do sol se pôr fora do ninho, já estava no jardim, a molhar os dedos com o orvalho que as folhas guardavam. Era o seu desjejum.
Novamente ele foi ao médico. Narrou o ocorrido. O médico anotando, terminando por lhe recomendar que passasse uma temporada em um sítio, numa chácara, mais espaço, mais verde, quem sabe se não é, enfim, o ambiente adequado para ela. Se a casa com grande jardim não resolveu, o sítio, em plena zona rural, vai ser a solução. O marido acreditou. E assim fez, de acordo com a recomendação médica. A mulher vibrou. Um quadrado de cem tarefas. A casa no alto, construção nova, larga, com muitos quartos e salas, terreiro oferecendo uma visão ampla da propriedade, pequeno curral de lado, muita árvore – barriguda, mariabranca, juremeira, muricizeiro, quarana, burra-da-mata, setecasco, ingá –, capim nativo para todo lado, misturado com mata rasteira (mimo-do-céu, bananeira brava, melanciade-praia, matapasto, juiz-de-paz, capeba) se espalhando por todos os lados. Uma plantação desativada de abóboras. Um gigantesco formigueiro que veneno nenhum acabava, conforme o corretor explicou. Era o único ponto negativo naquela área toda cercada. Um riacho passando perto da cerca, a água fria escorrendo lentamente. Orquídeas nativas se mantinham em pé em ramos que se arrastavam por longos metros. Que alegria, meu Deus! Se ela vibrou, ele nem se fala. Desta vez, chorou encostado ao mourão da cancela, feliz por vê-la sorridente por ter o sítio como nova morada. A felicidade era tão radiante que o otimismo explodiu. Pela primeira vez, ele admitiu a cura, com a fé em São Francisco de Assis. O sorriso no rosto da mulher assumia, sem que o marido percebesse bem, a forma de uma flor.

Pequeno eucalipto - PARTE I

de Vladimir Souza Carvalho


O marido a surpreendeu assim, deitada na grama em agradável contato com as plantas.
– Ora, amor, o almoço na mesa e você aí…
A espontaneidade da esposa o comoveu:
– Agora sou uma rosa branca. Ontem fui uma dália. Amanhã serei um girassol.
A surpresa poderia ter ficado aí, se o fato não tivesse se tornado repetitivo. Todo dia a mesma cena. A magnólia de hoje era uma margarida amanhã. O alimento era o sol que esquentava as pétalas. O seu mundo era o verde do jardim.
A visita do síndico no local de trabalho o deixou encabulado. A conversa calma, sem pressa. Os moradores desconfiados de alguma anormalidade. Os empregados do condomínio a reclamarem da presença permanente de sua esposa a machucar a grama. Depois, deitar-se na grama… Por ele, síndico, não. Achava até bonito a mulher deitada na grama, a conversar com as plantas. Mas os moradores estavam espantados e indignados. Uns riam, outros criticavam. Ele temia uma manifestação contrária à permanência de sua senhora no jardim. Daí fazer a visita para pedir o apoio, compreender a sua posição de síndico, responsável pela manutenção da ordem e tranquilidade do condomínio, tarefas que, contra a vontade, terminara por aceitar, contando-lhe a história da eleição, pormenor por pormenor.
O marido baixou a cabeça. Levaria a esposa ao médico. Aquilo podia ser um problema passageiro. A falta de filhos, talvez, ou talvez a morte do pai, em choque com um caminhão, o rosto recebendo o óleo quente do motor a lhe queimar a pele, a ponto do caixão permanecer fechado. Talvez, talvez. Não sabia. Desculpasse. Andava encabulado, sem fitar ninguém no condomínio, período que seria, podia confiar, passageiro. O médico, contudo, recomendou liberdade de ação.
Deixar que ela desse completa evasão aos seus desejos reprimidos. Algum trauma de infância, quem sabe, não vencido a tempo. Às vezes, um fato ligado ao sexo, ou relacionado a outra ocorrência que agora vem à tona na forma de um comportamento ativo ou passivo. Assim os entendidos pregavam. Dê-lhe apoio. Que não a criticasse. Que a deixasse fazer o que quisesse. Aquilo não seria eterno. Em lugar de reprimir, permitir. Encarar o fato com naturalidade. Recomendou uma casa com um grande jardim. Quem sabe se isso não a curaria?