sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Gênesis

Gênesis
Primeiro não havia nada
Nem gente, nem parafuso
O céu era então confuso
E não havia nada
Mas o espírito de tudo
Quando ainda não havia
Tomou forma de uma jia
Espírito de tudo

E dando o primeiro pulo
Tornou-se o verso e reverso
De tudo que é universo
Dando o primeiro pulo
Assim que passou a haver
Tudo quanto não havia
Tempo pedra peixe dia
Assim passou a haver

Dizem que existe uma tribo
De gente que sabe o modo
De ver esse fato todo
Diz que existe essa tribo
De gente que toma um vinho
Num determinado dia
E vê a cara da jia
Gente que toma um vinho

Dizem que existe essa gente
Dispersa entre os automóveis
Que torna os tempos imóveis
Diz que existe essa gente
Dizem que tudo é sagrado
Devem se adorar as jias
E as coisas que não são jias
Diz que tudo é sagrado

E não havia nada
Espírito de tudo
Dando o primeiro pulo
Assim passou a haver
Diz que existe essa tribo
Gente que toma um vinho
Diz que existe essa gente
Diz que tudo é sagrado

Caetano Veloso

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Felicidade

"És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste."
Cecília Meireles

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Tudo está em gostar da vida e saber viver...



"Trecho do documentário de Adilson Ruiz que realiza um trajeto poético por São Paulo, sob a perspectiva do olhar do escritor Mário de Andrade."

Ah!

Ah, se pelo menos o pensamento não sangrasse! Ah, se pelo menos o coração não tovesse memória! Como seria menos linda e mais suave a minha história!"
Cacasa

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Velhas árvores

(Olavo Bilac)

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...
O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,
Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Acordar

trecho do poema de Álvaro de Campos




Eu adoro todas as coisas 
 E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. 
 Tenho pela vida um interesse ávido 
 Que busca compreendê-la sentindo-a muito. 
 Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, 
 Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, 
 Para aumentar com isso a minha personalidade. 
 
 Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio 
 E a minha ambição era trazer o universo ao colo 
 Como uma criança a quem a ama beija. 
 Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras, 
 Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo 
 Do que as que vi ou verei. 
 Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações. 
 A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos. 
 Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Cecília Meireles



Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.


Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.


Cecília Meireles, Poesia Completa

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Faz quase tudo


"O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Faz quase tudo
Mas ele é mudo
O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda
Só eu posso pensar
Se Deus existe
Só eu
Só eu posso chorar
Quando estou triste
Só eu
Eu cá com meus botões
De carne e osso
Eu falo e ouço. Hum
Eu penso e posso
Eu posso decidir
Se vivo ou morro por que
Porque sou vivo
Vivo pra cachorro e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
No meu caminho inevitável para a morte
Porque sou vivo
Sou muito vivo e sei
Que a morte é nosso impulso primitivo e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus
Olhos de vidro"
Cérebro eletrônico, Gilberto Gil