sábado, 6 de novembro de 2010

O dia passou lentamente...


"O dia passou lentamente, seguido de uma noite de insônia e de um outro dia ainda mais longo. Esperava por alguém, mas ninguém chegou. Escureceu, caiu a noite. Uma chuva fria suspirava e arrulhava ao longo das paredes; o vento zumbia na chaminé, uma coisa qualquer agitava-se no chão. A água gotejava das beirais e as suas notas melancólicas acompanhavam estranhamente o tic-tac do relógio. Parecia que toda a casa vacilava debilmente, indiferente a tudo o que a cercava, entorpecida no abatimento..."

Trecho de A mãe de Máximo Gorki

É isto que sou: um cofre ...


"A história de Giuseppe Garibaldi está impressa na minha pele, como as digitais dos meus dedos. Ultimamente, nas noites de frio, quando ando pela casa escura e já deserta de todos, ouvindo o eco das minhas botinas neste chão de madeira tantas vezes encerado, é nele que penso, é ele que ocupa toda a minha alma como se eu não fosse mais do que um refúgio para as lembranças do que ele já fez, e é no calor da sua recordação que me aqueço. É isso que sou: um cofre, uma urna daqueles sonhos perdidos, do sonho de uma república e do sonho de um amor que se gastou no tempo e nas estradas desta vida, mas que ainda arde em mim, sob essa minha pele agora tão baça, com a mesma pulsação inquieta daqueles anos."

Techo de A casa das sete mulheres de Letícia Wierzchowski

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Racional


"Fosse eu ( que por acaso levo o nome

Da rara e prodigiosa espécie: o Homem)

Livre para escolher meu próprio curso,

A carne certa e o sangue natural

Queria ser Macaco, Cão ou Urso,

Tudo menos o fútil Animal,

Tão orgulhoso de ser Racional."


Lord Rochester (1647-1680)


Tradução de Augusto de Campos

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Açúcar



O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim.

Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale.

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.

Ferreira Gullar

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vejo


"Vejo vermelhos, verdes, blaus, brancos, cobaltos

Vergéis, plainos, planaltos, montes, vales;

A voz dos passarinhos voa e soa

Em doces notas, manhã, tarde, noite.

Então todo o meu ser quer que eu colora o canto

De uma flor cujo fruto é só de amor

O grão só de alegria"



Arnaut Daniel (1180 - 1210)

Eu sei


"Conheço bem senso e locura,

Conheço honra e desventura

Já senti pavor e bravura;

Mas se propõem jogo de amor

Não fico atrás

Escolho sempre o que é melhor

Do que me apraz


Conheço bem quem me quer bem

E sei quem me quer mal também,

Quem ri de mim, quem me convém,

E se de mim se achega alguém

Sei muito mais:

Como saber prezar a quem

Prazer lhe faz."


Trecho de Canção, Guillaume de Poictiers (1071-1127)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010


Traduzir-se

Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?



De Na Vertigem do Dia (1975-1980)

sábado, 30 de outubro de 2010

Lentidão das coisas etéreas


"Aqueles últimos meses se gastaram com a lentidão das coisas etéreas. Víamos a natureza abandonar as cores mortas do inverno, tingir-se solenemente de festa, até esmorecer suas flores sob o calor fustigante do sol de verão.
"


Trecho de A casa das sete mulheres de Letícia Wierzchowski

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Grão De Amor


Me deixe sim
Mas só se for
Pra ir ali
E pra voltar.

Me deixe sim
Meu grão de amor
Mas nunca deixe
De me amar

Agora as noites são tão longas
No escuro eu penso em te encontrar
Me deixe só
Até a hora de voltar

Me esqueça sim
Pra não sofrer
Pra não chorar
Pra não sentir

Me esqueça sim
Que eu quero ver
Você tentar
Sem conseguir

A cama agora está tão fria
Ainda sinto o seu calor
Me esqueça sim
Mas nunca esqueça o meu amor

É só você que vem
No meu cantar meu bem
É só pensar que vem
Lá ra ra ra

Me cobre mil telefonemas
Depois me cubra de paixão
Me pegue bem
Misture alma e coração


Composição: Marisa Monte/Carlinhos Brown/Arnaldo Antunes

Para quem quiser conferir na voz dos Tribalistas!
http://www.youtube.com/watch?v=L30T0ExD-As




E não havia mais nada



" Não acendeu o fogo, não fez o jantar, não bebeu chá; tarde da noite comeu apenas um pedaço de pão. E ao deitar-se disse para consigo que nunca na vida se sentira tão só, tão nua. Nos últimos anos, habituara-se a viver na espera constante de algo importante, feliz. Em volta dela, os jovens agitavam-se, barulhentos e cheios de animação e ela tinha sempre diante dos olhos o rosto sério do filho, o fomentador dessa vida inquieta, mas boa. E eis que ele não estava mais ali e não havia mais nada."




Trecho de A mãe de Máximo Gorki