quarta-feira, 14 de julho de 2010

Céu de Santo Amaro


"Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu
Com ela veio a paz, toda a beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você

Meu amor
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu
Então
Veio a certeza de amar você"

Céu de Santo Amaro, Caetano Veloso

terça-feira, 13 de julho de 2010

Liberdade?




Basta


"Para meu coração basta teu peito
para tua liberdade bastam minhas asas.
Desde minha boca chegará até o céu
o que estava dormindo sobre tua alma.

E em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o sereno às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que cantavas no vento
como os pinheiros e como os hastes.
Como eles és alta e taciturna.
e entristeces prontamente, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Te povoa ecos e vozes nostálgicas.
eu despertei e as vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma"

Pablo Neruda


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Benditas


"Benditas as coisas que não sei
os lugares onde não fui
os gostos que não provei
meus verdes ainda não maduros
os espaços que ainda procuro
nos amores que nunca encontrei
benditas as coisas que não sejam benditas

a vida é curta mas enquanto durar
posso durante um minuto ou mais
te beijar pra sempre
o amor não mente,
não mente jamais
e desconhece
no relógio o velho futuro
o tempo escorre num piscar de olhos
e dura muito além
dos nossos sonhos mais puros

bom é não saber
o quanto a vida dura
ou se estarei aqui
na primavera futura
posso brincar de eternidade agora
sem culpa/nenhuma

benditas coisas que não sei
os lugares onde não fui
os gostos que não provei
meus verdes ainda não maduros
os espaços que ainda procuro
nos amores que nunca encontrei
benditas coisas que não sejam benditas"

Benditas,
Mart`nália e Zélia Duncan

domingo, 11 de julho de 2010

Loucura diferente: ESCREVER!


"A obra de arte é um ato de loucura do criador. Só que germina como não-loucura e abre caminho. É, no entanto, inútil planejar essa loucura para chegar à visão do mundo. A pré-visão desperta do sono lento da maioria dos que dormem ou da confusão dos que adivinham que alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer. A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos, enquanto os criadores se realizam com o próprio ato de loucura."
Clarice Lispector

Vamos ser loucos! loucos criadores, escritores! aqueles que escrevem não a partir da realidade, mas que criam a partir do sonho, da imaginação e da percepção!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Limites


"Mas estou tão pouco preparada para entender. Antes, sempre que eu havia tentado, meus limites me davam uma sensação física de incômodo, em mim qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa."
A paixão segundo G.H. , Clarice Lispector

"E quando acaricio a cabeça do meu cão, sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique." (CL)

Quando morou em Nápoles, Clarice Lispector adotou o cachorro Dilermando, encontrado na rua.
“Quanto a mim, foi só olhar que logo me apaixonei pela cara dele. (...) Apesar de ser italiano, tinha cara de brasileiro e cara de quem se chama Dilermando. (...) levei Dilermando para casa. Logo dei comida a ele. Ele parecia tão feliz por eu ser dona dele que passou o dia inteiro olhando para mim e abanando o rabo.(...) Dilermando gostava tanto de mim que quase endoidecia quando sentia pelo faro o meu cheiro de mulher-mãe e o cheiro do perfume que uso sempre.(...)Quando eu estava escrevendo à máquina, ele ficava meio deitado ao meu lado, exatamente como a figura da esfinge, dormitando. Se eu parava de bater por ter encontrado um obstáculo e ficava muito desanimada, ele imediatamente abria os olhos, levantava alto a cabeça, olhava-me, com uma das orelhas de pé, esperando. Quando eu resolvia o problema e continuava a escrever, ele se acomodava de novo na sua sonolência povoada de sonhos — porque cachorro sonha, eu vi. Nenhum ser humano me deu jamais a sensação de ser tão totalmente amada como fui amada sem restrições por esse cão.”
Às irmãs Elisa e Tânia, Clarice escreveu: “Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão, ver e sentir a matéria de que é feito um cão. É a coisa mais doce que eu já vi, e é de uma paciência para com a natureza impotente dele e para com a natureza incompreensível dos outros... E com os pequenos meios que ele tem, com uma burrice cheia de doçura, ele arranja um modo de compreender a gente de um modo direto. Sobretudo Dilermando, era uma coisa minha e eu não tinha que repartir com ninguém”.
Quando se mudou para a Suíça, Clarice teve de deixar Dilermando. Para tentar expiar a culpa, escreveu o conto O Crime, publicado em 1946 em um jornal do Rio de Janeiro e ampliado e rebatizado, posteriormente, de O Crime do Professor de Matemática, sendo ele o mais antigo dos contos publicados no livro Laços de Família.

Trecho do conto O Crime do Professor de Matemática:

“'Às vezes, tocado pela tua acuidade, eu conseguia ver em ti a tua própria angústia. Não a angústia de ser cão que era a tua única forma possível. Mas a angústia de existir de um modo tão perfeito que se tornava uma alegria insuportável: davas então um pulo e vinhas lamber meu rosto com amor inteiramente dado e certo perigo de ódio como se fosse eu quem, pela amizade, te houvesse revelado. Agora estou bem certo de que não fui eu quem teve um cão. Foste tu que tiveste uma pessoa. Mas possuíste uma pessoa tão poderosa que podia escolher: e então te abandonou. (...) Mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a possibilidade constante de eu pecar o que, no disfarçado de meus olhos, já era pecado. Então pequei logo para ser logo culpado. E este crime substitui o crime maior que eu não teria coragem de cometer.' pensou o homem cada vez mais lúcido (...) 'Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão.', pensou o homem. (...) 'Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.'(...)
Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições."

Clarice no deserto.




"A leitura de Clarice é devassadora – e não é por outro motivo que muitos falam em bruxaria, ou possessão. É uma leitura que atormenta, porque pega o leitor ali onde ele se encontra mais frágil: em sua fé desamparada naquilo que lê.

Parece inevitável, embora seja um grande engano, pensar em narradores mais intimistas quando se fala da influência de Clarice. Será mesmo Clarice uma escritora intimista? Em A hora da estrela ela se desdobra em um “escritor”, Rodrigo S. M., para discutir sua posição, suas dúvidas, suas inquietações em relação à literatura. Mas isso é bem diferente de falar de si, ou de se confessar. O problema é que Clarice, para escrever, ela se colocava à borda de um abismo: desde esse extremo, ela divisa um mundo que se abre, diante dela, como um grande enigma.

Não há intimismo nisso - há, muito mais, um sair de si. Ainda que ela se visse sempre (e essa é sua danação de escritora) presa a si e às próprias palavras. Seu estilo é arrebentar com a marca dos estilos; sua marca, se é que podemos falar de uma (como nas confecções e nos carimbos), está na explosão da própria marca.

Clarice escrevia para ultrapassar as fronteiras do literário; escrevia, como ela mesma dizia, “por necessidade atroz”, e não porque desejasse seguir uma carreira, ou se consagrar. Sendo assim, seus descendentes, se é que eles existem, deveriam ser escritores capazes de dar o mesmo salto no escuro. De se lançar no abismo da escrita, dispostos não a fazer isso ou aquilo, não a cumprir tarefas, ou a seguir roteiros de consagração, ou mesmo a imitá-la. Mas, ao contrário, a se desprender de si mesmos e se libertar do que são.

[...] Clarice é uma escritora que nos leva para o deserto. Como o filósofo Jean-Jacques Rousseau em suas célebres Meditações de um caminhante solitário, ela poderia dizer: “Eis-me aqui pois, sozinho na terra, sem nenhum irmão, companheiro, amigo ou companhia além de eu mesmo”. E ainda, imitando Rousseau, se perguntar: “Mas eu, desligado de todos eles, quem sou eu?” Clarice Lispector, quem sabe, é só um personagem criado por Clarice Lispector. Uma hipótese assustadora, que exacerba mais ainda sua solidão."

Trecho do ensaio Clarice no deserto, de José Castello.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Livros...


"Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."

Trecho do conto "Felicidade Clandestina" de Clarice Lispector



É assim que me sinto quando pego um livro pra ler...extasiada!

(Vale a pena ler esse conto da Clarice! é um dos que eu mais gosto!)






Pinturas de Clarice... Não sabia, mas Clarice também pintava!

Tentativa de ser alegre, 1975


Sem título - 1975


Medo - 1975



Explosão - 1975




Luta Sangrenta pela Paz - 1975




"O que me descontrai, por incrível que pareça, é pintar. Sem ser pintora de forma alguma, e sem aprender nenhuma técnica. Pinto tão mal que dá gosto e não mostro meus, entre aspas, quadros, a ninguém. É relaxante e ao mesmo tempo excitante mexer com cores e formas sem compromisso com coisa alguma. É a coisa mais pura que faço (...) Acho que o processo criador de um pintor e do escritor são da mesma fonte. O texto deve se exprimir através de imagens e as imagens são feitas de luz, cores, figuras, perspectivas, volumes, sensações." - Clarice Lispector.