sexta-feira, 9 de julho de 2010
Clarice no deserto.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Livros...

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."
Trecho do conto "Felicidade Clandestina" de Clarice Lispector
É assim que me sinto quando pego um livro pra ler...extasiada!
(Vale a pena ler esse conto da Clarice! é um dos que eu mais gosto!)
Pinturas de Clarice... Não sabia, mas Clarice também pintava!
Luta Sangrenta pela Paz - 1975A mulher e a casa
Tua sedução é menosde mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.
Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,
uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.
Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;
pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;
pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,
os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,
exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.
João Cabral de Melo Neto
Coragem

A paixão segundo G.H., Clarice Lispector
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Lânguida face

Gastar das horas pra te ver dormir
Enquanto o mundo roda em vão
Eu tomo o tempo
O velho gasta solidão
Em meio aos pombos na Praça da Sé
O pôr do Sol invade o chão do apartamento
Vermelhos são seus beijos
Que meigos são seus olhos
Ver que tudo pode retroceder
Que aquele velho pode ser eu
No fundo da alma há solidão
E um frio que suplica um aconchego
Vermelhos são seus beijos
Quase que me queimam
Que meigo são seus olhos
Lânguida face
Seus beijos são vermelhos
Quase que me queimam
Que meigos são seus olhos
Lânguida face
Ver que tudo pode retroceder
Que aquele velho pode ser eu
No fundo da alma há solidão
E um frio que suplica um aconchego
Vermelhos são seus beijos
Quase que me queimam
Que meigos são seus olhos
Lânguida face
Seus beijos são vermelhos
Quase que me queimam
Que meigos são seus olhos
Lânguida face
Segundo Clarice...
"A palavra é o dejeto do pensamento. Cintila.
Cada livro é sangue, é pus, é excremento, é coração retalhado, é nervos fragmentados, é choque elétrico, é sangue coagulado escorrendo como lava fervendo pela montanha abaixo."
Trecho do livro Um sopro de vida de Clarice Lispector
Assim...
Para Clarice a palavra culmina do pensamento. Cada livro é sangue, que jorra; é pus, que se expele; é excremento, aquilo que é transformado e expelido da mente; é resultado de dor e sofrimento e, por vezes, gerador de dor e sofrimento; dispende trabalho e é expressão do pensamento fragmentado em palavras, frases, orações e períodos; é intenso e reaviva; é pensamento que vem lá do fundo e escorre por palavras para o papel...
http://www.youtube.com/watch?v=Ko9Wkjv6HTI&feature=related
terça-feira, 6 de julho de 2010
Bem além da realidade...

"Só me interessa escrever quando eu me surpreendo com o que escrevo. Eu prescindo da realidade porque posso ter tudo através do pensamento.
A realidade não me surpreende. Mas não é verdade: de repente tenho uma tal fome da 'coisa acontecer mesmo'que mordo num grito a realidade com os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego em viver da imaginação."
Trecho do livro: Um sopro de vida de Clarice Lispector
Só






