sexta-feira, 19 de julho de 2013
quarta-feira, 17 de julho de 2013
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Dois irmãos
Por volta de 1914, Galib inaugurou o restaurante Biblos no térreo da casa. O almoço era servido às onze, comida simples, mas com sabor raro. Ele mesmo, o viúvo Galib, cozinhava, ajudava a servir e cultivava a horta, cobrindo-a com um véu de tule para evitar o sol abrasador. No Mercado Municipal, escolhia uma pescada, um tucunaré ou um matrinxã, recheava-o com farofa e azeitonas, assava-o no forno de lenha e servia-o com molho de gergelim. Entrava na sala do restaurante com a bandeja equilibrada na palma da mão esquerda; a outra mão enlaçava a cintura de sua filha Zana. Iam de mesa em mesa e Zana oferecia guaraná, água gasosa, vinho. O pai conversava em português com os clientes do restaurante: mascateiros, comandantes de embarcação, regatões, trabalhadores do Manaus Harbour. Desde a inauguração, o Biblos foi um ponto de encontro de imigrantes libaneses, sírios e judeus marroquinos que moravam na praça Nossa Senhora dos Remédios e nos quarteirões que a rodeavam. Falavam português misturado com árabe, francês e espanhol, e dessa algaravia surgiam histórias que se cruzavam, vidas em trânsito, um vaivém de vozes que contavam um pouco de tudo: um naufrágio, a febre negra num povoado do rio Purus, uma trapaça, um incesto, lembranças remotas e o mais recente: uma dor ainda viva, uma paixão ainda acesa, a perda coberta de luto, a esperança de que os caloteiros saldassem as dívidas. Comiam, bebiam, fumavam, e as vozes prolongavam o ritual, adiando a sesta.
Trecho da obra Dois irmãos, de Milton Hatoum.
terça-feira, 25 de junho de 2013
Para saber mais sobre Florbela Espanca: <http://revistacult.uol.com.br/home/2010/12/florbela-espanca-um-amar-perdidamente/>
terça-feira, 18 de junho de 2013
O Casamento
“— O casamento embucetou! —
Anuncia Maria Petisco, saltando do táxi na porta de entrada da casa
de Almério. Deixara Tereza nos braços de mestre Gereba. Não tinha
naufragado, não estava morto? Que morto nem meio morto, vivo e bem
vivo, um pedaço de homem de se lamber os beiços, rolete de cana
caiana, Tereza mais sortuda. Quando o Balboa naufragara, fazia mais
de três meses que ele e Toquinho, outro baiano, haviam desengajado,
iniciando a volta para casa. Na maciota, vendo mundo. Acabara de
chegar e o compadre Caetano Gunzá lhe contara os acontecidos todos.
O amigo Almério desculpasse mas o casamento parecia bastante
comprometido.
No primeiro momento, Almério
sofreu séria decepção, profundo abalo, não há como esconder;
afinal, com papéis prontos e festa paga, não era para menos. Mas a
curiosidade de velho leitor de folhetins, de ouvinte fanático de
novelas de rádio, habituado a encarnar-se nos melodramáticos
heróis, superou o desaponto, e ele pediu detalhes. Acreditem: em
menos de meia hora já se entusiasmava com o relato. Maria Petisco se
adiantara para dar a notícia aos convidados, chegando quase junto
com o juiz e o padre. O magistrado logo se retirou; dom Timóteo,
porém, permaneceu à espera de Almério, talvez o pobre necessitasse
de consolo.
— E o que se vai fazer com tanto
manjar? — Quis saber o velho Miguel Santana, que almoçara leve
reservando espaço e apetite para a comilança.
— Ai, meu Deus, a festa não vai
mais haver! — Gemeu a negra Domingas, preparada para sambar a noite
inteira.
Na sala ia entrando Almério das
Neves acompanhado de Anália, ouviu a queixa, abanou os braços, não
lhe cabia culpa. Meu povo, disse ele, o casamento deu com os burros
n’água. Para mim foi triste mas para Tereza foi alegre. O noivo
que ela pensou que estava morto chegou do mar a tempo. Pior seria se
chegasse depois. Aí, sim, de qualquer jeito era ruim. Encarnava o
apaixonado generoso, capaz de sacrificar-se sem um lamento pela
felicidade da bem-amada e do rival afortunado.
— Já que é assim, vamos
festejar — Propôs Caymmi, homem de bom conselho.
Almério olhou a sala cheia, gente
sobrando pelos corredores, as mesas postas, grandiosas, as garrafas
no gelo e o jazz-band. Um sorriso lhe nasceu nos lábios, expulsando
da face plácida do ex-noivo a última sombra de desaponto. Heróico
e abnegado, elevou a voz para ser ouvido por todos os presentes, a
Bahia inteira:
— Não há o casamento mas nem
por isso a festa deixa de se realizar. Vamos estourar a champanha do
doutor Nelson!
— Isso, sim, que é falar
direito. — Aprovou Miguel Santana dirigindo-se para a sala de
jantar.
A festa do casamento de Tereza
Batista, apesar do casamento não ter acontecido, atravessou a noite,
animadíssima. Comeram quanto havia, beberam a bebida toda, regabofe
como hoje só na Bahia ainda se faz e olhe lá! A não ser para beber
um copo de cerveja e beliscar de cada prato um pouco, o jazz não
parou de tocar e a dança terminou na rua, de manhã, atrás do Trio
Elétrico. No meio da noite, Almério um tanto alto, e Anália —
essa não nasceu para mulher-dama — fizeram-se par constante e ela
lhe confessou ser doida por criança. Ora, já se viu, até parece
coisa de romance!
Vela enfunada, o saveiro corta o
mar da Bahia. A brisa sopra, noite alta, leve sobre o golfo. Tereza
Batista, respingada de água, sabendo a sal, odor de maresia, os
negros cabelos soltos ao vento, ressuscitada, aleluia! Achega-se ao
peito de Januário Gereba. Ao leme, mestre Janu pesa as qualidades da
embarcação à venda: se for boa de travessia, compro e pago à
vista, compadre Gunzá pôs meu dinheiro no Banco a render juros,
compadre mais porreta. Que nome vamos lhe dar, me diga? Antes de
escolher o nome do saveiro, Tereza fala:
— Sabe que eu matei um homem? Era
ruim demais, só merecia a morte mas até hoje carrego ele nas
costas.
Januário guarda o cachimbo de
barro:
— Oxente, vamos descarregar ele
aqui mesmo, de uma vez para sempre. Era ruim, vai com os cações,
raça de peixe desgraçada. Assim, tu fica livre dele.
Sorri na noite escura, em seu
sorriso o sol renasce. Um já se foi, porém tem mais, Janu.
— Um homem morreu dentro de mim,
na hora mesmo. Não sei se para os outros ele foi bom ou mau, para
mim o melhor homem do mundo, marido e pai. Levo a morte dele nas
entranhas.
— Se morreu naquela hora, então
está no paraíso, foi direto. Quem morre assim é protegido de Deus.
Largue o corpo do justo com as arraias, se livre da morte dele, mas
guarde tudo de bom que ele lhe deu.
O mar se abriu e se fechou, Tereza
suspira aliviada. Gereba pergunta:
— Tem mais algum? Se tem, a gente
aproveita e joga no mar. Por aqui perto descarreguei a minha
falecida.
Tereza lembrou-se daquele que não
chegara a ser, arrancado de seu ventre antes da hora do nascimento.
Pôs a mão sobre a de mestre Januário Gereba, Janu do bem-querer,
fazendo-o mover o leme, mudar o rumo do saveiro, dirigindo-o para
pequena enseada entre bambus na margem do golfo, escondido remanso.
Estendese Tereza na popa do saveiro:
— Venha e me faça um filho,
Janu.
— Sou bom nisso como quê.
Ali, na barra
da manhã, rio e mar.”
TEREZA
BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE
AMADO
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Chorando, atira-se nos braços de Januário Gereba
“Em casa
de dona Fina, Maria Petisco e Anália ajudam Tereza Batista a se vestir e
enfeitar. Noiva mais jururu onde se viu? Prepara-se para a festa do matrimônio
ou para o velório do próprio enterro?
Anália
reclama com a amiga que não sabe dar valor à sorte. Ai, quem me dera, fosse eu
a felizarda! Ando farta dessa vida de rameira, de cama em cama, de mão em mão,
vendendo o corpo, gastando amor com xodós de pouca duração. Não viu Kalil? Tão bom
moço mas a largou para casar com uma prima, o sem vergonha. Anália não o culpa,
para casar também ela romperia o rabicho inconsequente. Ah! quem me dera lar e
filho, marido para mim somente e eu somente para ele. Ai, Tereza, estivesse eu
em teu lugar, estaria rindo pelos cotovelos, rindo pelos cantos, pelos dentes todos,
rindo à toa. Maria Petisco concorda em parte. Para ela, ser fiel a homem não é
fácil, sobretudo com os encantados descendo nas camas sem perguntar o nome do
dono do colchão, do travesseiro e da adormecida criatura.
Tereza
vestida e penteada, Maria Petisco coloca-lhe ao pescoço um colar de Yansã,
deslumbrante e encantado, símbolo da vitória na guerra contra os mortos,
presente de Valdeloir Rego, joalheiro dos orixás, lavado por mãe Senhora no
peji. Anália a conduz defronte ao espelho para ela se mirar, formosa porém
triste.
Enquanto
as amigas se arrumam, Tereza vê-se refletida no aço do espelho pelo direito e
pelo avesso. Vibrantes contas de triunfo, roxo colar de sangue, posto em ombro
impróprio de quem foi derrotada e se acabou. Velha, cansada de guerra, morta
por dentro.
Recorda
acontecimentos e pessoas, fatos distantes, gente desaparecida. O doutor, o
capitão, Lulu Santos, o menino arrancado de seu ventre, assassinado antes de
ser. Os tempos de cadeia, os tempos de bordel, a época de Estância, lugares por
onde andou, o ruim e o bom, a taca de couro e a rosa. Quantos anos completara há
poucos meses no xadrez, presa e surrada pela polícia de costumes da Bahia?
Vinte e seis? Não pode ser. Quem sabe, cento e vinte e seis, mil e vinte e seis
ou ainda mais? Na hora da morte não se conta idade.
Barulho
na porta, ruído de discussão, a voz de dona Fina contraditando alguém, a
resposta e o riso. Tereza estremece, palpita-lhe incontido o coração, de quem
essa voz inesquecível, esse acento de marulho e búzio?
— Vai
casar? Pode ser, mas só se for comigo.
Levanta-se
trêmula, não acredita nos próprios ouvidos, sai passo a passo pelo corredor,
olha a medo. Na porta da rua, disposto a entrar de qualquer maneira, gigante,
pássaro, vivo, inteiro, lá está ele. Então Tereza Batista abre-se em pranto, em
choro convulso. Chorando, atira-se nos braços de Januário Gereba.”
TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Tereza Batista se parece com o povo!
“Com quem se parece Tereza Batista, tão castigada pela vida, tão
cansada de apanhar e de sofrer e, ainda assim, de pé, com todo o peso da morte
no lombo, porfiando em arrancar da maldita uma criança para a vida? Pois eu lhe
digo com quem acho que ela se parece.
Sentada nesta varanda, vendo ao longe o mar do Rio Vermelho, olhando
as árvores, algumas centenárias, a maioria plantada por mim e pelos meus, com
essas minhas mãos que empunharam a carabina nas matas de Ferradas, nas lutas do
cacau, recordando João, meu finado, um homem alegre e bom, cercada pelos meus
três filhos, meus tesouros, e pelas três noras, minhas filhas e rivais, pelos
netos, netas e bisnetos, por meus parentes e aderentes, eu, Eulália Leal Amado,
Lalu na voz geral da benquerença, lhe digo, meu senhor, que Tereza Batista se parece
com o povo e com mais ninguém. Com o povo brasileiro, tão sofrido, nunca
derrotado. Quando o pensam morto, ele se levanta do caixão.”
TEREZA BATISTA CANSADA DE GUERRA
JORGE AMADO
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