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____________________¹Pare, viajante, debaixo de seus pés, jaz uma esposa amável.

Me deparei com as primeiras páginas deste livro, observando bem seu peso mediano em minhas mãos e me inquietava com uma pergunta incessante - o que fazia de Madame Bovary uma das mulheres mais memoráveis da literatura francesa, quiçá, mundial.
Confesso ainda que as linhas iniciais não me impressionaram muito, e só depois entendi que tudo era intensamente intencional. O tédio dos primeiros capítulos refletiam a alma insossa de Charles - homem insólito, o único a amar o ser ao invés do sentimento.
Mesmo com as minuciosas descrições, das quais não pude fixar muitas em minha mente, pude perceber a essência dos arredores de Rouen e de Younville, e também das personagens, tão complexas e verdadeiramente humanas como podem ser.
Emma é, ainda, um capítulo a parte. Ela me usurpou os olhos e passei a enxergar o universo como Madame Bovary, e perceber que em cada mulher moram vestígios de Emma. Mulher falha, impulsiva, intensa, entrega-se pelo amor ao amor. Entedia-se com seus casos, ama-os profundamente, um verdadeiro poço de lascívia, uma inconstância verossímil. Falar de Emma é complexo. Faltam palavras, expressões, sobram lacunas. Idéias. Sugestões.
Difícil precisar o comportamento de Emma, que parece desenvolver tantos traços enquanto tenta escrever a própria história...
Incrível como parece tentar amadurecer o amor, a felicidade, e buscá-la em diferentes meios. Uma mulher que, bem antes do século XX, flerta, seduz e age muitas vezes com temperamentos masculinos. Com a exceção de uma peculiaridade: em perigo, mostra-se frágil, deseja proteção e jura paixões como uma heroína romântica.
Tal qual a mocinha, Bovary enche os olhares dos homens, seduzidos por sua tez pálida e jovial, desperta toda a sorte de sentimentos - um morre de amores; outros, de culpa; outros, deixam as juras de paixão morrer. Emma cai em perdição pela luxúria, pela ambição e termina como uma santa mulher. Assim mesmo, santa mulher. Em sua lápide, enaltecem sua candura de esposa amável, mas as memórias que restam são reais - de alguém que mentiu, omitiu, traiu, negou, se entregou e viveu, como uma verdadeira mulher.