quarta-feira, 3 de abril de 2013

Difícil é esquecer...



 "... Voltar para casa, é tudo quanto lhe resta fazer: tratar de esquecer, cobrir de cinza a brasa acesa, apagando-lhes as labaredas enquanto é tempo. Insensato coração! Exatamente quando ela se encontra em paz consigo mesma, tranquila e alheia, disposta a colocar a vida nos eixos, apta para fazê-lo pois nada a perturba, o indócil coração dispara apaixonado. Gostar é fácil, acontece quando menos se espera, um olhar, uma palavra, um gesto e o fogo lavra queimando peito e boca; difícil é esquecer, a saudade consome o vivente; amor não é espinho que se arranca, tumor que se rasga, é dor rebelde e pertinaz, matando por dentro..." 
Teresa Batista cansada de guerra de Jorge Amado

Adentrando o romance Teresa Batista cansada de Guerra


     "Já que pergunta com tanta delicadeza, eu lhe digo, seu moço: desgraça só carece começar. Começou não quem a segure, se alastra, se desenvolve, produto barato de vasto consumo. Alegria, ao contrário, meu liga, é planta sestrosa, de manhã difícil, de sombra pequena, de pouco durar, não se dando bem nem ao sol, nem à chuva, nem ao vento geral, exigindo trato diário e terreno adubado, nem seco nem húmido, cultivo caro, para gente rica, montada em dinheiro. Alegria se conserva em champanhe: cachaça só consola desgraça, quando consola. Desgraça é pé de pau resistente: muda enfiada no chão não demanda cuidado, cresce sozinha, frondosa, em todo caminho se encontra. Em terreno de pobre, compadre, desgraça dá de abastança, não se vê outra planta. Se o cujo não tem a pele curtida e o lombo calejado, calos por fora e por dentro, não adianta se pegar com os encantados, não há ebó que dê jeito. Lhe digo mais uma coisa, meu chapa, e não é para me gabar nem para louvar a força dos pés rapados, mas por ser a pura verdade: só mesmo o povo pobre possui raça e peito para arcar com tanta desgraça e seguir vivendo. Tendo dito e não sendo contestado, agora pergunto eu: que lhe interessa, seu mano, saber das mal-aventuras de Tereza Batista? Por acaso pode remediar acontecidos passados? 
    Tereza carregou fardo penoso, poucos machos aguentariam com o peso; ela aguentou e foi em frente, ninguém a viu se queixar, pedindo piedade; se houve quem – rara vez – a ajudasse, assim agiu por dever de amizade, jamais por frouxidão da moça atrevida; onde estivesse afugentava a tristeza. Da desgraça fez pouco caso, meu irmão, para Tereza só a alegria tinha valor. Quer saber se Tereza era de ferro, de aço blindado o coração? Pela cor formosa da pele, era de cobre, não de ferro; o coração de manteiga, melhor dizendo, de mel; o doutor, dono da usina – e quem melhor a conheceu? – dois nomes lhe oferecera, por nenhum outro a solicitando; Tereza Mel de Engenho e Tereza Favo de Mel., Foi toda a herança que lhe deixou. 
    Na vida de Tereza a desgraça floresceu cedo, seu mano, e eu queria saber quantas valentes resistiriam ao que ela passou e sobreviveu em casa do capitão.  
    Que capitão? Pois o capitão Justo, ou seja o finado Justiniano Duarte da Rosa. Capitão de que arma? As armas dele eram a taça de couro cru, o punha, a pistola alemã, a chicana, a ruindade; patente de rico, de dono de terra; não tão rico nem de tanta terra que desse para dragonas de coronel, embora bastante para não permanecer reles paisano, para por divisas no nome. Terras de coronel – léguas e léguas de campo, de verde canavial – possuía Emiliano, o mais velho dos Guedes, o dono da usina; no entanto doutor formado, com anel e canudo, se bem não exercesse, não queria outro título. São os tempos modernos, cunhado, mas não se apoquente: mudam os títulos – coronel é doutor, capataz é gerente, fazenda é empresa – o resto não muda, riqueza é riqueza, pobreza é pobreza, com fartum de desgraça. 
    Posso lhe afiançar, irmãozinho: para começo de vida o de Tereza Batista foi começo e tanto; as penas que em menina penou bem poucos no inferno penaram; órfã de pai e mãe, sozinha no mundo – sozinha contra Deus e o Diabo, dela nem mesmo Deus teve lástima. Pois a danada da menina assim sozinha atravessou o pior mau pedaço, o mais ruim dos ruins e saiu sã e salva do outro lado, um riso na boca. Um riso na boca em verdade não sei, digo de ouvir dizer. Se o prezado quiser devassar os particulares do caso, dos começos de Tereza Batista, embarque no trem da Leste Brasileira para as bandas do sertão, por lá sucedeu, quem assistiu que lhe conte com todos os ipicilones.
    Difícil para Tereza Batista foi aprender a chorar, pois nasceu para rir e alegre viver. Não quiseram deixar, mas ela teimou, teimosa que nem um jegue essa tal de Tereza Batista. Mal comparando, seu moço, pois de jegue não tinha nada afora da teimosia; nem mulher macho, nem paraíba, nem boca suja – ai, boca mais linda e perfumosa! – nem jararaca, nem desordeira, nem puxa-briga; se alguém assim lhe informou, ou quis lhe enganar ou não conheceu Tereza Batista. Tirana só em tratos de amor; como já disse e reafirmo, nasceu para amar e no amor era estrita. Por que então a chamaram de Tereza Boa de Briga? Pois, meu compadre, exactamente por ser boa de briga, igual a ela não houve em valentia e altivez, nem coração tão de mel. Tinha aversão a badernas, nuca promoveu arruaças, mas, de certo pelo sucedido em menina, não tolera ver homem bater em mulher."

Capítulo 1 da primeira parte de Teresa Batista cansada de guerra de Jorge Amado

segunda-feira, 18 de março de 2013

Vendaval

 Vendaval
"Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!

Indómita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só tem a tristeza que a gente lhes vê;
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.


Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles - teu pulso divida
Minh`alma do mundo"

Fernando Pessoa

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Não tem vaga e nem lugar

Além alma

Arnaldo Antunes / Paulo Leminski

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais me parece um relógio
que acaba de enlouquecer.

Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A idade de ser feliz


A Idade de Ser Feliz

(Mário Quintana)

Existe somente uma idade para a gente ser feliz.
Somente uma época na vida de cada pessoa
em que se pode sonhar e fazer planos,
e ter energia bastante para realizá-los,
a despeito de todas as dificuldade e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encontrar com a vida
e viver apaixonadamente,
com o entusiasmo dos amantes
e a coragem dos aventureiros.
Fase dourada em que se pode criar e recriar a vida
à imagem e semelhança
dos nossos desejos;
e sorrir e cantar, e brincar e dançar,
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e desfrutar de tudo com toda a intensidade,
sem preconceito nem pudor.
Tempo em que cada limitação humana
é só mais um convite ao crescimento;
um desafio a lutar com toda energia
e a tentar algo novo, de novo e de novo
e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão especial e tão única
chama-se presente...
E tem apenas a duração do instante que passa...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Coisa mais linda


Coisa Mais Linda

Caetano Veloso

Coisa mais bonita é você,
Assim,
Justinho você
Eu juro,eu não sei porque você
Você é mais bonita que a flor,
Quem dera,
A primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza que é o amor
Perfumando a natureza,
Numa forma de mulher
Porque tão linda assim não existe a flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe
Porque tão linda assim não existe
A flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor,
Nem mesmo o amor existe

sábado, 27 de outubro de 2012

XVII Encontro Clube do Livro – Cecília Meireles





TRAZE-ME um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
— vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no seu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
— vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saüdade da flor!
— Vê que nem te digo — esperança!
— Vê que nem sequer sonho — amor!

Murmúrio, Cecília Meireles

CANÇÃO



NUNCA eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na bôca,
e depois no teu ouvido.

Levou sòmente a palavra,
deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só si aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...

Cecília Meireles, Viagem

MOTIVO



EU CANTO porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gôzo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Si desmorono ou si edifico,
si permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei si fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles, Viagem

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

É outra coisa

"Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é trambém exato que perdeu muito espinho que a fez molesta,  e, da memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira”.
Dom Casmurro, Machado de Assis.