quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Corridinho

Adélia Prado


O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,

com seus olhos cediços,

põe caco de vidro no muro

para o amor desistir.

O amor usa o correio,

o correio trapaceia,

a carta não chega,

o amor fica sem saber se é ou não é.

O amor pega o cavalo,

desembarca do trem,

chega na porta cansado

de tanto caminhar a pé.

Fala a palavra açucena,

pede água, bebe café,

dorme na sua presença,

chupa bala de hortelã.

Tudo manha, truque, engenho:

é descuidar, o amor te pega,

te come, te molha todo.

Mas água o amor não é.

Eu sei, mas não devia...

Marina Colasanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Nosso mundo


"Há aqueles que não podem imaginar um mundo sem pássaros;
há aqueles que não podem imaginar um mundo sem água;
ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.”

Jorge Luis Borges .

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Flor da pele



Ando tão à flor da pele
Qualquer beijo de novela
Me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar "flor na janela"
Me faz morrer
Ando tão à flor da pele
Meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele
Tem o fogo
Do juízo final...(2x)
Barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Bicho solto
Um cão sem dono
Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicido!
(Zeca Baleiro)

Pouca claridade

Não falta por aí, nunca faltou, quem afirme que os poetas, verdadeiramente, não são indispensáveis, e eu pergunto o que seria de todos nós se não viesse a poesia ajudar-nos a compreender quão pouca claridade tem as coisas a que chamamos claras.

José Saramago

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cravado na areia

Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. [...] Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com olhos postos no mar. [...] Uma coisa me certificava: pouco a pouco eu me amarrava à presença daquela mulher. Nunca eu tinha tocado em mulher de amar. As autênticas, reais mulheres me temorizavam. Ao invés, Farida era quase irreal, ela se sonhava e eu me deliciava naquele fingimento que punha nela. Mas quanto mais me ardia em paixão mais eu sentia que me devia ir embora. Minha missão era outra. [...] Farida me roubava coragem do caminho, me roubava força de decidir. Cada dia que passava, meu coração semelhava mais e mais aquele barco. Eu estava parado naquela mulher, como os ferros preguicentos do barco estavam cravados no banco de areia. Não podia adiar mais, se quisesse ser dono de mim. Deveria partir, imediatamente.

Trecho de Terra Sonâmbula, de Mia Couto.

Febre de sentir


"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto {…} De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo…Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter…”

O Livro do Desassossego, Fernando Pessoa .

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pet Sematary

Under the arc of a weather stain boards
Ancient goblins, and warlords
Come out of the ground, not making a sound
The smell of death is all around
And the night when the cold wind blows, no one cares, nobody knows

(2x)
I don't want to be buried in a Pet Sematary
I don't want to live my life again

Follow Victor to the sacred place
This ain't a dream, I can't escape
Molars and fangs, the clicking of bones
Spirits moaning among the tombstones
And the night, when the moon is bright
Someone cries, something ain't right

(2x)
I don't want to be buried in a Pet Sematary
I don't want to live my life again

The moon is full, the air is still
All of a sudden I feel a chill
Victor is grinning, flesh rotting away
Skeletons dance, I curse this day
And the night when the wolves cry out
Listen close and you can hear me shout

(2x)
I don't want to be buried in a Pet Sematary
I don't want to live my life again

RAMONES

Veja tradução aqui.

Por um sorriso



Hoje eu quero te ver sorrir
Como quem
Quem descobre, enfim, a alegria
Olha o sol trazendo a manhã
Luz e cor
Pois é pra você que nasce o dia
Todo amor é urgência e esperança
E suspeita sempre da razão
Desejar o sim ou mesmo ser o não
Toma a minha mão
Levanta o rosto e assim
Eu sei, você vai ter
Um sorriso pra mim
Quando essa canção
Chegar ao fim
Brisa benfazeja
Beija o meu amor
Para sempre seja
Claro onde ela for

Composição: João Bosco & Abel Silva
Indicação do amigo e leitor das Literatas, Cid!

um coração maior que eu para doar


Tenho as mãos atadas ao redor do meu pescoço
,
Eu queria mesmo era tocar seu corpo...
Reprimo meus momentos,
Jogo fora os sentimentos, e depois?
Depois toco meu corpo, eu tenho frio...
Sou um louco amargurado e até vazio...
E me chamam atenção,
Mas eu sou louco é de paixão, e você?
Você que me retire desse poço!
Eu sei, ainda sou moço pra viver...
E te ver assim tão crua...
A verdade é toda nua
E ninguém vê!

Eu tenho as mãos atadas sem ação
E um coração maior que eu para doar!
Reprimo meus momentos,
Jogo fora os sentimentos sem querer...
Eu quero é me livrar!
Voar!
Sumir!
Perder não sei, não sei querer!
A qualquer hora é sempre agora, chora!
Quero cantar você!
Vou fazer uma canção, liberte o meu pensar!
Aperte os cintos pra pousar!
Agora é hora de dizer muito prazer,
sorte ou
azar...
e amar você!

Simplesmente amar você!



Mãos atadas, da Zélia Duncan.
(Gravada na voz da Zélia e do Frejat.)