sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Viajar


"já vou...será?

eu quero ver, o mundo eu sei não é esse lá.

por onde andar?

eu começo por onde a estrada va

i e não culpo a cidade, o pai.

vou lá andar.

e o que eu vou ver? eu sei lá.
não faz disso esse drama, essa dor!

É que a sorte é preciso tirar pra ter.

perigo é eu me esconder (em você).

e quando eu vou voltar? ah, quem vai saber...

se alguém numa curva me convidar

eu vou lá que andar é reconhecer, olhar.
eu preciso andar um caminho só

vou buscar alguém que eu nem sei quem sou.
eu escrevo e te conto o que eu vi

e me mostro de lá pra você.

guarde um sonho bom pra mim"


Primeiro Andar, Los Hermanos

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Vida


"Depois chegara à conclusão de que ela não tinha um dia a dia mas sim uma vida a vida. E aquela vida que era nas suas madrugadas era sobrenatural"


Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Por que você não vem morar comigo?

Por que você não vem morar comigo?
Alimentar meu cão, meu ego
Cansei de ser assim, colega
Não sei mais ser só seu amigo

Eu quero agora ser o seu amado
Você me deixa a perigo
O amor me corta feito adaga
Mas vem você e afaga
Com afeto tão antigo

Você não leva a sério o que eu digo
E enche a taça que me embriaga
Me prega em cruz feito jesus de praga
Mas sempre me defende e compra minhas brigas

Não ligo
Se é amor ou amizade vaga
Dizem que o amor a amizade estraga
E esta a este tira-lhe o vigor

Não ligo
Se é caretice ou romantismo brega
Um dia em mim essa aflição sossega
More comigo e traga o seu amor

Adoro o jeito que você me pega
Me chama de meu nego, minha nega
E quando me abraça e eu me entrego
Vem você e diz cuidado com esse apego

Amigos falam que esse mico eu pago
Pois mudo logo quando você chega
E acende a luz, mas essa luz me cega
E abre em rosa a pedra que no peito trago
(Chico César)
Ouçam aqui!

Apesar de


" uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio pesar que nos empurra pra frente."


Uma aprendizagem ou o livro dos pazeres, Clarice Lispector

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Você fendeu minha alma ...

"Não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar com você pelos meios de que disponho neste momento. Você fendeu minha alma. Sou metade agonia, metade esperança. Não me diga que é tarde demais, que sentimentos tão preciosos foram-se para sempre. Ofereço-me para você de novo com um coração muito mais seu do que quando você quase o despedaçou há oito anos e meio atrás. Não se atreva a dizer que o homem esquece mais rápido do que a mulher, que seu amor morre mais cedo. Eu tenho amado somente você, mais ninguém. "
-
Trecho de Persuasão, de Jane Austen.

Tempero Zen


No íntimo sinto que todo mundo se sente um tanto único.
Sinto que não há qualquer tempero zen que apague essa impressão.
Sem revelar sua emoção, quer se manter no vale mais profundo.
Tentar fazer brilhar nos escuros recantos do seu coração.
Quem não sonha em se ver compreendido e perdoado?
Ver seus erros e tropeços como equívoco explicados?

Paralamas do Sucesso, do álbum "Brasil Afora"

Não passo de um malandro


"Vou mostrando como sou e vou sendo como posso.

Jogando meu corpo no mundo,andando por todos os cantos

e pela lei natural dos encontros,

eu deixo e recebo um tanto.

E passo aos olhos nus ou vestidos de lunetas.

Passado, presente, participo sendo o mistério do planeta.

O tríplice mistério do stop,

que eu passo por e sendo ele no que fica em cada um.

No que sigo o meu caminho e no ar que fez e assistiu.

Abra um parênteses, não esqueça que independente disso

eu não passo de um malandro.

De um moleque do Brasil, que peço e dou esmolas.

Mas ando e penso sempre com mais de um,

por isso ninguém vê minha sacola. "


Mistério do Planeta, Os Novos Baianos

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Despreocupa-se e pensa no essencial

Gerânio

Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente

Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda

Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes

Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga

Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema

Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda
Estou com saudades e penso tanto em você

Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda

(Nando Reis, Marisa Monte, Jennifer Gomes)

Ouçam aqui!

Beleza Pura


"Não me amarra dinheiro não

Mas formosura

Dinheiro não

A pele escura

Dinheiro não

A carne dura

Dinheiro não

Moça preta do Curuzu

Beleza pura

Federação

Beleza pura

Boca do Rio

Beleza pura

Dinheiro não

Quando essa preta começa a tratar do cabelo

É de se olhar

Toda a trama da trança

A transa do cabelo

Conchas do mar

Ela manda buscar pra botar no cabelo

Toda minúcia

Toda delícia

Não me amarra dinheiro não

Mas elegância

Não me amarra dinheiro não

Mas a cultura

Dinheiro não

A pele escura

Dinheiro não

A carne dura

Dinheiro não

Moço lindo do Badauê

Beleza pura Do Ilê Aiyê

Beleza pura

Dinheiro yeah

Beleza pura

Dinheiro não

Dentro daquele turbante dos Filhos de Ghandi

É o que há

Tudo é chique demais

Tudo é muito elegante

Manda botar Fina palha da costa e que tudo se trance

Todos os búzios

Todos os ócios

Não me amarra dinheiro não

Mas os mistérios "

Beleza Pura, Caetano Veloso

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Tempestade silenciosa

Então entraram no quarto de José Arcadio Buendía, sacudiram-no com toda a força, gritaram-lhe ao ouvido, puseram um espelho diante das fossas nasais, mas não puderam despertá-lo. Pouco depois, quando o carpinteiro tomava as medidas para o ataúde, viram pela janela que estava caindo uma chuvinha de minúsculas flores amarelas. Caíram por toda a noite sobre o povoado, numa tempestade silenciosa, e cobriram os tetos e taparam as portas, e sufocaram os animais que dormiam ao relento. Tantas flores caíram do céu que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta, e eles tiveram que abrir caminho com pás e ancinhos para que o enterro pudesse passar.


Trecho de Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez