sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Corcovado

Um cantinho, um violão
Esse amor, uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama

Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar

Da janela, vê-se o Corcovado
O Redentor, que lindo!

Quero a vida sempre assim
Com você perto de mim
Até o apagar da velha chama

E eu que era triste
Descrente desse mundo
Ao encontrar você, eu conheci
O que é felicidade, meu amor

Tom Jobim

Todos os portos


"A campanha interior terminou com a minha capitulação. Fui conquistada pelos exércitos de Deus. É possível que na minha hinterlândia os soldados do diabo ainda continuem na sua atividade de guerrilhas. Mas o importante é que sou uma terra ocupada por Deus. Todas as praias. Todos os portos. Todas as cidades. Todas as planícies, montanhas, florestas, vales... Isso transformou por completo a minha vida. Acho que posso agora enfrentar com mais coragem as minhas dificuldades e resolver melhor os meus problemas. Já não tenho mais receio das minhas noites nem acho longos nem vazios os meus dias."


Do diário de Sílvia, Érico Veríssimo

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A linda rosa


Pior que o melhor de dois
Melhor do que sofrer depois
Se é isso que me tem ao certo
A moça de sorriso aberto

Ingênua de vestido assusta
Afasta-me do ego imposto
Ouvinte claro, brilho no rosto
Abandonada por falta de gosto

Agora sei não mais reclama
Pois dores são incapazes
E pobres desses rapazes
Que tentam lhe fazer feliz

Escolha feita inconsciente
De coração não mais roubado
Homem feliz, mulher carente
A linda rosa perdeu pro cravo


Ouça na voz de Maria Gadú aqui.

A bossa, a fossa, a nossa grande dor

Saudosismo

Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado
Aquela flor
E outras mumunhas mais
Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E o mundo dissonante que nós dois
Tentamos inventar, tentamos inventar
Tentamos inventar, tentamos...

A felicidade, a felicidade
A felicidade, a felicidade


Eu, você, depois
Quarta-feira de cinzas no país
E as notas dissonantes se integraram
Ao som dos imbecis
Sim, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
A bossa, a fossa, a nossa grande dor
Como dois quadradões

Lobo, lobo bobo
Lobo, lobo bobo


Eu, você, João
Girando na vitrola sem parar
E eu fico comovido de lembrar
O tempo e o som
Ah! Como era bom
Mas chega de saudade
A realidade é que
Aprendemos com João
Pra sempre
A ser desafinados
Ser desafinados
Ser desafinados
Ser...

Chega de saudade, chega de saudade

Chega de saudade, chega de saudade

(Caetano Veloso)

Ouçam
aqui na voz do próprio Caetano e aqui na voz de Gal Costa!

Angico



"Enquanto a velha permaneceu à janela, Floriano e eu ficamos calados, quase contentendo a respiração, como duas crianças que não querem ser descobertas pelo dono do pomar onde foram roubar frutas. Depois que a Dinda desapareceu, murmurei : ´Falta um Cambará na tua história.`F. sorriu:` Ah!Esse é o forasteiro. O homem sem passaporte. Sente que amar, compreender e contar com o apoio dessa mulher é algo de essencial para a manutenção de sua identidade e para a sua salvação como artista e como homem. Não sabe ao certo se a ama nem se é amado por ela. Só tem uma certeza que ao mesmo tempo o anima e pertuba: a necessidade desse amor`.
Parti um pêssego pelo meio e dei uma das metadas a F. Pusemo-nos a comer. Era uma comunhão. Um ato de puro amor."

Do diário de Sílvia, Érico Veríssimo

Paciência



Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não


A vida não para.

A vida é tão rara.

(Lenine)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Outros clubes de leitura...

Estava lendo uns poemas da época da minha mãe e me deparei com esse aqui! Me lembrou da gente! (claro que somos menos formais!). Tem até uma Luzia!









O Passado...

O salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
“Clube Literário Goiano”.
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.

Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.

Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.

D.Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.

...

Cora Coralina

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Se é pra viver, viverei!


Se é para esquecer, eu não esqueço!
Se é pra perdoar, já perdoei!
Não cabe em meu amor
A mágoa da paixão,
Carinho que eu fiz
Não vai virar espinho!

Se é para amar, eu sigo amando!
Se é para viver, viverei!
Eu só não vou mudar meu pensamento,
Não quero mais saber de solidão!



Canção: Pensamento.
Composição: Milton Nascimento e Fernando Brant
.

Pétala















O seu amor
Reluz
Que nem riqueza
Asa do meu destino
Clareza do tino
Pétala
De estrela caindo
Bem devagar...

Oh, meu amor!
Viver
É todo sacrifício feito em seu nome
Quanto mais desejo um beijo

Um beijo seu
Muito mais eu vejo gosto em viver
Viver!

Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim!

Djavan

Despertar a alma


"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.
Primeiro trouxeram o ímã. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal*, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos tentando se desencravar, e até os objetos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. "As coisas têm vida própria", apregoava o cigano com áspero sotaque, "tudo é questão de despertar a sua alma."

Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez