segunda-feira, 10 de maio de 2010

- felicidade

O tempo é sempre abundante em suas entregas...

"[...]Ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro, afinal, que força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua poeira? é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há de cruzar os braços quando existe o irmão para socorrer; caprichoso como uma criança, não se deve contudo retrair-se no trato do tempo, bastando que sejamos humildes e dóceis diante de sua vontade, abstendo-nos de agir quando ele exigir de nós a contemplação, e só agirmos quando ele exigir de nós a ação, que o tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas [...]"


Trecho de Lavoura Arcaica. Raduan Nassar.

Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam vôo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto;

alimentam-se um instante em cada

par de mãos e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti...


Mário Quintana.

domingo, 9 de maio de 2010

Enquanto o mar bate azul em Ipanema...

Onde andarás
Onde andarás nesta tarde vazia
Tão clara e sem fim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema te esqueces de mim?
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema te esqueces...
Eu sei, meu endereço apagaste do teu coração
A cigarra do apartamento
O chão de cimento existem em vão
Não serve pra nada a escada, o elevador
Já não serve pra nada a janela
A cortina amarela, perdi meu amor
E é por isso que eu saio pra rua
Sem saber pra quê
Na esperança talvez que o acaso
Por mero descaso me leve a você
Na esperança talvez que o acaso
Por mero descaso
Me leve... eu sei
Ouçam aqui essa música do Caetano Veloso.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Aquela canção inesquecível...


Olá, estimadas literatas!

Bem-vindas a mais uma edição do "Eu indico...". Anteriormente, passeamos mundo afora, Abandonando os confins brasileiros , e nos deliciamos com produções musicais de diversos países... Confesso que me deu muita vontade de continuar aquela viagem, indo a locais muito mais exóticos, como algum país árabe ou mesmo o Japão... Contudo, hoje, faremos um passeio diferente nessa esfera temporal...Sabe Aquela canção inesquecível... das cenas de cinema? Aquela, que casa tão perfeitamente com o acontecimento que dá vontade de viver em um filme?! Pois são estas as canções que vão compor o nosso cenário nesta sexta-feira.

Quem nunca parou diante de uma cena como as de cinema e ficou imaginando-se nela? Imaginando como seria viver neste paraíso, onde tudo pode ser compreendido por meio de uma canção? Imaginando todas aquelas danças maravilhosas, aquele jantar à luz de velas e tudo o mais que parece existir apenas em livros e nas telonas?! Ou mesmo aquela declaração de amor, cantarolada especialmente para você?! São tantos os cenários, tantas as situações que nos levam ao mundo da sétima arte...

Posso dizer, sem qualquer dúvida, que esta seleção tornou-se a mais delicada de todas as que fiz, pois baseei-me em puro gosto pessoal, já que escolher apenas sete canções de tantas cenas magníficas que existem seria desmerecer tantos outras películas que não foram escolhidas. Aproveito, então, para já lhes fazer a pergunta da semana: qual é a trilha sonora que mais lhe marcou em sua vida?!

Bom, sem mais delongas, vamos à nossa sétima posição.Quem não se lembra da cena em que um lutador sai correndo em seu moletom cinza até chegar ao topo de uma escadaria? Aonde foi que eu vi isso? Foi em um filme, um seriado? Provavelmente, nos dois. Esta é uma das cenas mais parodiadas e reinventadas da história do cinema, sendo a original parte do filme Rocky II - A Revanche, com Sylvester Stallone. A sequência foi lançada em 1979, e compõe a história do boxeador que está dividida em seis películas. Fiquem com a cena de Rocky, com a canção Eye of the Tiger, do grupo Survivor.




E quem não se lembra de um tipo usando um chapéu, um casaco sobre seu terno e gravata e guarda-chuvas? Bem, na verdade, o guarda-chuvas vira apenas adereço, já que ele se recusa a ficar debaixo dele... Estamos falando do longa-metragem de 1952, estreado por Gene Kelly, Cantando na chuva. É uma história linda, e sua canção é simplesmente contagiante... dá até vontade de sair dançando sob os pingos d'água... Com vocês a nossa sexta posição, Singing in the rain.




Quem nunca matou aula para fazer coisa mais interessante?! Em nossa quinta posição, temos Curtindo a vida adoidado, lançado em 1986, onde um adolescente, sua namorada e seu melhor amigo decidem sair por aí, em um dia normal de aulas, para aproveitar a vida. Ao som de Beatles, com Twist and Shout, podemos presenciar a algazarra que Ferris Bueller apronta neste clássico dos anos 1980'...




E quem nunca desejou uma declaração de amor em público? Especialmente se o seu amado estiver cantando algo bem romântico?! Mas, é claro, uma pitadinha de humor não faz mal a ninguém... Hei de confessar que esta é uma das cenas que me fazem desejar ter nascido em um filme...Em nossa quarta posição temos Heath Ledger, em Dez coisas que eu odeio em você (1997), cantando o sucesso de Diana Ross, Can't take my eyes off of you (I love tou baby).



Ah...e quem nunca desejou ser amada por alguém tão intensa e puramente, que fosse capaz de alimentar este amor até além da vida? Esta é uma das histórias mais ternas e belas do cinema nos anos 1990'. Com vocês, nossa terceira posição, o filme Ghost. Aproveitem as cenas de Demi Moore e Patrick Swayze ao som de Righteous Brothers, com Unchained Melody.




Sabe aquele amor que ultrapassa fronteiras?! Aquele, que nos faz abrir mão de tudo o que temos para estarmos com a pessoa amada, mesmo que por alguns segundos?! Quem nunca desejou isto?!Nada representa melhor do que Cidade dos Anjos (1998), um dos meus filmes prediletos, e que já me arrancou boas lágrimas. Afinal, o que não vale o amor puro? Neste caso, vale toda a dor, todo o sofrimento, e, acima de tudo, toda a paixão. Dedico a vocês, então, a canção Iris, do grupo Goo Goo Dolls.





Chegamos à nossa primeira posição, e ao que podemos chamar de perfeita cena de cinema. A cumplicidade dos olhares, a sincronia em seus pensamentos e passos...tudo isso faz de Ritmo Quente (1987) um dos melhores filmes que já vi - é meu favorito, aliás. E quem nunca ouviu aquela canção da dança final e não se recordou do filme imediatamente? É por essas e por outras que (I've had) the time of my life , de Bill Medley & Jennifer Warnes e She's like the Wind, de Patrick Swayze levam a nossa medalha de ouro.




Espero que tenham gostado da nossa seleção de hoje.
E, ah, gostaria de uma sugestão de tema para a nossa próxima sexta-feira.

Até lá.

Leveza




Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.



Cecília Meireles

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Foto: Coribe-BA



Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voar

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção

Tem um verdadeiro amor
Para quando você for



Vilarejo - Marisa Monte



Fantasia do sonho


"Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho."
Terra Sonâmbula, Mia Couto