sexta-feira, 16 de abril de 2010

Esta velha angústia

Poema de Álvaro de Campos acompanhado da bela interpretação de Paulo Autran.

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O sétimo filho

"Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições, ou na hora dos sermões: o pai à cabeceira; à direita por ordem de idade, vinha o primeiro o Pedro, seguido de Rosa, Zuleika, e Huda; à sua esquerda, vinha mãe, em seguida eu, Ana, e Lula, o caçula." (L.A.)


Cena do filme "Lavoura Arcaica", direção de Luiz Fernando Carvalho e fotografia de Walter Carvalho.

"[sermão]O mundo das paixões é um mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado." (L.A.)


***


João Nassar e Chafika Cassis mudaram-se do sul do Líbano para o Brasil em 1920. Aqui, mais especificamente no interior de São Paulo, tornaram-se comerciantes e constituíram sua família. O sétimo dos dez filhos do casal é (ninguém mais, ninguém menos que) Raduan Nassar, autor da obra do mês do nosso Clube do Livro, Lavoura Arcaica.
Não costumo, em minhas análises, dar tanta ênfase à história de vida do autor, talvez pela tendência, ou pelo vício, da dialética construtivista, ou quem sabe por acreditar na independência da obra artístico-literária. Enfim, me explico por mudar essa prática neste caso.
Não revelarei os mistérios (sórdidos, sim, sórdidos!) de Lavoura Arcaica e de nosso 'herói' André, mas me atrevo a sugerir uma relação entre a vida do sétimo de João e a do quinto de Ióhana, Raduan e André, respectivamente.
Ambos foram criados sob os sermões tradicionais dos pais, sob o julgo da cultura árabe-libanesa. Posso falar com mais propriedade de André, de quem me aproximo e com quem me surpreendo a cada releitura... (é incrível o sentimento de perda, o vazio, o desconsolo! como se morresse alguém da família ao final de um livro que nos consome dessa forma)

Bradou Ióhana, o pai:

"Cale-se! Não vem desta fonte a nossa água, não vem destas trevas a nossa luz, não é a tua palavra soberba que vai demolir agora o que levou milênios para se construir; ninguém em nossa casa há de falar com presumida profundidade, mudando o lugar das palavras, embargando as ideias." (L.A.)

Raduan, na infância, sofreu com as crises epilépticas, com o preconceito e com o constrangimento a cada convulsão. Era obrigado pelos pais a frequentar a Igreja Católica e conservou-se beato até a adolescência, quando iniciou os estudos nas Faculdades de Filosofia, Literatura e Direito, na USP. Qual a relação disso com a vida de André? Descubram.

A meu ver, André foi desprivilegiado por não ter acesso a estudos como Raduan... mesmo assim possui uma mente inquieta, atormentada por ideias radicais diante da vida familiar que leva, além da insana e incontrolável paixão por Ana.

A biografia completa do autor vocês encontram aqui.

Obras do autor editadas em livros:

Lavoura arcaica (1975),

Um copo de cólera (novela de 1978) e

Menina a caminho (conto de 1994).


quarta-feira, 14 de abril de 2010

Blackbird, fly


"Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life...
You were only waiting for this moment to arise.

Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see

All your life...
You were only waiting for this moment to be free.


Blackbird, fly..."



(Trechos da música Blackbird, dos Beatles)


Queridas literatas,
Gostaria de compartilhar com vocês, ocasionalmente, trechos de algumas composições da minha banda preferida! Assim, quem não costuma escutar Beatles, pode se interessar! A maioria das músicas é incrível! Recomendo de verdade!
Então, esse foi o post de estreia. De vez em quando, eu postarei aqui, entre outras coisas, trechos de músicas dos Fab Four !
Espero que todas gostem!
Abraços,

Minhas coisinhas pobres


Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.
Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”
Cora Coralina

Das utopias



Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não quere-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

(Mario Quintana)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Procurar bem


"Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida"
Drummond

Bom dia com poesia

Nada melhor do que um poema para acompanhar torradas com geleia e um capuccino quente nessa manhã fria de Brasília.

O impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

Manuel Bandeira

segunda-feira, 12 de abril de 2010

"É requinte de saciados testar a virtude da paciência com a fome de terceiros..."

"eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai, que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos compêndios, mas que existia uma outra medicina (a minha!), e que fora de mim eu não reconhecia qualquer ciência, e que era tudo só uma questão de perspectiva, e o que valia era o meu e só o meu ponto de vista, e que era um requinte de saciados testar a virtude da paciência com a fome de terceiros, e dizer tudo isso num acesso verbal, espasmódico, obsessivo, virando a mesa dos sermões num revertério, destruindo travas, ferrolhos e amarras, tirando não obstante o nível, atento ao prumo, erguendo um outro equilíbrio"



"Na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá do bosque que eu escapava aos olhos apreensivos da família; amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e, deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma vergada ao peso de um botão vermelho"


***


Saindo dos ares franceses, aristocráticos e requintados de Madame Bovary, e para ir entrando no clima do próximo mês, que terá como ápice o encontro dia dia 14/05, trago trechos de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, nossa próxima inspiração!


Romantismo




Essa onda Madame Bovary me deixou super romântica. Ando com vontade de usar vestidos fofos, tomar vinho, morrer de amores, escutar musica chorosa, ver filmes de "mulherzinha". Aí, procurando inspirações para esse momento romântico, achei essa super dica que preciso divulgar! Olha que fofo e romântico é esse penteado!

Olhai os lírios do campo


"Precisamos dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu."
Érico Veríssimo