segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sinha Vitória



"Acocorada junto às pedras que serviam de trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, Sinha Vitória soprava o fogo. Uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se do cabeção e bateu na panela. Sinha Vitória limpou as lágrimas com as costas das mãos, encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no seio e continuou a soprar com vontade, enchendo muito as bochechas.
Labaredas lamberam as achas de angico, esmoreceram, tornaram a levantar-se e espalharam-se entre as pedras. Sinha Vitória aprumou o espinhaço e agitou o abano. Uma chuva de faíscas mergulhou num banho luminoso a cachorra Baleia, que se enroscava no calor e cochilava embalada pelas emanações da comida".


Vidas secas, de Graciliano Ramos

2 comentários:

  1. O que faltava para a "felicidade plena" de Sinha Vitória era apenas uma boa cama, uma cama de verdade, como a do Seu Tomás da Bolandeira. Durante a leitura, fico impressionada como as personagens dão valor às pequenas coisas, que pra eles significam tanto.

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  2. E que a gente às vezes não dá o valor devido, né?!

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