domingo, 11 de março de 2012

Sombra




"As manchas dos juazeiros tornaram a aparecer, Fabiano aligeirou o passo, esqueceu a fome, a canseira e os ferimentos. As alpercatas dele estavam gastas nos saltos, e a embira tinha-lhe aberto entre os dedos rachaduras muito dolorosas. Os calcanhares, duros como cascos, gretavam-se e sangravam. Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca, encheu-o a esperança de achar comida, sentiu desejo de cantar. A voz saiu-lhe rouca, medonha. Calou-se para não estragar força. Deixaram a margem do rio, acompanharam a cerca, subiram uma ladeira, chegaram aos juazeiros. Fazia tempo que não viam sombra. Sinha Vitória acomodou os filhos, que arriaram como trouxas, cobriu-os com molambos. O menino mais velho, passada a vertigem que o derrubara, encolhido sobre folhas secas, a cabeça encostada a uma raiz, adormecia, acordava. E quando abria os olhos, distinguia vagamente um monte próximo, algumas pedras, um carro de bois. A cachorra Baleia foi enroscar-se junto dele".



Graciliano Ramos, em Vidas secas

4 comentários:

  1. *.Mil postagens no Clube das Literatas!.*

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  2. Oba! Que livro bonito e triste ao mesmo tempo.

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  3. Como a Dani fica sabendo dessas coisas? hahahahaha

    Este livro é apaixonante! A gente fica com vontade de levar os meninos e a Baleia pra casa! De dar um emprego melhor pro Fabiano e arrumar os cabelos da Sinha Vitoria!

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  4. É mesmo um tesouro esse livro. Estou lendo pela terceira vez e sempre me emociono.

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